POLÍTICA E RELIGIÃO

Assembleia de Deus amplia influência política e mantém papel estratégico nas eleições

 Com mais de um século de história no Brasil, a denominação se fragmentou em diferentes ministérios e convenções, construiu uma forte presença no Congresso e hoje reúne grupos com diferentes posições políticas

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A relação entre as Assembleias de Deus e a política brasileira é resultado de um processo construído ao longo de décadas. A denominação, que chegou ao Brasil em 1911, tornou-se uma das principais forças do movimento evangélico no país e passou a ocupar espaço cada vez maior na política, especialmente a partir da redemocratização.

Com mais de um século de história, as Assembleias de Deus são uma denominação pentecostal formada por diferentes ministérios e estruturas administrativas. Segundo dados do Censo de 2010 citados pela reportagem, reuniam cerca de 12,3 milhões de fiéis e constituíam a maior vertente evangélica do país.

Diferentemente de igrejas centralizadas, como a Igreja Católica, ou de denominações comandadas por uma liderança única, as Assembleias de Deus possuem uma estrutura descentralizada. Por isso, pesquisadores e fiéis costumam utilizar o nome no plural: Assembleias de Deus.

Da chegada ao Brasil à formação dos ministérios

A denominação chegou ao país por Belém do Pará, em 1911, trazida pelos missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren. Naquele período, o pentecostalismo crescia nos Estados Unidos, especialmente entre comunidades negras.

A partir de Belém, o movimento se espalhou por diferentes regiões brasileiras. Com o crescimento da denominação, também surgiram disputas internas e divisões, que deram origem a diferentes ministérios.

Um dos principais exemplos desse processo é o Ministério Madureira, criado em 1929 pelo pastor Paulo Leivas Macalão, no bairro de Madureira, no Rio de Janeiro.

Ao longo das décadas, a Assembleia de Deus de Madureira se afastou progressivamente da estrutura que tinha como referência a Assembleia de Deus em Belém. Em 1958, o grupo criou sua própria convenção, a Conamad, consolidando uma divisão institucional dentro do movimento.

Até a década de 1950, diversas igrejas da Assembleia de Deus no Brasil estavam articuladas em torno da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, a CGADB, ligada à estrutura de Belém. Com a criação de diferentes convenções, CGADB e Conamad passaram a representar dois dos principais blocos da denominação.

A fragmentação, porém, não significa que todas as igrejas tenham as mesmas posições políticas. Há ministérios independentes e diferentes grupos dentro das próprias Assembleias de Deus.

Um exemplo é a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, ligada ao pastor Silas Malafaia. Fundada em 1959 no Rio de Janeiro como um ministério independente, a igreja é filiada à CGADB.

A política como parte da trajetória da denominação

A aproximação das Assembleias de Deus com a política também é antiga. Segundo pesquisadores citados na reportagem, o movimento já buscava estabelecer relações com autoridades políticas nas décadas de 1940 e 1950.

O pastor Paulo Leivas Macalão, por exemplo, chegou a enviar um telegrama ao então presidente Getúlio Vargas, em 1942, manifestando apoio à decisão brasileira de declarar guerra aos países do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial.

A relação entre religião e política ganhou ainda mais força com o processo de redemocratização. Em 1985, uma convenção da CGADB discutiu a necessidade de ampliar a participação das Assembleias de Deus na política.

No ano seguinte, 18 candidatos ligados à denominação disputaram eleições para deputado federal. Treze acabaram eleitos.

A participação também se tornou importante durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987. Naquele momento, representantes evangélicos passaram a ocupar um espaço mais significativo nas discussões políticas nacionais, contribuindo para a formação da bancada evangélica que posteriormente se consolidaria no Congresso.

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A pesquisadora Marina Correa, citada na reportagem, aponta esse período como um momento em que as Assembleias de Deus passaram a conquistar efetivamente espaço político.

A ascensão de Manuel Ferreira

Dentro desse processo, o Ministério Madureira também desenvolveu uma forte estrutura de liderança.

Manuel Ferreira começou na igreja na década de 1960, em São Paulo, e posteriormente ascendeu à liderança do Ministério Madureira. Segundo a reportagem, sua trajetória foi marcada não apenas pela atuação religiosa, mas também por habilidades políticas.

Ferreira teria sido frequentemente acionado por Paulo Leivas Macalão para resolver problemas relacionados a movimentos de cisão dentro da congregação.

Um dos episódios citados ocorreu na década de 1970. Na época, Macalão procurou Ferreira para saber se ele conhecia alguém que pudesse impedir, no cartório, a oficialização de um documento produzido por pastores que pretendiam se separar do ministério.

Ferreira teria conseguido acionar um general que era político no Estado de São Paulo, fazendo com que a oficialização dos documentos fosse revogada.

Com o crescimento de sua liderança, São Paulo passou a ocupar posição cada vez mais importante dentro do Ministério Madureira. O Estado também possui relevância histórica para a trajetória de Manuel Ferreira, que havia se mudado para a região ainda criança, vindo de Alagoas.

A mudança do eixo de poder do Rio de Janeiro para São Paulo também acompanhou transformações mais amplas no cenário religioso brasileiro.

A força de Madureira em São Paulo

A concentração da estrutura do Ministério Madureira em São Paulo ajudou a aproximar a denominação de um dos principais centros econômicos e políticos do país.

A reportagem cita, inclusive, a proximidade entre a principal igreja do Ministério Madureira e o Templo de Salomão, da Igreja Universal do Reino de Deus, em São Paulo.

O templo da Assembleia de Deus Madureira é apresentado como uma grande construção de concreto armado e vidro, com capacidade para milhares de pessoas.

A liderança atual do ministério está nas mãos de Samuel Ferreira, filho de Manuel Ferreira.

De Bolsonaro a Caiado

A influência política do Ministério Madureira voltou a chamar atenção diante das movimentações eleitorais recentes.

Um dos pontos destacados pela reportagem é a mudança na relação de parte da denominação com o grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O deputado federal Otoni de Paula, que foi pastor do Ministério Madureira na década de 1990, afirma que a aproximação com Ronaldo Caiado ocorreu de maneira natural, devido à relação histórica do governador de Goiás com a denominação.

Segundo De Paula, Caiado possui uma relação antiga com o Ministério Madureira e mantém proximidade com integrantes da igreja desde o período em que era deputado federal.

O apoio foi oficializado durante um evento anual da Conamad, realizado em Goiás. Na ocasião, Samuel Ferreira declarou que Caiado teria força para vencer a eleição já no primeiro turno.

A declaração marcou uma posição diferente daquela adotada por outros setores do campo político evangélico.

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Críticas a Flávio Bolsonaro

Otoni de Paula também fez críticas ao senador Flávio Bolsonaro.

Segundo ele, Flávio não seria considerado parte do grupo apoiado pelo Ministério Madureira no Rio de Janeiro. O deputado afirmou que, embora tenha recebido apoio anteriormente, o senador teria se afastado da igreja e deixado de frequentar os templos ligados ao grupo.

De Paula declarou que o apoio ocorreu em 2018, mas que posteriormente Flávio Bolsonaro deixou de manter a mesma proximidade com a denominação.

Apesar das declarações, o posicionamento não representa necessariamente toda a liderança das Assembleias de Deus. A própria reportagem destaca que a denominação é formada por diferentes ministérios e lideranças, que podem adotar posições políticas distintas.

Candidatura de Caiado ainda sem consenso

Apesar do apoio de setores do Ministério Madureira a Ronaldo Caiado, a posição da igreja para um eventual segundo turno ainda não estava totalmente definida.

De Paula afirmou que a denominação ainda não havia estabelecido qual seria seu comportamento caso a eleição chegasse à segunda etapa.

O próprio deputado declarou que votaria em Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo turno.

Sobre a possibilidade de a igreja retirar o apoio a Flávio Bolsonaro, De Paula ressaltou que não fala em nome de todo o colegiado de bispos responsável pelas decisões políticas da denominação.

Ele, porém, afirmou que o senador teria se aproveitado da igreja e que os líderes passaram a ter consciência dessa relação.

Madureira concentra esforços em candidatos próprios

Enquanto a posição nacional para um eventual segundo turno permanece indefinida, Samuel Ferreira tem concentrado esforços em candidatos ligados ao próprio Ministério Madureira.

Entre os nomes apoiados estão Rogério Madureira e Elias Madureira, candidatos pelo PL em São Paulo.

O bispo tem percorrido diferentes cidades do interior paulista com a “Caravana Movimenta Madureira”, apresentando os candidatos aos fiéis.

O movimento também recebeu o apoio da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que declarou seu endosso à candidatura de Rogério Madureira ao Senado.

Em uma publicação nas redes sociais, Samuel Ferreira comemorou o apoio e afirmou que a candidatura estava oficialmente lançada.

Uma denominação com diferentes forças políticas

A trajetória das Assembleias de Deus ajuda a explicar por que a denominação possui peso significativo nas eleições brasileiras.

O movimento cresceu a partir de uma estrutura descentralizada, desenvolveu diferentes ministérios e convenções e, ao longo do século XX, passou a ocupar espaços cada vez maiores na sociedade e na política.

A atuação política, entretanto, nunca foi completamente uniforme. As divisões internas deram origem a diferentes grupos, lideranças e posições.

No caso do Ministério Madureira, a trajetória iniciada por Paulo Leivas Macalão, fortalecida posteriormente por Manuel Ferreira e atualmente conduzida por Samuel Ferreira, criou uma estrutura religiosa com grande capacidade de mobilização política.

Esse histórico ajuda a compreender a atual movimentação em torno de nomes como Ronaldo Caiado, Flávio Bolsonaro e outros candidatos apoiados por diferentes setores evangélicos.

Mais do que representar um único bloco político, as Assembleias de Deus se tornaram uma rede de ministérios e lideranças que possuem capacidade própria de articulação eleitoral  e que continuam exercendo influência relevante sobre o cenário político brasileiro.

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POLÍTICA NACIONAL

Plenário analisa fim da escala 6×1 na terça-feira

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O Senado analisa na próxima semana a proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6×1 — seis dias de trabalho e um de repouso. O texto reduz a jornada laboral de 44 para 40 horas semanais, que podem ser cumpridas em cinco dias de 8 horas diárias com repouso semanal remunerado de dois dias. O Plenário realiza sessões para debater a PEC 221/2019 na terça (6), na quarta (7) e na quinta-feira (8) a partir das 14h.

A matéria foi aprovada em setembro na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e precisa passar por cinco sessões de debates no Plenário antes de ser votada em primeiro turno. Se aprovada, segue para o segundo turno, com outras três sessões de discussão. Mas os prazos podem ser reduzidos se os senadores aprovarem um calendário especial.

A PEC 221/2019 foi relatada na CCJ pelo senador Omar Aziz (PSD-AM). A matéria estabelece que dos dois dias de repouso um deles preferencialmente aos domingos, sem redução salarial. A proposta também fixa período de até 8 horas diárias, com possibilidade de compensação de horários e redução da jornada por acordo ou convenção coletiva de trabalho.

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A PEC 221/2019 tem como primeiro signatário o deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG). O texto da Câmara dos Deputados recebeu 36 emendas na CCJ, mas todas foram rejeitadas pela comissão. Segundo Omar Aziz, eventuais mudanças exigiriam o retorno do texto a uma nova análise pelos deputados.

‘Ampla relevância’

Em nota à imprensa, a Presidência do Senado destaca que o fim da escala 6×1 é um tema “de ampla relevância para a sociedade brasileira” e “será debatido com responsabilidade, equilíbrio e respeito às diferentes perspectivas envolvidas”.

De acordo com o comunicado, o Senado reafirma o “compromisso com o diálogo e com a construção de soluções que considerem os trabalhadores, o setor produtivo e o desenvolvimento econômico e social do país”.

Leia a íntegra da nota:

COMUNICADO À IMPRENSA

Na próxima terça-feira (6), o Plenário do Senado Federal analisará a Proposta de Emenda à Constituição que trata do fim da escala de trabalho 6×1.

O tema, de ampla relevância para a sociedade brasileira, será debatido com responsabilidade, equilíbrio e respeito às diferentes perspectivas envolvidas.

O Senado reafirma seu compromisso com o diálogo e com a construção de soluções que considerem os trabalhadores, o setor produtivo e o desenvolvimento econômico e social do país.

Assessoria de Imprensa da Presidência do Senado Federal

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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Fonte: Agência Senado

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