TECNOLOGIA

MCTI consolida protagonismo na diplomacia científica e na Cultura Oceânica durante a UNOC3

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) teve participação de destaque na 3ª Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC3), realizada de 9 a 13 de junho, em Nice, na França. A semana foi marcada por uma ampla articulação internacional e pela reafirmação do compromisso brasileiro com uma ciência oceânica transformadora, inclusiva e orientada a soluções concretas.

Por meio da Secretaria de Políticas e Programas Estratégicos (SEPPE), o ministério apresentou ações e políticas públicas que integram ciência, tecnologia e inovação para a proteção dos oceanos e a promoção do desenvolvimento sustentável.

A secretária de Políticas e Programas Estratégicos do MCTI, Andrea Latgé, destacou a liderança brasileira no campo da cultura oceânica e o papel estratégico do Brasil na agenda internacional de sustentabilidade marinha.

“O Programa de Cultura Oceânica consolida o compromisso do Brasil com a sustentabilidade e a educação transformadora, adotando o oceano, e a forma como a sociedade compreende sua relação com ele, como eixo central para a formulação de políticas públicas inovadoras e ações educativas integradoras”, afirmou.

A delegação brasileira participou de dez painéis, mesas de debate e eventos paralelos, tratando de temas estratégicos como observação oceânica, inovação azul, cooperação Sul-Sul, cultura oceânica e proteção aos recifes de corais. Ao longo da semana, o MCTI assumiu três compromissos voluntários, com destaque para o diálogo dinâmico entre diplomacia e ciência na região da ZOPACAS (Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul), conectando países africanos e sul-americanos na cocriação de soluções oceânicas pacíficas, inclusivas e sustentáveis.

Leandro Pedron, diretor do departamento de Programas Temáticos do MCTI, destacou que o oceano precisa ser tratado como prioridade permanente nas agendas nacionais e internacionais. Segundo ele, a participação do Brasil na UNOC evidenciou esse compromisso, com o país sendo reconhecido por outras nações por suas ações concretas.“Acho que esse é um dos pontos mais importantes: o Brasil teve muito reconhecimento aqui, em todos os painéis que participamos”, afirmou.

Eventos co-organizados pelo MCTI

Entre os eventos com coparticipação do MCTI, três tiveram papel central na articulação de políticas públicas e parcerias multilaterais:

• “Educação Azul para uma sociedade sustentável e resiliente”, coorganizado com a UNESCO,
• “South by South Seaside @ UNOC – Edição ZOPACAS”, promovido junto ao Ministério das Relações Exteriores e o governo de Cabo Verde, e
• “Reunião Global dos Comitês Nacionais da Década”, em parceria com a COI-UNESCO, Alemanha e Nova Zelândia.

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Durante a Reunião Global dos Comitês, o Brasil apresentou a mensagem oficial do Comitê Nacional da Década do Oceano, propondo o fortalecimento da ciência, da formação profissional e da infraestrutura de pesquisa com foco em diversidade, equidade e inclusão. A proposta prevê ainda a reavaliação do Plano Nacional, a ampliação da articulação multissetorial com estados e municípios, e a integração com políticas e acordos globais.

“Com leis locais pioneiras, o programa Escola Azul, que já envolveu mais de 140 mil estudantes, e uma participação recorde na Olimpíada do Oceano, o Brasil demonstra seu compromisso com a ciência oceânica, a educação e a sustentabilidade, alinhando-se aos objetivos da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável”, reforçou Latgé.

Currículo Azul

Um dos marcos recentes apresentados na UNOC3 foi a formalização do Currículo Azul, uma iniciativa inédita no mundo. Em abril, o Brasil tornou-se o primeiro país a se comprometer a incorporar oficialmente a cultura oceânica ao currículo escolar nacional, recebendo o reconhecimento da UNESCO como referência global na área. A ação é coordenada conjuntamente pelo MCTI e pelo Ministério da Educação (MEC), e integra outras frentes como o protocolo de intenções entre os ministérios, a Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica, o fortalecimento da rede de Escolas Azuis e as Olimpíadas do Oceano.

Leandro Pedron citou o Currículo Azul como uma das principais iniciativas destacadas pelo Brasil na conferência, ao lado da proposta de um sistema de observação para conectar dados do Atlântico Sul, ainda marcado por lacunas, e o foco na popularização da ciência por meio da cultura oceânica. Ele também ressaltou o fortalecimento dos laços com países do Sul Global, especialmente da África e da América Latina, que demonstraram constante aproximação e reconhecimento do papel estratégico desempenhado pelo Brasil, com forte protagonismo do MCTI.

“É muito bom, muito concreto, ver que o Brasil tem se colocado consistentemente numa posição de liderança”, afirmou.

O Brasil também reforçou sua posição como polo de articulação da cooperação científica Sul-Sul, com destaque para a ampliação do diálogo com países da África e do Atlântico Sul. A edição ZOPACAS do evento South by South Seaside foi uma das mais expressivas nesse sentido, reunindo representantes de Cabo Verde, Angola, África do Sul, além de países como Alemanha, Nova Zelândia, Portugal, França, Noruega, Filipinas, Suécia, Itália e Polinésia Francesa.

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“Precisamos construir ciência de forma colaborativa, com múltiplos atores envolvidos em todas as etapas: do planejamento à entrega de soluções. A ZOPACAS representa uma oportunidade estratégica para criar pontes entre os países do Atlântico Sul, unindo capacidades, saberes e ações em prol de um oceano mais saudável, sustentável e acessível a todos”, destacou Latgé.

Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável

A proposta da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, liderada pela COI-UNESCO, busca impulsionar uma ciência orientada a soluções, que dialogue diretamente com a formulação de políticas públicas, modelos de governança e tecnologias inovadoras. Nesse sentido, o Brasil defendeu a necessidade de uma abordagem colaborativa e multissetorial, destacando boas práticas já implementadas no país.

“O MCTI atua como coordenador técnico e político da agenda, garantindo sua integração transversal com áreas como meio ambiente, clima, educação, saúde e economia, traduzindo as diretrizes internacionais da Década do Oceano em políticas públicas concretas para o Brasil”, explicou a secretária.

Para Leandro, é possível perceber de forma concreta o protagonismo que o Brasil tem assumido na agenda oceânica, especialmente no Sul Global, mas também no cenário internacional. Ele reforça que, diante da emergência climática, é impossível ignorar o papel essencial do oceano como um dos principais atores no enfrentamento dos desafios globais.

Como desdobramento estratégico, a participação do Brasil na UNOC3 também fortaleceu a candidatura para sediar, em 2027, a próxima Conferência da Década da Ciência Oceânica, evento distinto da UNOC, mas igualmente central para a agenda global. A cidade do Rio de Janeiro foi proposta como sede e já conta com o apoio institucional da prefeitura, que integrou as discussões durante a conferência em Nice.

A agenda da UNOC3 reforçou o posicionamento do Brasil como protagonista em diplomacia científica oceânica e ampliou as bases para novas parcerias, investimentos e compromissos a favor do oceano. Ao colocar o mar no centro das políticas públicas de CT&I, o país reafirma seu papel de liderança na construção de um futuro mais justo, resiliente e sustentável.

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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TECNOLOGIA

Do laboratório à linha de frente: Sandra Coccuzzo transforma pesquisa em resposta concreta à sociedade

A biomedicina poderia ter levado Sandra Coccuzzo por muitos caminhos. Mas foi no Laboratório de Fisiopatologia do Instituto Butantan que a pesquisadora, ainda estagiária, encontrou o seu lugar. Hoje, doutora em farmacologia e diretora do Centro de Desenvolvimento Científico (CDC), integra o instituto há mais de 30 anos. Nesse percurso, investigou o potencial terapêutico do veneno de serpentes, esteve na linha de frente da pandemia de covid-19 e participou da formação de diversos cientistas. 

O impacto do trabalho ultrapassou os limites do laboratório, especialmente durante a pandemia, quando a ciência passou a ocupar o centro do debate público. Pesquisas antes restritas ao ambiente acadêmico passaram a ser acompanhadas pela população, com expectativa concreta de aplicação em tratamento e cuidado. 

Antes disso, o caminho até a pesquisa foi guiado pela curiosidade. Ainda na graduação, Sandra buscava compreender os mecanismos por trás das doenças. “A biomedicina tem uma característica de te instigar a perguntar, de querer entender o porquê das coisas. E foi isso que me capturou”, afirma. O primeiro contato com o Butantan também veio por meio de outra mulher, que a encaminhou a uma pesquisadora da instituição. O gesto acabou definindo o rumo da sua carreira — e se repetiria ao longo da trajetória. 

Crotoxina 

No Laboratório de Fisiopatologia, passou a investigar o potencial de substâncias presentes no veneno da cascavel, em especial a crotoxina. O que poderia ser visto como elemento nocivo revelou-se, sob determinadas condições, uma fonte promissora para o desenvolvimento de novas terapias. “Existe uma frase na farmacologia: entre o veneno e o remédio está a dose”, explica. 

Os estudos demonstraram que, em concentrações controladas, a toxina pode modular o sistema imunológico, com potencial terapêutico, inclusive em processos inflamatórios e tumorais. Com o avanço das pesquisas, o foco passou a incluir a compreensão detalhada de sua estrutura molecular, possibilitando a reprodução dessas moléculas em laboratório. 

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Esse processo permite transformar um elemento natural em base para medicamentos sem depender da extração contínua de venenos. “A natureza funciona como um protótipo. A gente aprende com ela e consegue reproduzir essas moléculas de forma sintética”, afirma. 

A dimensão do trabalho se ampliou quando os resultados passaram a circular fora do ambiente acadêmico. “Eu comecei a receber cartas de mães com crianças em tratamento. Pessoas que viam na pesquisa uma esperança. Isso não tem preço.” 

O enfrentamento à covid-19 

Esse movimento se intensificou durante a pandemia. “As pessoas passaram a entender o que é ciência, a se interessar. Hoje existe uma expectativa real sobre o que a pesquisa pode trazer para a vida delas”, afirma. 

À frente de estruturas estratégicas do Butantan, Sandra participou da organização de respostas diretas à crise sanitária, incluindo iniciativas voltadas ao diagnóstico molecular e à vigilância do vírus. 

A pesquisa passou a operar em tempo real, com impacto direto sobre decisões em saúde pública. Foi nesse contexto em que ela contraiu covid-19, mantendo-se em isolamento enquanto acompanhava as atividades do instituto, em um momento em que a ciência se consolidava como ferramenta central no enfrentamento da crise. 

Mulher e cientista 

Ao longo dessa trajetória, a presença feminina na ciência aparece como parte do caminho que Sandra precisou sustentar. No Brasil, a participação de mulheres em publicações científicas passou de 38%, em 2002, para 49%, em 2022, segundo relatório da Agência Bori e da Elsevier. Ainda assim, a desigualdade persiste nos espaços de liderança: em 2023, elas ocupavam 45,6% dos grupos de pesquisa, com menor presença em áreas científicas e tecnológicas. 

Sandra reconhece esse peso no próprio percurso. “Tem, sim. Eu tenho uma família extremamente contributiva. Meu marido sempre me deu muito apoio. Mas, nitidamente, você está dobrando sua responsabilidade”, afirma. 

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Ao assumir a direção científica, passou a acumular gestão, produção científica, formação de pesquisadores e captação de recursos. “Eu não posso deixar de ser cientista. Eu não posso deixar de formar pessoas. Eu não posso deixar de recrutar recursos”, resume. 

A maternidade atravessou esse processo. Para sustentar todas as frentes, precisou reorganizar a rotina. “Eu tive que sucumbir o meu tempo de casa para não deixar os pratinhos caírem”, diz. 

A trajetória, no entanto, não foi solitária. Sandra destaca a importância de uma rede de apoio formada por outras mulheres, desde referências no início da carreira até o apoio da mãe, Valéria, e de pesquisadoras e familiares. Mesmo com reconhecimento, as diferenças de tratamento ainda aparecem. “Existem posições que você toma que, se eu fosse homem, seriam acatadas e ovacionadas. Por eu ser mulher, elas são ouvidas e primeiro racionalizadas.” 

Instituída em 2004 por decreto do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) é realizada anualmente pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em parceria com universidades, instituições de pesquisa, agências de fomento, escolas, museus, governos locais, empresas e entidades da sociedade civil. Em 2026, ao adotar como tema as Mulheres e Meninas na Ciência, a iniciativa reforça a centralidade de trajetórias como as de Sandra — pesquisadora cujos trabalhos demonstram, na prática, como a produção científica liderada por mulheres amplia o impacto social da ciência, conecta conhecimento às necessidades da população e contribui para a construção de um sistema científico mais diverso e representativo.

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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