TRIBUNAL DE JUSTIÇA MT
Cemulher e Município de Cuiabá vão lançar concurso cultural sobre violência doméstica nas escolas
O concurso cultural “A escola ensina, a mulher agradece” será lançado na rede municipal de ensino de Cuiabá na próxima segunda-feira (20 de outubro). Os detalhes do projeto foram selados durante reunião entre a desembargadora Maria Erotides Kneip, responsável pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Poder Judiciário de Mato Grosso – Cemulher-MT, o secretário municipal de Educação, Amauri Fernandes, e a secretária municipal da Mulher, tenente-coronel Hadassah Suzannah Bezerra de Souza, na sede da Secretaria Municipal de Educação, nesta terça-feira (14).
O concurso tem como objetivo conscientizar alunos do Ensino Fundamental 1, na faixa etária de 6 a 11 anos de idade, sobre a importância do respeito às mulheres, da cultura de paz e do combate à violência contra a mulher.
“Nós sabemos que a violência contra a mulher é cultural. Ela vem de uma educação e de valores colocados de forma equivocada. Então, quando nós pensamos em construir um mundo mais justo, um mundo mais equânime, um mundo sem violência contra a mulher, nós temos que trabalhar a educação e trabalhar desde muito cedo. Então, esse projeto que a Coordenadoria da Mulher propôs visa justamente trazer para a criança, de uma maneira alegre, de uma maneira leve de expressão, de se educar, a equidade e a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres”, afirma a desembargadora Maria Erotides Kneip.
Idealizadora do projeto, juntamente com a desembargadora Maria Erotides Kneip, a juíza membro da Cemulher, Tatyana Lopes de Araújo Borges explica que os estudantes serão convidados a participar inscrevendo redações, poemas, composições musicais e vídeos sobre o tema da violência contra a mulher. Ao final, os melhores classificados serão premiados e passarão a concorrer em uma nova etapa, competindo com alunos de outras cidades polo, como Rondonópolis e Sinop.
Segundo a magistrada, o projeto já existe também no âmbito das escolas estaduais e, além de estimular a criatividade dos alunos, também promove a capacitação dos profissionais da Educação pública. “No lançamento do projeto, que ocorreu em maio, nós fizemos a capacitação dos diretores escolares. No mês de agosto, fizemos a capacitação dos professores. Agora, na segunda-feira, na Secretaria Municipal de Educação, faremos uma nova etapa de capacitação com os diretores do município”, informa.
Parceira da iniciativa, a Secretaria da Mulher de Cuiabá também dará subsídios para que os alunos possam desenvolver suas produções sobre a temática do concurso cultural, levando palestras às escolas. “A importância desse projeto é a conscientização, sobretudo para essas crianças que estão ali começando a sua idade escolar. São crianças que, infelizmente, algumas já têm contato com violência e sequer têm essa consciência”, afirma a secretária da Mulher, Hadassah Suzannah.
Ela destaca que a Pasta também providenciará suporte às famílias de crianças que venham a ser identificadas vivendo em um ambiente de violência doméstica. “A Secretaria da Mulher entra nessa parceria principalmente no sentido de conscientizar professores e alunos. Quando essa conscientização for feita, a gente sabe que os casos aparecerão. A Secretaria da Mulher hoje dispõe de estrutura de psicólogo e assistente social. Então, também estamos aptos e prontos para receber toda e qualquer demanda que vier dessas famílias”, pontua.
Para o secretário municipal de Educação, Amauri Fernandes, a reunião de alinhamento do concurso cultural foi especial para sua equipe. “Porque estamos tratando de um tema muito importante, que é prevenir a violência contra a mulher. Junto com o Tribunal de Justiça e com a Secretaria da Mulher, vamos lançar na segunda-feira uma grande campanha de conscientização pra nossa rede escolar, pra que a gente possa reduzir essa coisa tão terrível que é a violência contra a mulher”.
Amauri Fernandes ressalta que o Ensino Fundamental do Município abrange cerca de 36 mil estudantes, o que dá a dimensão do projeto, cujo lançamento oficial será na próxima segunda-feira (20), às 8h, na sede da Secretaria Municipal de Educação. “Queremos que todos participem com produções – vídeos, músicas, poemas, redações – falando sobre esse tema e conscientizando a comunidade escolar sobre a gravidade da violência contra a mulher. Acredito que será um grande sucesso porque a sociedade precisa entender que é preciso combater a violência contra a mulher”.
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Autor: Celly Silva
Fotografo: Anderson Borges
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
TRIBUNAL DE JUSTIÇA MT
Magistrada do TJMT reforça necessidade de mudança cultural no combate à violência contra a mulher
A violência doméstica no Brasil não pode ser vista como caso isolado, mas como resultado de uma cultura histórica de desigualdade. Essa foi a principal mensagem da juíza Tatyana Lopes de Araújo Borges, da 2ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Cuiabá, durante palestra no “III Encontro Anual do Núcleo de Atendimento a Magistradas e Servidoras Vítimas de Violência Doméstica e Familiar – Espaço Thays Machado”, realizado nesta sexta-feira (19), na capital.
Promovido pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), por meio da Coordenadoria Estadual da Mulher em situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), o evento reuniu magistrados(as) e servidores(as) que atuam nas Redes de Enfrentamento e Grupo Reflexivo de Homens, para ampliar o debate sobre a violência doméstica, divulgar canais de denúncia e fortalecer a rede de proteção às vítimas.
Durante a palestra, a magistrada destacou que o conhecimento jurídico não é suficiente para proteger mulheres da violência, inclusive dentro do próprio sistema de Justiça. “Ninguém está imune. É fundamental garantir espaços de escuta qualificada, acolhimento e proteção também dentro do Judiciário”, afirmou.
Violência como construção histórica
Ao abordar a evolução dos direitos das mulheres, a juíza ressaltou que a violência está enraizada em uma cultura que, por séculos, tratou a mulher como propriedade do homem. “Não são casos isolados. Viemos de uma cultura que autorizava a violência contra as mulheres. Apenas o aumento das penas não muda uma realidade construída ao longo de séculos”, pontuou.
Ela relembrou marcos históricos, como o direito ao voto em 1932, a capacidade civil plena em 1962 e a Constituição de 1988, que estabeleceu igualdade formal ainda não plenamente efetivada.
Ciclo silencioso de violência
A magistrada enfatizou que o feminicídio representa o estágio mais extremo de um ciclo de violência que, na maioria das vezes, começa de forma silenciosa, por meio de comportamentos controladores, humilhações e isolamento. “A violência não começa com agressões físicas. Muito antes disso surgem sinais nas palavras, nas atitudes e na convivência. O controle excessivo, o ciúme e as ameaças são alertas”, disse.
De acordo com ela, muitas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos por acreditarem em promessas de mudança ou por desejarem preservar a família. No entanto, essa permanência pode agravar o risco. “É preciso reconhecer os sinais e interromper esse ciclo antes que algo mais grave aconteça”, alertou.
A juíza exemplificou com relatos reais de vítimas, de audiências que presidiu, e destacou situações em que mulheres sofreram agressões severas mesmo após tentativas de reconciliação.
Lei Maria da Penha e formas de violência
A juíza destacou a Lei Maria da Penha como marco no combate à violência ao afirmar que a lei deu visibilidade a uma violência que era invisível e criou mecanismos de proteção.
Ela explicou as cinco formas de violência: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial, ressaltando que a psicológica costuma ser a primeira e mais difícil de identificar. “A violência psicológica destrói a autoestima da vítima. Quando ela passa a acreditar que não tem valor, romper o relacionamento se torna ainda mais difícil”, explicou.
Dados preocupantes
Apesar dos avanços, os índices de feminicídio seguem elevados. A maioria dos casos ocorre no ambiente doméstico e é praticada por companheiros ou ex-companheiros. “Enquanto a mulher for vista como posse, o problema vai continuar”, destacou.
A magistrada também apontou que muitas vítimas não chegam a pedir ajuda antes da violência extrema.
Educação como caminho
Ao longo da palestra, a juíza reforçou que o enfrentamento à violência contra a mulher exige mais do que punição criminal, depende de transformação cultural profunda, baseada em educação e igualdade. “O combate ao feminicídio exige mudança de mentalidade. É preciso construir uma cultura de respeito, dignidade e igualdade entre homens e mulheres”, afirmou.
Programação integrada
O evento integrou uma agenda mais ampla promovida pelo TJMT. Entre os dias 17 e 19 de junho, servidores da Justiça Estadual e das comarcas participaram da capacitação “Reflexão e Sensibilização para Autores de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher”, realizada pela Escola dos Servidores.
A iniciativa envolveu profissionais das Redes de Enfrentamento e dos Grupos Reflexivos para Homens, ampliando o debate sobre prevenção e responsabilização.
Compromisso institucional
Ao final do encontro, ficou evidenciada a mensagem comum de que combater a violência contra a mulher exige atuação contínua das instituições, fortalecimento das redes de proteção e investimento em educação.
Mais do que leis, o desafio está em transformar a sociedade. “Só vamos avançar quando deixarmos de naturalizar comportamentos abusivos e passarmos a promover relações baseadas no respeito”, concluiu a magistrada.
Participantes
O integrante da equipe multidisciplinar da Cemulher-MT, Cristian Pereira Oliveira, destacou que a prevenção da violência passa pela mudança de padrões culturais, com foco no trabalho junto aos homens.
Cristian também chamou atenção para um ponto sensível no debate sobre a prevenção da violência. O papel das mulheres na condução de diálogos com homens autores de violência. Para ele, embora ainda haja resistência, a participação feminina nesses espaços é fundamental. “Nos grupos reflexivos, há um acordo inicial de respeito. Cada um tem o seu tempo de fala e precisa ouvir o outro. Se o homem não consegue lidar com uma mulher conduzindo esse diálogo, já há um problema desde o início”, explicou.
Ele também pontuou que o depoimento da órfã de feminicídio apresentado durante o encontro reforçou a importância do diálogo entre os próprios homens, especialmente em relações de amizade. “Muitas vezes falta um colega, um amigo, alguém próximo para dar um toque, orientar, chamar a atenção. Se esse diálogo acontecesse mais entre os homens, muitas histórias poderiam ser diferentes”, disse.
O policial civil da Delegacia da Mulher de Cuiabá, Armando Arce, afirmou que o depoimento da órfã de feminicídio foi profundamente impactante e trouxe uma nova perspectiva para sua atuação. “Foi um testemunho de fortes emoções, uma realidade que eu nunca tinha imaginado. A gente costuma focar no agressor, mas muitas vezes esquece dos órfãos, que também são vítimas dessa violência”, destacou.
Com 11 anos de atuação na área, Armando reforçou que o acolhimento humanizado é essencial no atendimento às vítimas. “Nosso trabalho é acolher sem julgamento, mostrar que ela não está sozinha e que existe uma rede pronta para ajudar. Como ela disse, calar dói mais. É preciso falar para se libertar”, afirmou.
Ele também ressaltou a importância da capacitação promovida pelo Judiciário para fortalecer a rede de enfrentamento à violência doméstica. “Essa é uma porta aberta, uma oportunidade gigantesca. Quanto mais preparados estivermos, melhor será o acolhimento às vítimas”, concluiu.
Autor: Marcia Marafon
Fotografo:
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
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