GISELA SIMONA

Ocupar espaços de poder também é combater o racismo

‘Defender maior participação de mulheres negras na política não significa reivindicar privilégios’.

Julho deixou de ser apenas mais um mês do calendário para se transformar em um tempo de reflexão, mobilização e afirmação política. Cada vez mais conhecido como o Mês das Pretas, ele reúne datas profundamente simbólicas para quem acredita em uma sociedade mais justa: o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela, celebrados em 25 de julho.

Mais do que homenagens, essas datas nos convidam a olhar para uma realidade que ainda desafia o Brasil. Somos um país formado, em grande medida, pela força, cultura e ancestralidade africana. No entanto, essa presença majoritária da identidade brasileira ainda não se reflete na mesma proporção, nos espaços onde as decisões são tomadas.

É impossível falar em democracia plena quando mulheres negras continuam enfrentando barreiras maiores para acessar direitos, oportunidades e posições de liderança. Mostrando que a desigualdade não nasce apenas da condição econômica mas também é resultado de um racismo estrutural que, por décadas, restringiu vozes, invisibilizou trajetórias e naturalizou ausências.

Ao longo da minha vida pública, aprendi que representatividade não pode ser tratada como um gesto simbólico. E que nossa ausência nos espaços de poder produz consequências concretas. Aliás, quando mulheres ocupam a ambiência política, ampliam o olhar sobre problemas que muitas vezes permanecem invisíveis para quem nunca precisou enfrentá-los. É assim na política, na Justiça, nas universidades, nas empresas enfim, em todas as estruturas de poder.

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Essa discussão, claro, ganha mais importância em um ano eleitoral. Pois as eleições não devem ser apenas uma disputa entre partidos ou projetos políticos. Muito antes precisam representar uma oportunidade de refletirmos sobre quem está ocupando as mesas onde as decisões são tomadas e quem continua do lado de fora delas.

O Brasil avançou ao estabelecer mecanismos que buscam ampliar a participação de candidaturas negras e femininas, inclusive na distribuição dos recursos públicos destinados às campanhas. Mas sabemos que o desafio não termina na legislação. Ainda existem candidaturas sem estrutura, sem apoio partidário, sem recursos suficientes e, muitas vezes, submetidas à violência política, ao racismo e ao preconceito durante todo o processo eleitoral.

Defender maior participação de mulheres negras na política não significa reivindicar privilégios. Significa fortalecer a democracia. Pois quanto mais plural for a representação política, mais próxima da realidade será a construção das políticas públicas.

Assim, não basta abrir espaço nas fotografias de campanha, mas garantir condições reais para que mulheres negras disputem eleições, exerçam mandatos e permaneçam ocupando esses espaços com segurança, respeito e autonomia.

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Quando lembramos Tereza de Benguela, lembramos uma mulher que, ainda no século XVIII, liderou um quilombo, organizou uma comunidade e demonstrou que liderança, coragem e inteligência jamais tiveram cor ou gênero. Sua história continua nos ensinando que ocupar espaços de poder também é uma forma de resistência.

E para aqueles que como eu acreditam que democracia se constrói com diversidade, participação e igualdade de oportunidades, torce por um tempo em que a população negra deixe de ser maioria na violência e nas estatísticas da desigualdade e passe a ocupar, com naturalidade, espaços onde se definem os rumos do país. Assim, nas universidades, na ciência, na iniciativa privada, no serviço público e, sobretudo, na política.

Mostrando que uma democracia verdadeiramente representativa começa quando todos têm o direito não apenas de votar, mas também de governar.

Gisela Simona é advogada, servidora e mulher preta

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ARTIGOS

Da importunação sexual ao feminicídio: a resposta começa com um Estado presente

Natasha Slhessarenko

Mato Grosso infelizmente voltou a ocupar espaço nas estatísticas da violência contra a mulher. Além de figurar entre os estados com os maiores índices de feminicídio do país, registrou mais de 500 casos de importunação sexual apenas nos primeiros meses deste ano. Esses números não podem ser tratados como episódios isolados. Eles revelam um Estado que ainda falha na prevenção, na proteção e no acolhimento das mulheres. Quando a violência avança e o poder público não acompanha essa realidade com políticas eficazes, quem perde é toda a sociedade.

A importunação sexual é crime. Não se trata de uma “brincadeira”, de um “mal-entendido” ou de um comportamento inconveniente. É uma violência que fere a dignidade da mulher, invade sua liberdade e compromete seu direito de viver, estudar, trabalhar e ocupar os espaços públicos sem medo. Muitas vezes, esse é o primeiro degrau de uma escalada de violência que pode evoluir para agressões físicas, violência doméstica e, infelizmente, para o feminicídio. Combater a importunação sexual também é impedir que outras formas de violência aconteçam.

Os dados demonstram que mais mulheres estão denunciando, o que representa um avanço importante. Mas também evidenciam que ainda existe uma enorme distância entre a necessidade de proteção e a estrutura que o Estado oferece. Mato Grosso possui dimensões continentais, mas ainda conta com número insuficiente de Delegacias Especializadas de Defesa da Mulher. Em muitas regiões, uma vítima precisa percorrer centenas de quilômetros para registrar uma ocorrência ou buscar atendimento especializado. Essa realidade é incompatível com a urgência que esses casos exigem.

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Também precisamos fortalecer a presença do Estado na segurança pública. Durante anos, milhares de mato-grossenses conviveram com a expectativa de reforço das forças de segurança enquanto candidatos aprovados em concursos públicos aguardavam convocação. Somente no fim do segundo mandato do atual governo parte desses aprovados começou a ser chamada. O resultado é uma estrutura que ainda precisa ser fortalecida para responder aos desafios atuais.

Precisamos ampliar o efetivo e colocar mais policiais nas ruas, realizando policiamento preventivo em bairros, praças, escolas, pontos de ônibus e demais espaços públicos. A presença ostensiva das forças de segurança inibe a ação dos criminosos e devolve às mulheres um direito básico: o de ir e vir com liberdade e segurança.

Defendo igualmente a ampliação da rede de proteção às mulheres. Mato Grosso precisa implantar uma Casa da Mulher Brasileira em cada sede de Consórcio Regional de Saúde. Esses espaços concentram, em um único local, atendimento policial, assistência jurídica, atendimento psicológico, assistência social, serviços de saúde e acolhimento humanizado, reduzindo a revitimização e oferecendo uma resposta rápida e integrada às vítimas.

Mas proteger uma mulher também significa oferecer condições para que ela reconstrua sua vida. Muitas permanecem em ambientes de violência por dependerem financeiramente do agressor. Por isso, defendo políticas públicas voltadas à qualificação profissional, ao encaminhamento para o mercado de trabalho e ao incentivo ao empreendedorismo feminino, para que essas mulheres conquistem autonomia financeira, independência e condições reais de romper o ciclo da violência.

Também precisamos investir na qualificação permanente dos servidores públicos que atendem essas mulheres. Nem todas as cidades contam com Delegacias Especializadas de Defesa da Mulher. Por isso, policiais civis, escrivães, investigadores e demais profissionais que atuam nas delegacias comuns precisam receber treinamento específico para acolher vítimas de violência com sensibilidade, respeito e conhecimento dos protocolos de atendimento. O primeiro contato com o poder público pode determinar se a mulher seguirá em frente com a denúncia ou desistirá de buscar seus direitos.

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Nenhuma estrutura, entretanto, será suficiente se continuarmos atuando apenas depois que a violência acontece. Precisamos investir fortemente em prevenção. Educação para o respeito, campanhas permanentes de conscientização, fortalecimento da rede de proteção e integração entre saúde, assistência social, educação, segurança pública e sistema de Justiça precisam deixar de ser ações isoladas para se transformar em uma política permanente de Estado.

Como médica, aprendi que prevenir salva vidas. Como mulher, sei que nenhuma de nós deveria mudar sua rotina, seus caminhos ou seus sonhos por medo da violência. E como cidadã comprometida com Mato Grosso, acredito que governar também significa cuidar das pessoas, especialmente daquelas que mais precisam da proteção do Estado.

A violência contra a mulher não será enfrentada apenas com discursos ou indignação. Exige planejamento, investimento, presença do Estado e compromisso permanente com a vida. Enfrentar a importunação sexual é proteger a liberdade das mulheres hoje e evitar tragédias amanhã. Esse deve ser um compromisso de qualquer governo que pretenda construir um Mato Grosso mais seguro, mais justo e mais humano.

Dra. Natasha Slhessarenko é médica, servidora pública e empresária em Mato Grosso.

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