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Violência doméstica: Poder Judiciário realiza capacitação com foco na conscientização de homens

Para fortalecer as ações no combate à violência contra a mulher e encontrar possibilidades para aumentar a efetividade da Lei Maria da Penha, o Poder Judiciário de Mato Grosso, por meio da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar no âmbito do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (Cemulher-MT) deu início, na manhã desta terça-feira (23 de agosto), à capacitação virtual “E Agora José?” Pelo fim da Violência contra a Mulher. O curso terminará no dia 8 de setembro e foi dividido em cinco datas para a mesma turma, composta por psicólogas(os), assistentes sociais e servidores(as) que atuam na Justiça estadual.
 
A coordenadora da Cemulher-MT e vice-presidente do Tribunal de Justiça, desembargadora Maria Aparecida Ribeiro fez a abertura do encontro e falou sobre a importância da qualificação com que discute violência doméstica contra a mulher com foco no homem.
 
“É muito importante promover essa reflexão como forma de conscientizar da responsabilidade do homem perante a família e sociedade. Sempre temos capacitações e cursos voltados para as mulheres. Agora temos grupo reflexivo “Papo de homem para homem”, mudando um pouco o foco na discussão do combate à violência doméstica. Temos percebido que é hora de fazermos uma análise para verificar as desigualdades, de que forma e motivo que ocorrem. Tenho certeza que todos os atores envolvidos vão colher tudo o que for repassado nas aulas e tirar esse processo de reflexão”, comentou a magistrada.
 
A desembargadora agradeceu a presença de Flávio Urra, que ministrará a capacitação e que segundo disse, irá somar com os conhecimentos e experiência como coordenador do Programa “E Agora José?” – Grupo Socioeducativo de responsabilização de homens, realizado em São Paulo desde 2014.
 
“Temos essa preocupação de fazer trabalho com os homens para conscientizar sobre a importância que ele exerce no família e sociedade. Temos que estar de mãos dadas, homens e mulheres, termos essa conscientização para construirmos um mundo melhor”, finalizou a coordenadora da Cemulher-MT.
 
Contextualização – As aulas, coordenadas pela Escola dos Servidores do Poder Judiciário, foram divididas em cinco temas, sendo a primeira, “O significado de ser homem”, para descobrir os elementos biológicos e socioculturais que tipificam os homens e os diferenciam das mulheres.
 
De acordo com Flávio Urra, de 50 anos para cá, as mulheres fizeram uma revolução. “Saíram do lugar de semiescravidão para ocupar espaços de lideranças, chefes de família. Hoje em dia essa luta está se concretizando, temos muitos resultados, hoje em dia as mulheres não aceitam coisas que aceitavam há 50 anos. É uma mudança significativa só que esse discurso não chegou para os homens. A fala de muitos homens que chegam ao Programa é que eles se sentem do lado oposto da luta das mulheres, como se elas estivessem no poder e eles em segundo plano”, contou Flávio Urra.
 
Para ele, esta é uma luta que deve ser feita por meio da união entre homens e mulheres. “Se os homens não se engajarem não vamos conseguir essa transformação para uma sociedade mais justa. O processo do machismo vai desumanizando os homens. Desde criança no processo de educação, das brincadeiras e crescimento dos meninos. Vão se tornando cada vez mais frios e menos emocionais. Tentamos discutir isso, colocá-los para pensar para ele quebrar essas postas verdades. Eles chegam com muitas verdades prontas. Trabalhamos no sentido de desconstruir para que se tornem mais humanos. O grupo [reflexivo] tem esse objetivo, de formar pessoas”, explica.
 
Segundo o palestrante, o maior objetivo do programa é o fim da violência contra a mulher, o enfrentamento desse tipo de violência. “Tem gente que confunde esse trabalho como pró-homem e não é. Nossa discussão tem ponto para enfrentar a violência contra mulher. Quando a gente fala nesse trabalho com os homens estamos buscando uma mudança individual, mudar cultura, costumes e práticas sociais e a gente só altera isso quando mudamos as concepções e crenças das pessoas. Essas concepções influenciam nossa prática”, comenta.
 
Na primeira aula Flávio Urra apresentou teorias e estudos sobre gênero; masculinidades e de ideologia e como compartilhar conhecimento a partir da realidade de cada pessoa, que só pode ser compreendida subjetivamente.
 
Profissionais credenciados e servidores(as) do Judiciário estadual participaram da capacitação. Uma delas foi a psicóloga do Juizado Especial Criminal de Várzea Grande, Leila Maria Lobo de Albuquerque, que destacou a importância do curso. “Conteúdo muito rico e proveitoso. Trouxe questões importantes com a teoria diante de vários fatos que nós vivenciamos na prática.”
 
A capacitação – A carga horária total do curso é de 10 horas, desenvolvido em cinco módulos de duas horas, às terças e quintas-feiras, das 9h às 11h, nos dias 23, 25, 30 de agosto, 01 e 08 de setembro.
 
Flávio Urra – Professor de Psicologia e Sociologia – Psicólogo e Sociólogo; especialização em Violência Doméstica, mestrado em Psicologia Social, com ênfase em Violência contra a Mulher e grupos de responsabilização de homens autores de violência.
 
Recomendação – Projeto da capacitação foi elaborado pela Cemulher-MT visando dar cumprimento à recomendação nº 124/2022 do Conselho Nacional de Justiça, que recomenda aos tribunais que instituam e mantenham programas voltados à reflexão e sensibilização de autores de violência doméstica e familiar, com o objetivo de efetivar às medidas protetivas de urgência; capacitação prévia e atualização periódica da equipe de facilitadores que atuam nos programas, optando, sempre que possível, por composição de caráter multidisciplinar.
 
#Paratodosverem. Esta matéria possui recursos de texto alternativo para promover a inclusão das pessoas com deficiência visual. Descrição de imagens: Foto1: colorida, captura de tela da capacitação realizada pela plataforma Microsoft Teams. A tela está dividia em 6 quadrados menores onde em cada um aparece alguns dos participantes. Foto2: captura de tela onde aparece a imagem dividida em dois. Do lado esquerdo está a desembargadora Maria Aparecida Ribeiro, onde aparece somente seu rosto. Ela está sorrindo. Do lado direito está o palestrante Flávio Urra, em plano mais aberto, sorrindo. Ele usa óculos, barba, está com casaco fechado cinza e por baixo blusa preta. O fundo da parede é verde-água e aparece parte de um enfeite na parede, que lembra uma mandala com pontas, nas cores azul escuro, laranjada e amarela.
 
Dani Cunha
Coordenadoria de Comunicação da Presidência do TJMT
 
 

Fonte: Tribunal de Justiça de MT

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Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude

Foto horizontal dos anos 1990 que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete abraçado com a filha Érica, que tinha cerca de 10 anos na foto. Ela era uma menina de pele clara com longos cabelos loiros e cacheados.

Das histórias de tantas crianças e adolescentes que ajudou a reescrever, enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete da Silva, atualmente lotado na Comarca de Várzea Grande, encontrou em uma de suas diligências, em 1990, a primeira página de sua própria jornada enquanto pai.

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.

Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.

Já estava escrito

“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.

Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.

“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.

A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.

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Foto vertical antiga que mostra o agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete, com a ex-mulher, duas filhas e o filho ainda crianças, em uma festa. Eles posam sorrindo para a foto.Legado construído com exemplo

Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.

Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.

Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.

Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.

Apoio incondicional

Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.

Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

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Imagem quadrada gerada com auxílio de inteligência artificial que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete e sua filha Érica abraçados, com um fundo verde de um parque. Ele é um homem pardo de cabelo grisalho e ela uma jovem branca e loira.

Há oito anos morando na Europa, Érica afirma ser difícil estar longe da família, especialmente em datas comemorativas, como o Dia dos Pais, mas que a única palavra que vem à sua mente nessas horas é gratidão. “Quero que ele saiba que é o melhor pai do mundo, que eu sou muito grata a ele por cada gesto, por cada abraço. Minha maior certeza na vida é que eu amo muito ele. Mesmo distantes fisicamente, graças a Deus somos muito próximos, pois, de certa forma ele me deu a vida”, assevera Érica.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.

Adoção

Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.

Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.

Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.

Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.

Celly Silva

Coordenadoria de Comunicação do TJMT

[email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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