AGRONEGÓCIO
Clima extremo amplia perdas bilionárias no campo e pressiona sistema de seguros
As mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação futura para se tornar um problema econômico imediato para o agronegócio brasileiro. Secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e chuvas concentradas já provocam prejuízos estimados em mais de R$ 100 bilhões por ano à economia nacional, segundo estudo do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (CICEF). No campo, onde a exposição aos fenômenos climáticos é direta, cresce a preocupação com a capacidade do setor de absorver perdas cada vez mais frequentes e severas.
O alerta foi reforçado por um levantamento da EY, antiga Ernst & Young e uma das maiores consultorias e auditorias do mundo, realizado com 52 empresas de diferentes segmentos da cadeia agroindustrial. A pesquisa mostrou que 79% dos entrevistados classificam os riscos climáticos como altos ou muito altos, mantendo o tema como a principal preocupação do agronegócio brasileiro, posição que já ocupava em levantamento semelhante realizado em 2022. A novidade é que a geopolítica passou a figurar entre os principais riscos estratégicos do setor, refletindo um ambiente internacional marcado por disputas comerciais, conflitos armados e novas barreiras ao comércio.
Mas o dado mais preocupante do estudo não está na percepção do risco, e sim na preparação para enfrentá-lo. Segundo a EY, os entrevistados consideram que o agro brasileiro está menos preparado para lidar com os impactos climáticos do que com qualquer outro desafio relevante para o setor. A avaliação ocorre justamente em um momento em que os eventos extremos vêm se tornando mais frequentes nas principais regiões produtoras do país.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, especialistas apontam que uma em cada quatro safras de soja registra perdas significativas associadas ao clima. No Paraná, a proporção é de uma quebra relevante a cada seis ciclos produtivos. Os números ajudam a explicar por que seguradoras, bancos, cooperativas e agentes financeiros passaram a tratar o risco climático como um fator central na concessão de crédito e no financiamento da produção.
O problema é que a proteção disponível ainda está longe de acompanhar o crescimento da exposição ao risco. Apesar de o Brasil ser uma das maiores potências agropecuárias do mundo, a cobertura do seguro rural permanece limitada. Dados do mercado mostram que apenas uma pequena parcela da área cultivada conta com proteção securitária, cenário agravado pela redução dos recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) nos últimos anos.
É nesse contexto que o resseguro, um tema pouco conhecido fora do mercado financeiro, passa a ganhar relevância estratégica para o produtor rural. Na prática, o resseguro funciona como um seguro das próprias seguradoras. Quando ocorre uma perda de grande escala, como uma seca severa atingindo milhares de propriedades simultaneamente, parte do prejuízo é absorvida pelas resseguradoras, empresas especializadas em assumir riscos que excedem a capacidade financeira das seguradoras tradicionais.
Sem esse mecanismo, a capacidade de oferta de seguro rural seria significativamente menor. Em um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, as seguradoras precisariam restringir coberturas, elevar preços ou até abandonar determinadas regiões consideradas de maior risco.
A discussão ganhou força porque o agronegócio brasileiro depende cada vez mais de recursos privados para financiar sua expansão. Com a crescente participação de bancos, fundos de investimento, Fiagros, tradings e investidores institucionais no crédito ao setor, aumenta também a necessidade de mecanismos capazes de reduzir a percepção de risco da atividade agrícola.
Para esses agentes, o seguro rural deixou de ser apenas uma ferramenta de proteção ao produtor e passou a representar um elemento de segurança para toda a cadeia financeira. O resseguro, por sua vez, é o que garante a sustentação desse sistema em momentos de perdas excepcionais.
O desafio não é exclusivo do Brasil. Em diversos mercados internacionais, o aumento dos eventos climáticos extremos tem levado resseguradoras a revisar modelos de risco e reavaliar sua exposição ao setor agrícola. Segundo dados globais do mercado segurador, as perdas econômicas associadas a catástrofes naturais vêm superando regularmente a marca de US$ 300 bilhões por ano, enquanto as perdas seguradas frequentemente ultrapassam US$ 100 bilhões.
Além do clima, a pesquisa da EY identificou outro fator que passou a preocupar o agronegócio brasileiro: a geopolítica. A forte dependência das exportações para poucos mercados, especialmente a China, é vista como uma vulnerabilidade crescente em um cenário de disputas comerciais e uso cada vez mais frequente de barreiras regulatórias e sanitárias como instrumentos de política econômica.
Especialistas defendem que a diversificação de mercados, investimentos em logística, ampliação da capacidade de armazenamento e fortalecimento dos mecanismos de proteção financeira serão fundamentais para reduzir a exposição do setor aos riscos externos.
A conclusão do levantamento é que o agronegócio brasileiro precisará avançar simultaneamente em duas frentes. A primeira é a adaptação produtiva, com mais investimentos em pesquisa, genética, agricultura de precisão e sistemas resilientes às mudanças climáticas. A segunda é financeira, por meio da ampliação dos instrumentos de gestão de risco.
Nesse cenário, o resseguro deixa de ser um tema restrito ao mercado segurador e passa a ocupar papel estratégico para a estabilidade econômica do campo. À medida que os eventos extremos se tornam mais frequentes e custosos, garantir capacidade financeira para absorver perdas deixou de ser apenas uma questão de proteção patrimonial. Tornou-se uma condição para sustentar o crédito, os investimentos e o crescimento de um setor responsável por quase um quarto do Produto Interno Bruto brasileiro.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Cerrado Mineiro tem um dos melhores rendimentos dos últimos anos
A colheita do café arábica chegou a 99% nas propriedades acompanhadas pela Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer), no Cerrado Mineiro. Além do avanço dos trabalhos, o beneficiamento apresenta rendimento médio de 455 litros de café colhido para a formação de uma saca de 60 quilos, um dos melhores resultados registrados nos últimos anos.
O levantamento considera a situação das lavouras até 11 de setembro. Aproximadamente 90% da produção já passou pelo beneficiamento, etapa em que são retiradas a casca, a palha e as impurezas para obtenção dos grãos que serão classificados e comercializados.
O resultado de 455 litros por saca indica uma relação favorável entre o volume retirado da lavoura e a quantidade de café beneficiado. Quanto menor o volume de frutos necessário para formar uma saca de 60 quilos, melhor tende a ser o aproveitamento industrial da produção.
Esse rendimento ajuda a compensar parte dos custos da colheita, da secagem e do beneficiamento. Para o produtor, significa obter mais sacas comerciais a partir do mesmo volume colhido, embora o resultado financeiro também dependa da qualidade da bebida, da classificação dos grãos e dos preços negociados.
O Cerrado Mineiro reúne cerca de 4,5 mil produtores em 55 municípios e possui aproximadamente 255 mil hectares cultivados. A região produz, em média, 6 milhões de sacas por ano, equivalentes a 12,7% da produção brasileira, e comercializa café com mais de 30 países.
A cafeicultura regional também se diferencia pela Denominação de Origem Cerrado Mineiro, a primeira reconhecida para cafés no Brasil. O selo identifica produtos cultivados dentro da área delimitada e que atendem aos critérios de origem, rastreabilidade e qualidade.
A etapa final da colheita está concentrada principalmente no recolhimento dos frutos que caíram no chão. A Expocacer estima que esse café represente cerca de 30% do volume da safra. Aproximadamente 80% dessa parcela já foi recuperada.
O índice médio de catação, que representa a retirada de grãos defeituosos durante o beneficiamento, está próximo de 21%. O percentual foi influenciado justamente pela maior participação do café recolhido do chão, normalmente mais sujeito à umidade, fermentação e contato com impurezas.
As chuvas registradas entre os dias 5 e 9 de setembro impediram o encerramento completo da colheita. A umidade elevada do solo dificultou o tráfego das máquinas e interrompeu temporariamente o recolhimento em algumas propriedades. Como a maioria das áreas já concluiu o trabalho, o avanço do percentual restante ocorre de forma mais lenta.
As precipitações, por outro lado, estimularam a abertura das primeiras flores da próxima safra. A florada observada corresponde, em média, a 33% do potencial estimado para as lavouras acompanhadas pela cooperativa.
Nas áreas que produziram menos nesta temporada, a abertura das flores foi mais intensa e uniforme. Nas lavouras que sustentaram cargas elevadas, a florada apresentou menor intensidade, comportamento relacionado ao esforço realizado pelas plantas durante a formação da safra atual.
A continuidade das chuvas poderá favorecer uma segunda florada de proporção semelhante. O restante do potencial deve se distribuir entre outubro e novembro, conforme a disponibilidade de umidade e as condições de temperatura.
A abertura das flores é uma sinalização positiva, mas ainda não garante o tamanho da próxima produção. Para que se transformem em frutos, as lavouras precisarão de umidade suficiente durante o pegamento, a formação dos chumbinhos e o início da granação.
Com a safra atual praticamente recolhida, rendimento de beneficiamento favorável e as primeiras flores abertas, o Cerrado Mineiro encerra um ciclo e inicia outro. O acompanhamento das chuvas e o manejo nutricional e fitossanitário das lavouras serão decisivos para transformar o potencial observado agora em produção na próxima colheita.
Fonte: Pensar Agro
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