TRIBUNAL DE JUSTIÇA MT
Centro Socioeducativo Feminino de Cuiabá integra projeto nacional de leitura para adolescentes
O Centro de Atendimento Socioeducativo Feminino de Cuiabá passou a integrar, nesta segunda-feira (2), o projeto “Cria das Letras”, iniciativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com apoio do Programa Fazendo Justiça, em parceria com o Grupo Companhia das Letras. O projeto será desenvolvido ao longo de seis meses e atenderá, inicialmente, 20 adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa.
A juíza coordenadora do eixo socioeducativo do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo de Mato Grosso (GMF) do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, Leilamar Aparecida Rodrigues, destacou o papel transformador da literatura no processo socioeducativo.
“O mundo literário abre horizontes, oferece novas perspectivas e pode auxiliar na cura de feridas que essas adolescentes trazem de suas trajetórias de vida. A leitura permite enxergar o mundo de outra forma. Embora trabalhemos também com profissionalização, cultura, lazer e esportes, a leitura tem um diferencial e por isso investimos muito nela”, defendeu a juíza.
A magistrada reforçou que o projeto fortalece uma política já em desenvolvimento no estado. “Este projeto veio para impulsionar ainda mais o incentivo à leitura. A Companhia das Letras capacitou os servidores do sistema de Justiça e da própria unidade socioeducativa, incluindo psicólogos, assistentes sociais, agentes socializadoras e pedagogas”.
Ao longo de seis meses, serão trabalhados seis títulos selecionados com ajuda das adolescentes (que preencherão um formulário), por meio de Clubes de Leitura, para que compartilhem impressões, sentimentos e interpretações sobre as histórias. No total, graças ao projeto, o acervo da unidade será acrescido em mais 150 livros.
As atividades ocorrerão mediadas por profissionais da unidade, com práticas literárias dentro e fora do espaço institucional. Durante os encontros, as adolescentes terão contato com obras literárias e participarão de momentos de reflexão sobre os temas abordados, estimulando o desenvolvimento pessoal, educativo e o pensamento crítico.
Durante a solenidade, foi realizado o ato simbólico de entrega dos exemplares às adolescentes. Uma delas celebrou. “Eu estou achando incrível. Estou lendo uma série de cinco livros e já estou indo para o último. E agora já tenho mais seis para ler.”
A secretária adjunta do Sistema Socioeducativo e Política Contra as Drogas, Lenice Silva dos Santos Barbosa, agradeceu à magistrada, ao GMF e às equipes envolvidas na implementação do projeto e destacou o poder transformador da cultura.
“Dizemos que a medida socioeducativa dura até três anos, mas o nosso verdadeiro sonho é que nenhuma delas precise voltar. Ficamos felizes quando sabemos que uma saiu e conseguiu mudar de vida. E, meninas, quando falamos de leitura e cultura, falamos de oportunidade, de viagem, de sonho e de transformação. Aproveitem isso. Mergulhem na leitura e no autoconhecimento.”
O defensor público Alysson Costa Ourives também se dirigiu às adolescentes. “O importante é fechar ciclos, aprender com eles e seguir em frente. A leitura, para mim, é um caminho para a independência. Quando se conquista sua própria independência financeira, seja trabalhando no setor público ou privado, passa-se a ter autonomia sobre suas vidas. Eu sei que vocês ainda são jovens, mas já comecem a refletir sobre isso. O momento que vocês vivem agora é apenas uma fase, e vocês podem construir um futuro diferente.”
O superintendente do Sistema Socioeducativo, Jhonathan Vieira Santana, refletiu sobre o poder simbólico da leitura e da arte no ambiente institucional. “Nós estamos numa sala com artigos, numa sala com pinturas, numa sala com desenhos. No carpete, há letras recortadas, e essas letras recortadas, por si só não dizem nada. Da mesma forma que esses livros, que estão ainda na embalagem, não dizem nada. Mas, ao retirar o plástico do escrito, ao fazer a leitura, ao interpretar este livro, ele pode trazer para nossa vida uma aprendizagem. Os livros que vocês terão podem trazer para a vida de vocês a resposta. Nós estamos falando de literatura, nós estamos falando de cultura, nós estamos falando de arte, que pode transformar.”
A solenidade contou ainda com a participação de Maria Clara Bertúlio, atriz, apresentadora, cantora e professora, que compartilhou sua trajetória com as adolescentes, destacando o protagonismo que a literatura lhe proporcionou. “Também sou cria das letras. Estudei Letras na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e Teatro na Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Fui bolsista do Instituto de Cultura, onde desenvolvi uma pesquisa voltada para a literatura produzida por mulheres negras.”
Alana Rodrigues Ribeiro, assistente técnica estadual do Programa Fazendo Justiça, ressaltou a preparação das equipes. “As equipes do socioeducativo já passaram por formação específica para atuar no projeto. As mediadoras participaram de três dias de capacitação com a Editora Companhia das Letras e continuarão em contato permanente com a editora para acompanhar e aprimorar as atividades ao longo do processo”.
Ela explicou ainda que a primeira fase do projeto foi iniciada em 2025 nos estados do Pará, Pernambuco, Paraná e Roraima, e agora chega à sua segunda fase de implementação, ampliando o alcance e fortalecendo a escuta das adolescentes.
Uma das idealizadoras do ‘Coletivo JUMTOS’, Julia Carvalho, destacou que será uma parceira do projeto e acompanhará o processo formativo, reconhecendo a leitura como instrumento de expressão, acolhimento, reflexão e transformação dentro do sistema socioeducativo.
Também presente, o advogado e poeta Murilo Nascimento, de 26 anos, compartilhou sua trajetória de vida – iniciada como catador de resíduos – e o papel decisivo das palavras em sua formação: “A minha mãe tinha de sair para trabalhar e me deixava com um lápis e uma folha em branco”. O ato serviu para robustecer o amor pelas palavras e a transformação que elas possibilitam.
Autor: Patrícia Neves
Fotografo:
Departamento: Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
Email: [email protected]
TRIBUNAL DE JUSTIÇA MT
Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.
Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.
Já estava escrito
“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.
Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.
“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.
A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.
Legado construído com exemplo
Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.
Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.
Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.
Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.
Apoio incondicional
Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.
Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.
Adoção
Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.
Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.
Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.
Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.
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