TECNOLOGIA
ENTREVISTA | Entenda a relevância da transparência climática no Acordo de Paris
O Acordo de Paris, que completa dez anos em 2025, tem na Estrutura de Transparência Aprimorada (ETF, na sigla em inglês), prevista pelo Artigo 13o, um pilar basilar que provê informações mais acuradas e comparáveis em âmbito global. Por isso, a submissão dos primeiros relatórios bienais de transparência pelas Partes, como o tratado denomina os países, no ano passado, foi considerado um passo relevante para a plena implementação do Acordo.
“A transparência é nomeada como a ‘espinha dorsal’ do Acordo de Paris”, sintetiza o especialista no tema no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e assessor técnico do projeto Ciência&Clima, Ricardo Araujo.
Até o momento, mais de 100 países signatários enviaram seus relatos ao Secretariado da Convenção do Clima. Na reunião dos Órgãos Subsidiários (SB62), chamada de Pré-COP, realizada em Bonn em junho, foram realizados processos de consideração multilateral facilitada de alguns desses relatórios. O relatório do Brasil, que foi avaliado por especialistas internacionais em maio, passará por esse processo em edições futuras dos SBs.
O assessor acompanhou as negociações de transparência em Bonn e explica quais os avanços neste item de agenda e as expectativas para a COP30. “As Partes farão um balanço dos avanços obtidos e decidirão quais são os próximos passos para garantir, de maneira efetiva, o suporte técnico e financeiro que é necessário para que os países em desenvolvimento implementem os seus sistemas nacionais de transparência”, afirma.
Leia a entrevista completa:
Ciência&Clima: Em termos práticos, o que é transparência climática?
Ricardo Araujo: A agenda de transparência trata das decisões relacionadas à implementação e operacionalização do ETF, que é a sigla em inglês para Estrutura de Transparência Aprimorada do Acordo de Paris. Isso inclui a elaboração e submissão dos Relatórios Bienais de Transparência, as revisões técnicas por especialistas, os relatórios sínteses que são elaborados pelo Secretariado da UNFCCC, assim como o estabelecimento e o aprimoramento dos sistemas nacionais de reporte pelos países.
Ciência&Clima: O que esse conjunto de ações significa no enfrentamento da mudança do clima?
Ricardo Araujo: O ETF é um instrumento no Acordo de Paris que garante a implementação dos mecanismos necessários para o sucesso desse Acordo, tais como o Global Stocktake, o mecanismo no Artigo Sexto [mercado global de carbono], o suporte financeiro, tecnológico e de capacitação aos países em desenvolvimento. Assim como o monitoramento do atingimento das Contribuições Nacionalmente Determinadas.
Ciência&Clima: Pode-se dizer que a agenda de transparência é um pilar basilar do Acordo de Paris?
Ricardo Araujo: Sem dúvida, a transparência é nomeada como a ‘espinha dorsal’ do Acordo de Paris.
Ciência&Clima: Quais foram os avanços nas negociações em relação à agenda de transparência em Bonn, quais os principais tópicos discutidos e sua avaliação?
Ricardo Araujo: A agenda de transparência vem acumulando marcos importantes desde o final de 2024, quando se iniciaram as submissões dos primeiros Relatórios Bienais de Transparência. Até o momento, 103 países submeteram seus relatórios. Ao longo de 2025, os países vêm passando pelo processo de revisões técnicas desses relatórios, incluindo o Brasil, que também passou por esse processo e agora está na fase de revisão do relatório final.
Em Bonn, foram realizadas as primeiras sessões de consideração de progresso multilateral e facilitado, no qual as Partes têm oportunidade de trocar experiências e as lições aprendidas sobre o seu processo de elaboração dos BTR.
O Brasil participou dessas sessões, não apresentando o seu BTR, mas estava lá justamente para aprender com os outros países, tirar dúvidas, fazer perguntas.
Ciência&Clima: Quais as expectativas em relação à agenda de transparência para COP 30?
Ricardo Araujo: Durante a COP 30, as Partes farão um balanço dos avanços obtidos e decidirão quais são os próximos passos para garantir, de maneira efetiva, o suporte técnico e financeiro que é necessário para que os países em desenvolvimento implementem os seus sistemas nacionais de transparência.
O Brasil, juntamente com os outros países, vem participando de um programa de trabalho que foi decidido na COP de Dubai, em 2023. Desde então, uma série de diálogos, workshops técnicos, submissões dos países vêm sendo feitas. Os países vêm levantando quais são os seus desafios, suas necessidades e tudo isso está sendo, de uma certa maneira, organizada e sintetizado para que nós tenhamos um panorama mais acurado de onde estamos e para onde precisamos ir.
Ciência&Clima: Qual tem sido a contribuição do projeto Ciência&Clima no apoio ao Brasil nas negociações do item de transparência da agenda climática?
Ricardo Araujo: O projeto contribui com equipe e aporte técnico à delegação de diplomatas do Brasil nas negociações de transparência no âmbito do Acordo de Paris e por meio de diálogos técnicos com os grupos negociadores, facilita o atingimento de consenso entre as Partes, nas decisões nos órgãos subsidiários, de assessoramento técnico, científico e de implementação da UNFCCC.
A transparência é um item de agenda que traz informações e temas que são muito relacionados com a implementação da política de transparência no país. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, com apoio do projeto Ciência&Clima, é esse ator no governo brasileiro. Então, é importante que os diplomatas, os negociadores tenham acesso a essas informações para poder formar um posicionamento de país muito mais alinhado com as necessidades nacionais.
Sobre o projeto Ciência & Clima
O projeto de cooperação técnica internacional Ciência&Clima elabora as Comunicações Nacionais e os Relatórios Bienais de Transparência do Brasil à Convenção do Clima. A iniciativa é executada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF). O projeto também difunde informações relevantes com objetivo de promover a conscientização sobre os impactos da mudança do clima no Brasila
TECNOLOGIA
Do laboratório à linha de frente: Sandra Coccuzzo transforma pesquisa em resposta concreta à sociedade
A biomedicina poderia ter levado Sandra Coccuzzo por muitos caminhos. Mas foi no Laboratório de Fisiopatologia do Instituto Butantan que a pesquisadora, ainda estagiária, encontrou o seu lugar. Hoje, doutora em farmacologia e diretora do Centro de Desenvolvimento Científico (CDC), integra o instituto há mais de 30 anos. Nesse percurso, investigou o potencial terapêutico do veneno de serpentes, esteve na linha de frente da pandemia de covid-19 e participou da formação de diversos cientistas.
O impacto do trabalho ultrapassou os limites do laboratório, especialmente durante a pandemia, quando a ciência passou a ocupar o centro do debate público. Pesquisas antes restritas ao ambiente acadêmico passaram a ser acompanhadas pela população, com expectativa concreta de aplicação em tratamento e cuidado.
Antes disso, o caminho até a pesquisa foi guiado pela curiosidade. Ainda na graduação, Sandra buscava compreender os mecanismos por trás das doenças. “A biomedicina tem uma característica de te instigar a perguntar, de querer entender o porquê das coisas. E foi isso que me capturou”, afirma. O primeiro contato com o Butantan também veio por meio de outra mulher, que a encaminhou a uma pesquisadora da instituição. O gesto acabou definindo o rumo da sua carreira — e se repetiria ao longo da trajetória.
Crotoxina
No Laboratório de Fisiopatologia, passou a investigar o potencial de substâncias presentes no veneno da cascavel, em especial a crotoxina. O que poderia ser visto como elemento nocivo revelou-se, sob determinadas condições, uma fonte promissora para o desenvolvimento de novas terapias. “Existe uma frase na farmacologia: entre o veneno e o remédio está a dose”, explica.
Os estudos demonstraram que, em concentrações controladas, a toxina pode modular o sistema imunológico, com potencial terapêutico, inclusive em processos inflamatórios e tumorais. Com o avanço das pesquisas, o foco passou a incluir a compreensão detalhada de sua estrutura molecular, possibilitando a reprodução dessas moléculas em laboratório.
Esse processo permite transformar um elemento natural em base para medicamentos sem depender da extração contínua de venenos. “A natureza funciona como um protótipo. A gente aprende com ela e consegue reproduzir essas moléculas de forma sintética”, afirma.
A dimensão do trabalho se ampliou quando os resultados passaram a circular fora do ambiente acadêmico. “Eu comecei a receber cartas de mães com crianças em tratamento. Pessoas que viam na pesquisa uma esperança. Isso não tem preço.”
O enfrentamento à covid-19
Esse movimento se intensificou durante a pandemia. “As pessoas passaram a entender o que é ciência, a se interessar. Hoje existe uma expectativa real sobre o que a pesquisa pode trazer para a vida delas”, afirma.
À frente de estruturas estratégicas do Butantan, Sandra participou da organização de respostas diretas à crise sanitária, incluindo iniciativas voltadas ao diagnóstico molecular e à vigilância do vírus.
A pesquisa passou a operar em tempo real, com impacto direto sobre decisões em saúde pública. Foi nesse contexto em que ela contraiu covid-19, mantendo-se em isolamento enquanto acompanhava as atividades do instituto, em um momento em que a ciência se consolidava como ferramenta central no enfrentamento da crise.
Mulher e cientista
Ao longo dessa trajetória, a presença feminina na ciência aparece como parte do caminho que Sandra precisou sustentar. No Brasil, a participação de mulheres em publicações científicas passou de 38%, em 2002, para 49%, em 2022, segundo relatório da Agência Bori e da Elsevier. Ainda assim, a desigualdade persiste nos espaços de liderança: em 2023, elas ocupavam 45,6% dos grupos de pesquisa, com menor presença em áreas científicas e tecnológicas.
Sandra reconhece esse peso no próprio percurso. “Tem, sim. Eu tenho uma família extremamente contributiva. Meu marido sempre me deu muito apoio. Mas, nitidamente, você está dobrando sua responsabilidade”, afirma.
Ao assumir a direção científica, passou a acumular gestão, produção científica, formação de pesquisadores e captação de recursos. “Eu não posso deixar de ser cientista. Eu não posso deixar de formar pessoas. Eu não posso deixar de recrutar recursos”, resume.
A maternidade atravessou esse processo. Para sustentar todas as frentes, precisou reorganizar a rotina. “Eu tive que sucumbir o meu tempo de casa para não deixar os pratinhos caírem”, diz.
A trajetória, no entanto, não foi solitária. Sandra destaca a importância de uma rede de apoio formada por outras mulheres, desde referências no início da carreira até o apoio da mãe, Valéria, e de pesquisadoras e familiares. Mesmo com reconhecimento, as diferenças de tratamento ainda aparecem. “Existem posições que você toma que, se eu fosse homem, seriam acatadas e ovacionadas. Por eu ser mulher, elas são ouvidas e primeiro racionalizadas.”
Instituída em 2004 por decreto do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) é realizada anualmente pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em parceria com universidades, instituições de pesquisa, agências de fomento, escolas, museus, governos locais, empresas e entidades da sociedade civil. Em 2026, ao adotar como tema as Mulheres e Meninas na Ciência, a iniciativa reforça a centralidade de trajetórias como as de Sandra — pesquisadora cujos trabalhos demonstram, na prática, como a produção científica liderada por mulheres amplia o impacto social da ciência, conecta conhecimento às necessidades da população e contribui para a construção de um sistema científico mais diverso e representativo.
-
JUSTIÇA7 dias atrásApós “vídeo bomba”, Naco realiza operação contra deputado estadual e vereador em Cuiabá
-
POLÍTICA MT7 dias atrásArticulação entre MDB e PL é tratada como especulação por membros históricos do MDB, porém não afastam possibilidade de aliança com Republicanos
-
POLÍTICA MT7 dias atrásVoto contra Messias no STF pode impulsionar Jaime Campos como nome do União para o Governo de MT
-
POLÍTICA MT7 dias atrásALMT inicia maio com agenda intensa de sessões, comissões e homenagens
-
POLÍTICA MT6 dias atrásNo Dia do Trabalhador, Gisela Simona destaca o cuidado como eixo da desigualdade de gênero
-
POLÍTICA MT4 dias atrásPodemos sinaliza alinhamento nacional e abre portas para aliança com PL em Mato Grosso
-
POLÍTICA MT5 dias atrásALMT celebra trajetórias que ajudaram a construir a história de Mato Grosso
-
Sinop7 dias atrás3º Seminário Regional de Turismo de Sinop aborda pesca esportiva com participação de referências nacionais do setor

