PREPARO X RESILIÊNCIA

Trajetória, propósito e preparo: a jornada do estudante Addison Milani na medicina e na dermatologia

Aos 25 anos, o estudante Addson Milani vive uma fase decisiva da sua formação: está nos últimos meses do curso de medicina, enquanto já avança simultaneamente em sua especialização em dermatologia, uma rotina de preparo e resiliência. Natural de Sorriso, no interior de Mato Grosso, ele constrói uma trajetória marcada por escolhas conscientes, adaptação e, principalmente, preparação estratégica para o mercado de trabalho após a universidade.

Vindo de uma família tradicionalmente ligada ao setor da construção civil, Addson cresceu cercado por referências que naturalmente o direcionavam a seguir o mesmo caminho. No entanto, ainda na adolescência, percebeu que sua vocação estava em outro lugar. Entre a arquitetura, motivada pelo interesse estético e artístico, e a medicina, fez uma escolha que redefiniria seu futuro.

“Chegou um momento em que eu não me via no ramo da minha família. Pensei muito na arquitetura, mas quando decidi pela medicina, senti que era algo que realmente faria sentido para mim”, relembra.

A mudança para Curitiba, aos 18 anos, foi um marco nesse processo de autodescoberta. Inicialmente interessado em cirurgia plástica, Addison encontrou na dermatologia uma conexão mais profunda com seu perfil pessoal e profissional. A afinidade com o autocuidado, cultivada desde a adolescência com influência direta da mãe, contribuiu para essa escolha.

“Durante a formação, percebi que não me adaptava à cirurgia. Já na dermatologia, encontrei algo que realmente me apaixonou, não só pela estética, mas pelo impacto direto na saúde e na autoestima das pessoas.”
A experiência prática e o olhar clínico

Ao longo da especialização, um dos aspectos que mais o surpreendeu foi a precisão exigida na análise individual de cada paciente.

“A anatomia é muito particular. Cada pessoa tem suas características, suas queixas e suas necessidades. A gente não trata apenas a aparência, mas muitas vezes devolve qualidade de vida.”

Esse olhar ampliado da dermatologia, que vai além da estética e inclui diagnóstico de doenças, lesões e até câncer de pele, é um dos pilares da atuação que Addison defende.

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“A estética é um complemento. Antes de qualquer procedimento, a prioridade é garantir que a pele esteja saudável. Já identifiquei casos em que uma intervenção estética poderia agravar uma condição grave. Esse cuidado precisa vir em primeiro lugar.”

Rotina intensa e planejamento de carreira

Conciliar o final da graduação, a especialização e a produção de conteúdo nas redes sociais exige organização e disciplina. Addison reconhece que a rotina é intensa, mas estratégica.

“Estou vivendo um momento de transição. Divido meu tempo entre a faculdade e São Paulo, onde aprofundo a parte teórica. Em breve, quero focar totalmente na prática.”
A movimentação frequente entre estados já faz parte de um planejamento maior: se consolidar profissionalmente em grandes centros para, posteriormente, retornar a Mato Grosso com uma proposta diferenciada.

“Quero investir em Cuiabá, criar um espaço funcional, com tecnologia e praticidade, pensado para a rotina atual das pessoas.”

Redes sociais como ferramenta de educação

Além da formação acadêmica, Addson também se dedica à produção de conteúdo digital, com foco em educação sobre cuidados com a pele. Seu posicionamento nas redes é claro: menos modismos, mais consistência.

“Eu bato muito na tecla da constância. Não é um produto novo que vai transformar a pele da noite para o dia. Cuidado é construção, leva tempo.”

Ele também alerta sobre o excesso de informações e a falta de critério nas plataformas digitais.

“Hoje qualquer pessoa pode dar dicas, mas nem sempre existe conhecimento por trás. Cada pele é única, cada rotina é diferente. O que funciona para um pode não funcionar para outro.”

Essa responsabilidade com a informação é algo que leva a sério. “Se eu estou falando, preciso saber. E preciso estar preparado para responder.”

Os erros mais comuns e os alertas necessários

Na prática clínica e também na observação do comportamento dos pacientes, Addson identifica falhas recorrentes nos cuidados básicos com a pele.

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“O principal erro ainda é a negligência. Muita gente não usa protetor solar, principalmente homens. E isso tem consequências sérias, como o câncer de pele.”

Ele reforça que o básico, limpeza, hidratação e proteção, ainda é o mais importante.

“Quando o básico é bem feito, o resto flui melhor.”

Casos marcantes e aprendizado real

Durante sua formação, alguns casos deixaram marcas profundas. Entre eles, pacientes com complicações de procedimentos estéticos antigos, como o uso de substâncias não absorvíveis.

“São situações difíceis, porque muitas vezes não há solução. As pessoas foram iludidas e hoje lidam com consequências graves.”

Além disso, chama atenção para doenças negligenciadas, como o câncer de pele e até casos de hanseníase em regiões de Mato Grosso.

“As pessoas ignoram sinais, deixam para depois. Quando procuram ajuda, muitas vezes já está avançado.”

Preparação para um mercado competitivo

Ciente de que o mercado da estética é altamente competitivo, e não restrito apenas a médicos, Addison tem um foco claro: qualificação contínua e diferenciação.

“Não competimos só com médicos. Por isso, é essencial estar preparado, oferecer algo sólido, com conhecimento e responsabilidade.”

Conselho para futuros médicos

Para quem deseja seguir o caminho da dermatologia, ele é direto:

“Vá além da faculdade. A dermatologia ainda é pouco explorada na graduação. Busque profissionais, vivência, experiência. E não foque só na estética, a pele também revela doenças importantes.”

Uma trajetória guiada por propósito

Com planos definidos, visão estratégica e uma abordagem consciente da profissão, Addison Milani representa uma nova geração de médicos: mais conectada, mais responsável e preparada para os desafios além da universidade.

Entre conclusão do curso de medicina no internato, estudos e conteúdos digitais, ele constrói não apenas uma carreira, mas uma presença relevante, tanto na medicina quanto na forma de comunicar saúde de maneira acessível e realista.

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ARTIGOS

Ocupar espaços de poder também é combater o racismo

‘Defender maior participação de mulheres negras na política não significa reivindicar privilégios’.

Julho deixou de ser apenas mais um mês do calendário para se transformar em um tempo de reflexão, mobilização e afirmação política. Cada vez mais conhecido como o Mês das Pretas, ele reúne datas profundamente simbólicas para quem acredita em uma sociedade mais justa: o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela, celebrados em 25 de julho.

Mais do que homenagens, essas datas nos convidam a olhar para uma realidade que ainda desafia o Brasil. Somos um país formado, em grande medida, pela força, cultura e ancestralidade africana. No entanto, essa presença majoritária da identidade brasileira ainda não se reflete na mesma proporção, nos espaços onde as decisões são tomadas.

É impossível falar em democracia plena quando mulheres negras continuam enfrentando barreiras maiores para acessar direitos, oportunidades e posições de liderança. Mostrando que a desigualdade não nasce apenas da condição econômica mas também é resultado de um racismo estrutural que, por décadas, restringiu vozes, invisibilizou trajetórias e naturalizou ausências.

Ao longo da minha vida pública, aprendi que representatividade não pode ser tratada como um gesto simbólico. E que nossa ausência nos espaços de poder produz consequências concretas. Aliás, quando mulheres ocupam a ambiência política, ampliam o olhar sobre problemas que muitas vezes permanecem invisíveis para quem nunca precisou enfrentá-los. É assim na política, na Justiça, nas universidades, nas empresas enfim, em todas as estruturas de poder.

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Essa discussão, claro, ganha mais importância em um ano eleitoral. Pois as eleições não devem ser apenas uma disputa entre partidos ou projetos políticos. Muito antes precisam representar uma oportunidade de refletirmos sobre quem está ocupando as mesas onde as decisões são tomadas e quem continua do lado de fora delas.

O Brasil avançou ao estabelecer mecanismos que buscam ampliar a participação de candidaturas negras e femininas, inclusive na distribuição dos recursos públicos destinados às campanhas. Mas sabemos que o desafio não termina na legislação. Ainda existem candidaturas sem estrutura, sem apoio partidário, sem recursos suficientes e, muitas vezes, submetidas à violência política, ao racismo e ao preconceito durante todo o processo eleitoral.

Defender maior participação de mulheres negras na política não significa reivindicar privilégios. Significa fortalecer a democracia. Pois quanto mais plural for a representação política, mais próxima da realidade será a construção das políticas públicas.

Assim, não basta abrir espaço nas fotografias de campanha, mas garantir condições reais para que mulheres negras disputem eleições, exerçam mandatos e permaneçam ocupando esses espaços com segurança, respeito e autonomia.

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Quando lembramos Tereza de Benguela, lembramos uma mulher que, ainda no século XVIII, liderou um quilombo, organizou uma comunidade e demonstrou que liderança, coragem e inteligência jamais tiveram cor ou gênero. Sua história continua nos ensinando que ocupar espaços de poder também é uma forma de resistência.

E para aqueles que como eu acreditam que democracia se constrói com diversidade, participação e igualdade de oportunidades, torce por um tempo em que a população negra deixe de ser maioria na violência e nas estatísticas da desigualdade e passe a ocupar, com naturalidade, espaços onde se definem os rumos do país. Assim, nas universidades, na ciência, na iniciativa privada, no serviço público e, sobretudo, na política.

Mostrando que uma democracia verdadeiramente representativa começa quando todos têm o direito não apenas de votar, mas também de governar.

Gisela Simona é advogada, servidora e mulher preta

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