AGRONEGÓCIO
“Plano Clima” transforma agro em vilão ambiental e acende alerta sobre barreiras comerciais internacionais
O Plano Clima penaliza o agronegócio, não considera avanços sustentáveis no campo e deixa o setor injustamente exposto a críticas de países concorrentes, como os Estados Unidos e a União Europeia, que já relacionam a expansão da produção brasileira ao desmatamento e vêm aplicando novas barreiras comerciais contra os produtos nacionais. Essa é a avaliação de entidades representativas do setor e de parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que pressionam o governo a rever pontos do documento.
O Plano Clima é a estratégia anunciada pelo governo federal visando alinhar o Brasil às metas globais de redução de emissões de gases de efeito estufa. Na prática, o documento define metas de neutralidade de carbono até 2050 e estabelece diretrizes setoriais que atingem diretamente a agricultura e a pecuária, impondo restrições à expansão de áreas produtivas e exigências adicionais de monitoramento ambiental. Embora o discurso oficial ressalte compromissos internacionais e a preservação ambiental, representantes do agronegócio consideram que o plano ignora os avanços já conquistados no campo e transfere ao setor produtivo a maior parte do ônus do combate às mudanças climáticas.
A ideia do governo é que este plano guie as ações para enfrentamento à mudança do clima no país até 2035. Além do pilar de adaptação, tem o eixo de mitigação, que prevê a redução das emissões de gases de efeito estufa no Brasil. A Estratégia Nacional de Mitigação será acompanhada por sete planos setoriais e temáticos.
A proposta, em consulta pública até esta segunda-feira (18.08), projeta que a agropecuária reduza em 36% suas emissões de gases de efeito estufa até 2030 e em 54% até 2035. O texto atribui ao setor não apenas as emissões diretas da produção, mas também as relacionadas ao desmatamento ilegal, o que eleva a participação do campo para mais de 70% do total nacional. Na prática, o plano transfere para produtores responsabilidades que, segundo líderes do agro, deveriam ser atribuídas ao poder público.
Representantes do setor alegam que o cálculo embute distorções, já que desmates em áreas de assentamentos, comunidades tradicionais, terras públicas e até em unidades de conservação foram contabilizados na conta do agro. Além disso, afirmam que não foram considerados fatores de compensação, como a preservação de florestas dentro das propriedades, a adoção de sistemas integrados de produção e as práticas de baixa emissão de carbono, como o plantio direto.
Para o presidente da Federação de Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro/MT) e do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende (foto), o Plano Clima trata o agronegócio como o grande vilão do meio ambiente. “É uma visão distorcida, que ignora os avanços consistentes do setor em produtividade, preservação de áreas nativas e uso de tecnologias limpas. É injusto que um setor que já responde por mais de 25% do PIB nacional seja colocado como bode expiatório de problemas que deveriam ser compartilhados por toda a economia”.
“O Brasil já possui algumas das legislações ambientais mais rígidas do mundo, como o Código Florestal, que impõe limites severos de uso da terra e exige áreas de preservação dentro das propriedades rurais. Ainda assim, em vez de valorizar esse diferencial, o Plano Clima impõe novas barreiras e obrigações, sem contrapartidas, abrindo espaço para que concorrentes internacionais, menos sustentáveis que nós, se apresentem como referência ambiental”, disse Isan.
“É preciso dizer claramente: esse plano fragiliza a competitividade do Brasil. Enquanto países como os Estados Unidos e membros da União Europeia subsidiam seus agricultores e protegem seus mercados, nós colocamos mais custos e burocracias sobre quem produz. No fim das contas, não é o meio ambiente que sai ganhando, mas sim os concorrentes que querem reduzir a participação do Brasil no comércio global de alimentos”, completou Rezende.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) considera que o documento transmite ao mundo a mensagem de que a agropecuária é a principal responsável pelo aquecimento global no Brasil, em um momento em que o país se prepara para sediar a COP30, em novembro, em Belém. “A partir do momento em que colocam o agro como vilão climático, entregam o setor de bandeja aos concorrentes internacionais”, disse Bruno Lucchi, diretor técnico da entidade.
Na visão da bancada ruralista, o Plano Clima pode servir de munição para reforçar barreiras comerciais. A União Europeia já aprovou a lei que restringe importações de produtos ligados a desmatamento, e os Estados Unidos estudam novas taxas sobre alimentos vindos de países classificados como de alto risco ambiental. Há também o temor de que o texto enfraqueça a posição do Brasil nas negociações sobre o acordo Mercosul-UE.
O Ministério do Meio Ambiente, por outro lado, afirma que o plano considera tanto emissões quanto remoções de carbono em imóveis rurais, incluindo áreas de preservação permanente e reservas legais. Em nota, ressaltou que a proposta prevê incentivos para conservação da vegetação nativa, restauração de florestas e recuperação de pastagens.
Apesar disso, lideranças do agro cobram mais transparência na elaboração do documento e criticam o uso de bases de dados externas, como o MapBiomas, e de modelos de simulação pouco auditáveis. A FPA e entidades ligadas ao setor defendem que o governo prorrogue a consulta pública e abra uma mesa de negociação antes da consolidação do plano.
Entenda o Plano Clima
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O que é: Estratégia nacional do governo federal para alinhar o Brasil às metas globais de redução de emissões de gases de efeito estufa.
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Objetivo: Neutralidade de carbono até 2050.
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Como funciona: Define metas setoriais (energia, indústria, transporte, agropecuária) e cria mecanismos de monitoramento ambiental mais rígidos.
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Impacto no agro: Restrições à expansão de áreas produtivas, exigência de comprovação de sustentabilidade e maior rastreabilidade da produção.
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Críticas do setor: Representantes do agronegócio apontam que o plano ignora avanços já alcançados, concentra as obrigações no campo e fragiliza a competitividade internacional do Brasil.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Fertilizantes estão entre prioridades de R$ 18,3 bilhões em incentivos
A produção de fertilizantes está entre as atividades que terão prioridade na disputa por R$ 18,3 bilhões em créditos fiscais destinados ao desenvolvimento do hidrogênio de baixa emissão de carbono no Brasil. A medida pode estimular investimentos na fabricação nacional de amônia e nitrogenados, mas os primeiros incentivos do programa estão previstos apenas para 2030.
As regras constam do Decreto nº 13.096/2026, que regulamentou a Política Nacional do Hidrogênio, o sistema de certificação da produção, o Regime Especial de Incentivos para a Produção de Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (Rehidro) e o Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC).
Para o agronegócio, o principal efeito esperado está na cadeia de fertilizantes nitrogenados. O hidrogênio é matéria-prima para a produção de amônia, utilizada na fabricação de ureia e de outros insumos agrícolas. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome e, no caso dos nitrogenados, a dependência externa está próxima de 93%.
Ao colocar os fertilizantes entre os setores prioritários, o governo pretende atrair projetos capazes de substituir parte dessas importações e reduzir a exposição do produtor rural às oscilações do mercado internacional, aos custos logísticos e às crises geopolíticas. O resultado, porém, dependerá da competitividade das novas fábricas e da capacidade de transformar os incentivos em produção em escala comercial.
Os créditos do PHBC serão distribuídos entre 2030 e 2034. O limite previsto é de R$ 1,7 bilhão no primeiro ano, R$ 2,9 bilhões em 2031, R$ 4,2 bilhões em 2032, R$ 4,5 bilhões em 2033 e R$ 5 bilhões em 2034.
A seleção será feita por procedimento concorrencial conduzido direta ou indiretamente pelo Ministério da Fazenda. O critério mínimo será o menor valor de crédito fiscal solicitado por unidade de produto. Isso significa que os projetos terão de competir pelo incentivo e demonstrar quanto apoio público será necessário para tornar o hidrogênio produzido ou consumido economicamente viável.
Além dos fertilizantes, terão prioridade empreendimentos ligados à siderurgia, ao cimento, às indústrias química e petroquímica e ao transporte pesado. A preferência será dada aos projetos que utilizarem o hidrogênio no próprio processo industrial, uma tentativa de garantir que o benefício resulte em consumo efetivo e não apenas na instalação de capacidade produtiva.
O crédito só será reconhecido sobre o hidrogênio efetivamente produzido ou consumido no Brasil e devidamente certificado. Os vencedores também terão de apresentar garantias equivalentes a até 10% do incentivo concedido. Projetos que não entrarem em operação no prazo ou descumprirem as regras poderão receber multa de até 20% do crédito previsto.
Pelo marco legal, será considerado de baixa emissão o hidrogênio com intensidade de até sete quilos de dióxido de carbono equivalente para cada quilo produzido. O cálculo será feito por análise do ciclo de vida, incluindo as emissões desde a obtenção das matérias-primas até a entrega do produto.
A certificação ficará dentro do Sistema Brasileiro de Certificação do Hidrogênio. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) será a autoridade reguladora, o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) credenciará as certificadoras e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) administrará o registro dos certificados.
Para ingressar no Rehidro, os projetos terão de cumprir índices mínimos de conteúdo nacional. O percentual será de 15% para sistemas de produção por eletrólise e seus eletrolisadores, de 40% para outras rotas de produção e de 60% para materiais, equipamentos de distribuição e transporte e determinados serviços.
As empresas também deverão aplicar pelo menos 1% do investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação e mais 1% em projetos de desenvolvimento sustentável relacionados à transição energética. Entre as iniciativas admitidas estão recuperação de áreas degradadas, segurança hídrica, acesso à energia e descarbonização industrial.
O Rehidro suspende a cobrança de PIS/Pasep e Cofins sobre máquinas, materiais, locações e serviços destinados aos empreendimentos habilitados. A suspensão, entretanto, só se transforma em alíquota zero depois que a empresa comprovar o uso dos bens no projeto, o cumprimento das contrapartidas e a certificação do hidrogênio produzido.
Há ainda uma limitação importante: pela regra atual, a suspensão tributária alcança contratos firmados somente até 31 de dezembro de 2026. O Ministério da Fazenda sustenta que o prazo acompanha a transição da reforma tributária e que a continuidade do regime será adaptada aos novos tributos. Para o setor, porém, a curta janela e a necessidade de normas complementares ainda deixam incertezas para empreendimentos de longa maturação.
A regulamentação representa um passo para criar uma indústria nacional de hidrogênio de baixa emissão, mas não garante redução imediata no preço dos fertilizantes. Antes que os efeitos cheguem ao produtor rural, será necessário concluir as normas da ANP, do Ministério de Minas e Energia e da Receita Federal, realizar a disputa pelos créditos, construir as unidades industriais e colocar os projetos em operação.
Fonte: Pensar Agro
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