POLÍTICA NACIONAL
Memória: Roberto Saturnino Braga, símbolo da geração de 1974
Roberto Saturnino Braga chegou ao Senado ao vencer uma das eleições mais improváveis da história. Ao fazê-lo, ele foi o principal representante de um dos grandes momentos de inflexão da política brasileira.
Ele nasceu no Rio de Janeiro quando a cidade ainda era a capital do Brasil e formava o Distrito Federal. Seu pai, Francisco Saturnino Braga, fez longa carreira na política do estado do Rio de Janeiro, que na época não incluía a cidade. Foi diretor da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado do Rio de Janeiro e do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER). Depois, foi três vezes deputado federal e tentou o Senado em 1962.
Quando entrou na política, o Saturnino filho se apresentou como Roberto Saturnino para se diferenciar do pai, que na própria carreira era mais conhecido pelos dois sobrenomes. Conquistou um mandato na Câmara dos Deputados, mas entrou na mira da ditadura militar e não conseguiu a reeleição, ficando apenas como suplente. Voltou a trabalhar no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), que anos depois se tornou BNDES, de onde era engenheiro.
O retorno de Roberto Saturnino à política não foi premeditado, mas foi frutífero. Em 1974, o MDB fluminense tinha o desafio de enfrentar o presidente do Senado, Paulo Torres, na disputa por uma cadeira. O partido lançaria o deputado federal Affonso Celso, mas ele recuou da disputa por problemas de saúde. A legenda procurou Saturnino, que embarcou em uma candidatura dada por perdida.
O resultado nas urnas surpreendeu, não só no Rio de Janeiro como em todo o país. Saturnino levou 64% dos votos válidos e se tornou um dos 16 senadores eleitos pela oposição no pleito de 1974, entre 22 disputas. A eleição de Roberto Saturnino foi a mais significativa daquela eleição, que forçou mudanças de rumos na política nacional no auge da ditadura militar.
Seu primeiro discurso no Senado foi impulsionado pela sua formação como engenheiro: uma crítica à construção da ponte Rio-Niterói. A partir dali, os primeiros dias da atuação de Saturnino o posicionaram como um dos principais oradores da bancada da oposição. Em outro pronunciamento no primeiro mês de mandato, ele denunciou uma radicalização dos parlamentares da base do governo diante do crescimento da força contrária no Congresso.

“A agressividade dos discursos dos representantes arenistas, aqui e na Câmara dos Deputados, já não pode ser atribuída ao impulso pessoal de um ou outro parlamentar, mas sua evidente articulação denota uma posição de governo com o propósito de ameaçar e intimidar a oposição. E o que a oposição tem a dizer é que essas vozes de ameaça não terão nenhuma influência sobre a sua conduta.”
Pronunciamento, 10 de março de 1975
Defensor da intervenção do Estado na economia e do sustento estatal à industrialização, Saturnino não deixava de citar positivamente as medidas do governo que contribuíam para esse objetivo, especialmente através da atuação do BNDE, mas sempre ressaltava que as considerava insuficientes. Além disso, na sua visão, o regime militar errava ao estimular a concentração de recursos no sistema financeiro. Foi o teor de sua crítica ao II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND).
“O que se tem reclamado, com o nosso apoio, são medidas de fortalecimento da empresa privada nacional, da empresa industrial genuinamente brasileira. O que faz o governo? Cede aos reclamos daqueles que constituem um dos pilares da campanha contra a estatização, que são os bancos de investimento. Ao invés de dar o apoio à empresa genuinamente nacional, concede este apoio aos grandes bancos para que, com dinheiro fácil, possam comprar as ações das empresas brasileiras, abrindo caminho para a liquidação da pequena e média empresa nacional.”
Pronunciamento, 23 de junho de 1976
Ainda em 1976, Saturnino apresentou um projeto que introduzia na legislação brasileira os impostos sobre heranças e sobre ganhos de capital (PLS 207/1976). A proposta chegou a ser incluída em pauta algumas vezes, mas não foi votada e acabou arquivada. Mesmo sem sucesso naquele momento, o Imposto sobre a Herança veio a ser estabelecido pela Constituição Federal de 1988.
“O que é preciso é retirar a receita de quem pode e deve pagar, daqueles que obtêm rendimentos principalmente do fator capital e não do seu trabalho. Aumentando as receitas por esta via, pode o governo reduzir a incidência dos impostos indiretos, que elevam os preços dos bens de consumo essenciais, ou utilizar esse acréscimo de receita para aumentar os seus gastos de natureza social. Preciso é mudar a nossa estrutura tributária, atualmente reconhecida por todos como uma das mais regressivas do mundo, que pesam mais sobre a população de baixa renda. Há que se dirigir a maior carga tributária sobre a população de renda mais alta, aqueles que podem e devem pagar em benefício de toda a coletividade brasileira.”
Pronunciamento, 27 de agosto de 1976
Perto do fim de seu primeiro mandato, o senador testemunhou o início do processo de abertura política e se filiou ao PDT, um dos partidos recém-criados. Ele se dedicou ao fortalecimento dos partidos e apresentou uma proposta de emenda à Constituição para inscrever na Carta o fundo partidário (criado em 1971) e garantir mais recursos para o financiamento das legendas (PEC 3/1981). A ideia foi reeditada em 1985, já no seu segundo mandato. Em nenhuma das tentativas ela chegou a ser aprovada.
Saturnino foi reeleito em 1982, mas encurtou seu segundo mandato para disputar a prefeitura do Rio de Janeiro em 1985. Era a primeira vez em 20 anos que a cidade elegia seu próprio governante. O senador venceu a disputa com 43% dos votos válidos (na época não havia segundo turno, e o candidato mais votado vencia a eleição mesmo sem a maioria dos votos), mas bem à frente dos concorrentes: obteve mais do que o dobro de votos do segundo colocado.
Antes de sua partida, ele ainda deixou registrado um manifesto de economistas contra as medidas econômicas que vinham sendo tomadas pelo governo de José Sarney, que sucedeu a ditadura. Assim, Saturnino demarcou que mantinha-se como um oposicionista nos primeiros anos da Nova República

“Tudo está começando a aflorar e a se aclarar a partir dessas contradições, dessa perplexidade que tem que ser resolvida. A nação não pode ficar à espera de que os ministros, novamente sem a participação do Congresso, venham a tomar essas decisões que continuam a seguir os trilhos da mesma política dos governos anteriores, que conduziram o país a esta situação desastrosa.”
Pronunciamento, 23 de maio de 1985
Depois de um mandato como prefeito e outro como vereador, Saturnino tentou voltar ao Senado primeiro em 1994 e depois em 1998, quando teve sucesso. Com a vitória nas urnas, ele se tornou o recordista de mandatos como senador pelo estado do Rio de Janeiro desde o fim da República Velha. De imediato, retomou seu hábito de fazer numerosos discursos e questionar o governo.
Foi no terceiro mandato que Saturnino emplacou as leis mais importantes da sua carreira como parlamentar. Ele foi o relator do projeto que criou o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) (Lei 9.998, de 2000) e o autor da lei que instituiu o ensino de música, teatro e artes visuais no currículo nacional (Lei 13.278, de 2016). Também relatou um projeto de lei que propunha a tarifa social de energia elétrica (PLS 118/1999). O texto foi aprovado pelo Senado, mas parou na Câmara, e a tarifa foi criada por medida provisória pouco depois.
Saturnino também cumpriu papel central em um dos períodos mais delicados da história recente do Senado: o escândalo da violação do painel eletrônico de votações em 2000. Na ocasião, o sigilo do painel foi violado para que senadores tivessem acesso aos votos do Plenário no processo de cassação do senador Luiz Estevão (DF). Saturnino foi escolhido como relator, no Conselho de Ética, das denúncias contra os dois senadores pivôs do caso: José Roberto Arruda (DF), ex-líder do governo, e Antônio Carlos Magalhães (BA), ex-presidente da Casa.
“Esse infausto episódio causou graves danos à imagem do Senado. É um precedente com grande repercussão para a respeitabilidade das instituições democráticas, por envolver a confiança da cidadania na lisura dos procedimentos do Congresso e no sistema político.”
Pronunciamento, 16 de maio de 2001
As apurações aconteceram durante o primeiro semestre de 2001. O Conselho ouviu os parlamentares envolvidos e também da diretora-geral do Centro de Processamento de Dados do Senado, Regina Célia Borges, envolvida no caso. Saturnino entendeu que as explicações de Magalhães e Arruda eram inconsistentes e indicavam tentativa de “ludibriar” a Casa. Ele apresentou parecer pela abertura de processo de cassação contra os dois senadores. O Conselho de Ética aceitou a recomendação no dia 23 de maio. Porém, ambos renunciaram aos mandatos antes da conclusão do caso.
Roberto Saturnino encerrou sua trajetória no Senado presidindo a Comissão de Relações Exteriores nos seus dois últimos anos de mandato. Ele não tentou a reeleição em 2006. Em um de seus últimos discursos, ele comentou o resultado da eleição presidencial daquele ano e manifestou satisfação com o estágio democrático que tinha visto o Brasil alcançar.

“O Brasil não é um país onde se pratica a democracia há séculos. A democracia, para a sua realização plena, exige um tempo de prática, uma cultura política democrática, que só se consolida e se sedimenta com o passar do tempo. Percebo que o povo se emancipou e formou a sua opinião. Isso me faz acreditar que, agora, pode-se dizer que a democracia se enraizou definitivamente na sociedade brasileira, o que é muito importante, porque ela é um valor por si mesma. É a realização do verdadeiro espírito republicano.”
Pronunciamento, 31 de outubro de 2006
Roberto Saturnino faleceu no Rio de Janeiro (RJ) na quarta-feira (3). Ele estava internado em cuidados paliativos.
Roberto Saturnino Braga
13/9/1931 – 3/9/2024
Mandatos
- 1975-1983 RJ
- 1983-1991 RJ (saiu em 1985, para ser prefeito do Rio de Janeiro)
- 1999-2007 RJ
No Senado
- Bancadas
- MDB/PMDB (1975-1982)
- PDT (1982-1985)
- PSB (1999-2002)
- PT (2002-2007)
- Cargos
- Líder do PDT (1982-1985)
- Líder do PSB (2000)
- Presidente da Com. Relações Exteriores (CRE) (2005-2007)
Outros cargos
- Deputado federal RJ (1963-1967, 1968)
- Prefeito Rio de Janeiro, RJ (1986-1989)
- Vereador Rio de Janeiro, RJ (1997-1999)
Outras eleições disputadas
- Senado RJ (1994)
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Câmara aprova regras para realização da Copa do Mundo de Futebol Feminino no Brasil em 2027
A Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que regulamenta direitos e deveres da União e da Federação Internacional de Futebol (Fifa) em razão da realização da Copa do Mundo de Futebol Feminino no Brasil em 2027. A proposta será enviada ao Senado.
De autoria do Poder Executivo, o Projeto de Lei 1315/26 foi aprovado na forma do substitutivo da relatora, deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR). Ela defendeu a proposta como de importância esportiva, social e institucional, para favorecer o desenvolvimento e a promoção do futebol feminino, ampliar sua visibilidade e fortalecer a formação de atletas e público, entre outros benefícios.
Propaganda de bebidas
Segundo o texto, ao contrário da proibição legal, será permitida a propaganda de bebidas alcoólicas nas transmissões dos eventos oficiais do torneio (jogos, treinos, sorteio, etc.) e em emissoras de rádio e TV fora do horário restrito das 22 horas de um dia às 6 horas do dia seguinte.
Como a jurisprudência legal e o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publiciária (Conar) estendem a proibição legal às redes sociais, canais de internet e outros meios virtuais de transmissão, por extensão a permissão de propaganda desses produtos nos eventos também atingirá esses meios.
Comércio
A relatora incluiu no substitutivo toda a Medida Provisória 1335/26, que disciplina questões como patentes, comércio nos locais de eventos e acesso a imagens.
Quanto à venda de bebida alcoólica, Gleisi Hoffmann retirou trecho ambíguo da MP a fim de permitir a venda de bebidas alcoólicas nos estádios e locais de eventos oficiais.
Entretanto, a proteção aos direitos comerciais e de marketing não implica autorização, dispensa ou flexibilização de normas sanitárias.
Exclusividade
O texto estabelece regras de exclusividade para a Fifa e seus parceiros econômicos para a realização da Copa no Brasil, envolvendo a titularidade de todos os direitos de exploração comercial relacionados às imagens, sons, símbolos, marcas, slogans, marketing e demais propriedades intelectuais de todos os eventos relacionados à Copa, desde as partidas oficiais até treinos, festas, entrevistas, etc.
Uma das novidades em relação às normas da Copa de 2014 é o resguardo dos direitos do governo federal pelo uso de seus próprios slogans, mascotes, denominações, campanhas, personagens, símbolos oficiais e outros existentes ou criados especificamente para uso em publicidade institucional, comunicação de utilidade pública, campanhas educativas, informativas ou de interesse público ou divulgação de políticas públicas, ainda que realizados no contexto ou no âmbito dos eventos oficiais e desde que não haja exploração comercial nem associação promocional com marcas ou produtos de terceiros.
Imagens
O projeto também traz regra para a liberação de imagens para outras emissoras não autorizadas a transmitir integralmente as partidas, cerimônias de abertura e encerramento ou sorteio da competição.
Essas imagens liberadas após o fim do evento oficial, classificadas como flagrantes, poderão ser usadas apenas para fins jornalísticos com uso nas 24 horas após o evento, proibida sua associação a qualquer forma de patrocínio, promoção, publicidade ou marketing.
As emissoras não autorizadas poderão exibir um máximo de 30 segundos de flagrantes para cada evento, exceto no caso das partidas, cujo limite será de 3% do tempo de partida.
Para ter acesso a essas imagens, os veículos de comunicação terão de comunicar à Fifa com 72 horas de antecedência sua intenção de usar o material.
Edição de imagens
A Fifa ou pessoa por ela indicada deverá preparar 6 minutos de gravação dos principais momentos das partidas ou eventos oficiais, dos quais serão extraídos os flagrantes dentro dos limites de tempo estipulados. A gravação será entregue em até 6 horas depois do evento.
O conteúdo editado poderá ser distribuído pelas emissoras às suas filiadas, que também terão de cumprir os limites de tempo dos flagrantes.
Em todos os casos, não poderá ser associada às imagens qualquer atividade publicitária ou haver exploração comercial do conteúdo.
Todas as regras serão aplicáveis à veiculação pela internet ou plataformas digitais.
Premiação
O texto permite ainda ao Ministério do Esporte pagar um prêmio de R$ 500 mil a cada jogadora da seleção brasileira de futebol feminino participante do Torneio Experimental Fifa realizado na China em 1988.
Nesse torneio, o Brasil ficou na terceira colocação e participaram, a convite, 12 seleções das confederações de futebol para avaliar o potencial econômico e de inserção no calendário de um torneio mundial da Fifa em caráter permanente.
Nesse ponto, a relatora incluiu como beneficiárias da premiação as jogadoras participantes da 1º Copa do Mundo Fifa de Futebol Feminino, igualmente realizada na China em 1991. Com isso, o total de jogadoras que podem receber as premiações passa de 18 para 30.
A estimativa inicial de impacto orçamentário do governo é de R$ 9 milhões. Caso alguma jogadora já tenha falecido, os sucessores indicados pela Justiça poderão receber o prêmio proporcionalmente à sua cota-parte na sucessão da herança.
A premiação não tem data definida para pagamento, mas a vigência desse trecho do projeto ocorrerá a partir de 24 de junho, um ano antes do início da Copa.
Reparação histórica
Gleisi Hoffmann afirmou que o poder público tem a obrigação de promover o futebol feminino. Ela lembrou que o Decreto-Lei 3.199/41 proibiu por mais de 40 anos às mulheres a prática de esportes considerados “incompatíveis com as condições da natureza feminina” e afetou principalmente as modalidades como futebol, lutas e halterofilismo.
“Se foi o Estado, em tempos de ditaduras, que proibiu o esporte por tanto tempo e gerou as dificuldades que vemos agora, nada mais justo do que promover, na democracia, as medidas de reparação”, disse.
Feriado
Outra medida prevista no projeto é a permissão para a União decretar feriado nacional nos dias em que houver jogo da seleção brasileira de futebol durante o torneio. Estados, Distrito Federal e municípios poderão também decretar feriado ou ponto facultativo nos dias em que ocorrerem eventos oficiais em seus territórios.
Já os calendários escolares dos sistemas de ensino deverão ser ajustados para que as férias do primeiro semestre de 2027 abranjam todo o período entre a abertura e o encerramento da Copa, tanto nos estabelecimentos da rede pública quanto nos da rede privada.
Saiba mais sobre a tramitação de projetos de lei
Reportagem – Eduardo Piovesan e Tiago Miranda
Edição – Pierre Triboli
Fonte: Câmara dos Deputados
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