OPINIÃO

Alerta no agro: Erros na renegociação do crédito rural colocam patrimônio de produtores em risco

Por  Fabiola Sampaio

Entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, primeiros oito meses do Plano Safra 2025/2026, o crédito rural empresarial registra R$ 354,4 bilhões contratados. O valor representa alta de 7% na comparação com o mesmo período da safra anterior, segundo dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com base em informações do Banco Central. O avanço confirma a relevância do financiamento agrícola para sustentar a produção nacional. Ao mesmo tempo, expõe um problema que ainda recebe pouca atenção: a falta de preparo técnico de produtores rurais diante da necessidade de renegociar operações de crédito após perdas na atividade.

A renegociação do crédito rural não é um benefício automático concedido ao produtor que enfrenta dificuldades financeiras. Trata-se de um procedimento técnico, condicionado ao cumprimento de regras previstas no Manual de Crédito Rural. Em muitos casos, produtores afetados por eventos climáticos, aumento de custos ou queda de produtividade até possuem direito à renegociação, mas acabam tendo pedidos negados por falhas na documentação apresentada.

Esse cenário revela um problema recorrente no agronegócio brasileiro. Parte dos produtores ainda enxerga a renegociação apenas como um requerimento administrativo simples, quando, na prática, ela depende de comprovação detalhada dos prejuízos sofridos. O Manual de Crédito Rural exige laudos técnicos capazes de demonstrar as razões da quebra de safra, os impactos financeiros e a relação direta entre os fatores enfrentados e a incapacidade momentânea de pagamento. Sem isso, a negativa tende a ser imediata.

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O problema ganha proporções maiores porque a rejeição do pedido não afeta apenas a dívida atual. Em muitos casos, o produtor perde acesso ao financiamento da safra seguinte. Como boa parte da atividade agrícola depende diretamente do crédito rural para custear produção, compra de insumos e manutenção da operação, o bloqueio do financiamento público pode desencadear uma sequência de dificuldades financeiras.

Quando o crédito oficial deixa de estar disponível, muitos produtores acabam recorrendo a alternativas mais caras. Entram em cena linhas privadas com juros mais elevados, exigências maiores de garantias e menor margem de negociação. Em situações mais delicadas, o produtor precisa vender patrimônio, comprometer reservas financeiras ou ampliar o endividamento para manter a atividade funcionando.

Esse contexto demonstra que o planejamento jurídico e financeiro deixou de ser apenas uma estratégia recomendável e passou a ser uma necessidade operacional no agronegócio. O acompanhamento técnico desde o início do plantio permite identificar riscos com antecedência e organizar documentos conforme as exigências do Manual de Crédito Rural. A atuação conjunta entre advogados, consultores financeiros e profissionais técnicos pode evitar erros que comprometem a renegociação futura.

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Outro ponto relevante envolve os prazos previstos pelas normas do crédito rural. Muitos produtores deixam para buscar orientação apenas quando a situação financeira já está agravada. O problema é que determinadas falhas não podem mais ser corrigidas após o encerramento dos prazos administrativos. Nesses casos, a negativa da renegociação produz reflexos que podem atingir não apenas a produção seguinte, mas também o patrimônio do produtor rural.

Além das questões financeiras e documentais, novas exigências regulatórias ampliam o nível de atenção necessário para acessar o crédito rural. A Resolução 5303 do Conselho Monetário Nacional, publicada em maio de 2026, reforça a necessidade de regularização ambiental, fundiária e societária das propriedades. O acesso ao financiamento deixa de depender exclusivamente da capacidade produtiva e passa a considerar também critérios ligados aos chamados impedimentos sociais, ambientais e climáticos.

O agronegócio brasileiro convive com riscos que vão muito além das oscilações do mercado. Eventos climáticos extremos, aumento dos custos de produção e mudanças regulatórias tornam a atividade cada vez mais complexa. Nesse cenário, tratar a renegociação do crédito rural como uma simples formalidade pode representar um erro com consequências graves. Informação técnica, planejamento e cumprimento rigoroso das normas passam a ser fatores decisivos para garantir a continuidade da produção no campo.

Fabiola Sampaio é advogada empresarial e mediadora do agro.

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ARTIGOS

Ocupar espaços de poder também é combater o racismo

‘Defender maior participação de mulheres negras na política não significa reivindicar privilégios’.

Julho deixou de ser apenas mais um mês do calendário para se transformar em um tempo de reflexão, mobilização e afirmação política. Cada vez mais conhecido como o Mês das Pretas, ele reúne datas profundamente simbólicas para quem acredita em uma sociedade mais justa: o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela, celebrados em 25 de julho.

Mais do que homenagens, essas datas nos convidam a olhar para uma realidade que ainda desafia o Brasil. Somos um país formado, em grande medida, pela força, cultura e ancestralidade africana. No entanto, essa presença majoritária da identidade brasileira ainda não se reflete na mesma proporção, nos espaços onde as decisões são tomadas.

É impossível falar em democracia plena quando mulheres negras continuam enfrentando barreiras maiores para acessar direitos, oportunidades e posições de liderança. Mostrando que a desigualdade não nasce apenas da condição econômica mas também é resultado de um racismo estrutural que, por décadas, restringiu vozes, invisibilizou trajetórias e naturalizou ausências.

Ao longo da minha vida pública, aprendi que representatividade não pode ser tratada como um gesto simbólico. E que nossa ausência nos espaços de poder produz consequências concretas. Aliás, quando mulheres ocupam a ambiência política, ampliam o olhar sobre problemas que muitas vezes permanecem invisíveis para quem nunca precisou enfrentá-los. É assim na política, na Justiça, nas universidades, nas empresas enfim, em todas as estruturas de poder.

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Essa discussão, claro, ganha mais importância em um ano eleitoral. Pois as eleições não devem ser apenas uma disputa entre partidos ou projetos políticos. Muito antes precisam representar uma oportunidade de refletirmos sobre quem está ocupando as mesas onde as decisões são tomadas e quem continua do lado de fora delas.

O Brasil avançou ao estabelecer mecanismos que buscam ampliar a participação de candidaturas negras e femininas, inclusive na distribuição dos recursos públicos destinados às campanhas. Mas sabemos que o desafio não termina na legislação. Ainda existem candidaturas sem estrutura, sem apoio partidário, sem recursos suficientes e, muitas vezes, submetidas à violência política, ao racismo e ao preconceito durante todo o processo eleitoral.

Defender maior participação de mulheres negras na política não significa reivindicar privilégios. Significa fortalecer a democracia. Pois quanto mais plural for a representação política, mais próxima da realidade será a construção das políticas públicas.

Assim, não basta abrir espaço nas fotografias de campanha, mas garantir condições reais para que mulheres negras disputem eleições, exerçam mandatos e permaneçam ocupando esses espaços com segurança, respeito e autonomia.

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Quando lembramos Tereza de Benguela, lembramos uma mulher que, ainda no século XVIII, liderou um quilombo, organizou uma comunidade e demonstrou que liderança, coragem e inteligência jamais tiveram cor ou gênero. Sua história continua nos ensinando que ocupar espaços de poder também é uma forma de resistência.

E para aqueles que como eu acreditam que democracia se constrói com diversidade, participação e igualdade de oportunidades, torce por um tempo em que a população negra deixe de ser maioria na violência e nas estatísticas da desigualdade e passe a ocupar, com naturalidade, espaços onde se definem os rumos do país. Assim, nas universidades, na ciência, na iniciativa privada, no serviço público e, sobretudo, na política.

Mostrando que uma democracia verdadeiramente representativa começa quando todos têm o direito não apenas de votar, mas também de governar.

Gisela Simona é advogada, servidora e mulher preta

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