POLÍTICA NACIONAL
Governistas defendem MP das Aplicações; oposição pede mais tempo para análise
Enquanto senadores governistas saem em defesa da medida provisória que padroniza a tributação sobre aplicações bancárias como ação importante para o ajuste fiscal das contas públicas, senadores dos partidos de centro e da oposição sinalizam que ainda é preciso mais tempo para estudar a matéria e identificar “os pontos que podem ser, de fato, analisados”. O tema foi um dos assuntos mais discutidos na reunião de líderes partidários desta quinta-feira (12). O líder do governo no Congresso Nacional, senador Randolfe Rodrigues (AP), disse que as bancadas devem indicar os membros da comissão mista para análise da medida “o quanto antes” para que o colegiado seja instalado e a MP possa ser votada pelas duas Casas.
A MP 1.303/2025 foi publicada na quarta-feira (11) em edição extra do Diário Oficial da União e precisa ser votada por senadores e deputados até 28 de agosto. O governo espera arrecadar R$ 10,5 bilhões com as mudanças em 2025 e R$ 20,6 bilhões em 2026.
— A MP tem três eixos: o primeiro deles tem um esforço primeiro do governo, o governo coloca o programa Pé-de-Meia dentro do piso da educação pensando nos exercícios que tem que fazer de rigor fiscal, de contenção de gastos. O governo tomou medidas em relação ao INSS, pensando nisso. Então o primeiro eixo da medida provisória é o próprio esforço fiscal que o governo faz. O segundo é de justiça tributária. Nós não estamos aumento carga tributária, nós estamos ponderando, na medida provisória, sobre CSLL [Contribuição Social sobre o Lucro Líquido], por exemplo, que não é aceitável que a maioria dos brasileiros paguem tributos e uma parcela pequena, que estão nos bancos, que são os multimilionários, não paguem. Então é uma questão de justiça fiscal, sobretudo, em primeiro lugar. E a terceira questão é a de saúde pública — disse Randolfe a jornalistas após a reunião de líderes.
A medida provisória foi editada como forma de compensar a revogação do decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que previa a alta do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
A iniciativa do governo propõe mudanças na tributação de investimentos e lucros do setor financeiro. Passam a ser tributadas com alíquota de 5% novas emissões de títulos antes isentos, como LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivados. Já os demais ativos, entre eles criptoativos, terão uma alíquota única de 17,5% de Imposto de Renda, independentemente do prazo de aplicação. A poupança permanece isenta. A MP também altera a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) das instituições financeiras, eliminando a alíquota de 9%, que era a mais baixa entre as praticadas.
Além disso, a tributação sobre o faturamento das bets sobe de 12% para 18% — segundo o líder do governo, esse é o eixo relacionado à saúde pública.
— Nós queremos incluir bets numa espécie de imposto seletivo. Porque hoje 70% dos brasileiros estão, lamentavelmente, envolto a esse vício. Imposto seletivo ele inibe o consumo de determinados produtos. É para isso que existe imposto seletivos a cigarros, imposto seletivo em relação à bebida. A consequência das bets para a saúde dos brasileiros é a mesma. Então, qualquer medida para inibir essa epidemia que temos hoje no Brasil em relação às bets, o governo está procurando editar e acreditamos que deve ter uma sensibilidade do Congresso Nacional sobre esse tema.
Convergência
É justamente o aumento da taxação das bets o único ponto que se apresenta convergente entre os senadores. Na avaliação do senador Plínio Valério (PSDB-AM), taxar bets “passa com tranquilidade”.
— Foi um grande pecado do Senado [ter aprovado a autorização e regulação das apostas on-line], eu coloco aqui a minha culpa, embora eu tenha votado no destaque do Eduardo Girão [Novo-CE] que era contra, mas o Senado votou, de forma açodada, apressada, causando grande mal à nação, e agora quer se redimir.
Senadores ainda citaram, como ideia apresentada na reunião de líderes, a sugestão de um projeto de lei para taxar as operações feitas às bets por meio do Pix. No entanto, apesar de tertido apoio de alguns dos participantes, segundo os senadores Carlos Viana (Podemos-MG) e Plínio Valério, a eventual medida ainda deve ser avaliada com cuidado para que não possa gerar nova crise em relação à tributação desse mecanismo de pagamento.
— Isso está sendo discutido, é uma ideia que está sendo proposta, a questão é a preocupação que isso pode passar para a população a ideia de que começa [a taxação] de acordo passa para outros tipos de Pix e aí vem uma crise, como aconteceu. O governo vai ter que tomar muito cuidado — reforçou Carlos Viana.
Já sobre os demais pontos da medida provisória, os senadores pediram mais tempo para estudar a matéria e assim identificar o que pode ser alvo de convergência ou que pode ser alvo de veto ou alterações. Segundo eles, as lideranças partidárias ainda vão analisar o texto para conversar com seus parlamentares.
— A gente chegou à conclusão de que é preciso mergulhar um pouco mais, uma semana a mais, uns dias a mais, para que cada um, cada bancada apresente o que diverge e suas sugestões. Então, nada foi decidido em definitivo a não ser que nós vamos mergulhar, a partir de hoje, para correr e dizer o que a gente pensa, o que a nossa bancada quer, o que a gente não quer e o que a gente quer — afirmou Plínio Valério.
Já Carlos Viana, apesar de informar que ainda vai conversar com a bancada, antecipou ser contra a qualquer iniciativa que venha a taxar o setor agrícola e citou como exemplo a taxação da Letra de Crédito Agrícola (LCA), como a estabelecida na nova MP.
— A base, a própria oposição, a questão do agro, por exemplo, os títulos, nós não concordamos, definitivamente, com qualquer tipo de aumento [de tributo] ao agro brasileiro e aos investidores. Outras áreas, como bets, as fintechs, isso está na mesa para ser discutido com razoabilidade. Mas o pacote inteiro, com toda a sinceridade, eu acredito que não vai ser aprovado.
Decreto presidencial
A MP foi apresentada como solução alternativa ao aumento do IOF, medidas que haviam sido discutidas no domingo (8) pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, após reações contrárias do Congresso ao decreto.
Ainda na edição extra do Diário Oficial da União de quarta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou um novo decreto para recalibrar as alíquotas do IOF. A cota fixa aplicável ao crédito à pessoa jurídica cai de 0,95% para 0,38% e o IOF sobre a operação de crédito, conhecida como risco sacado, não tem mais alíquota fixa, apenas a diária, de 0,0082%.
No entanto, mesmo com essas alternativas apresentadas pelo governo, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, informou nesta quinta-feira que vai pautar o regime de urgência para apreciação do projeto que derruba o decreto de reajuste do IOF.
Ao ser questionado sobre isso, Randolfe disse que o governo entende a posição adotada por “parte da Câmara”, mas que vai buscar votos para a manutenção dos termos do decreto.
— O governo foi totalmente sensível a todas as argumentações do Congresso, sobretudo da Câmara dos Deputados, em relação ao decreto do IOF. É por conta disso que o decreto foi reeditado. Do decreto original, que se criou controvérsia, não resta nem 20% do texto primeiro. O que remanesceu no texto, é algo que se reporta, única e exclusivamente, a operações do mercado financeiro que representa 2%, 3% das mobilizações que têm em relação a isso.
Randolfe ainda alertou para o risco de novos contigenciamentos e bloqueios ao Orçamento, caso o Congresso não mantenha o decreto presidencial, não vote a medida provisória e não apresente ações efetivas para o ajuste das contas públicas.
— No curso dessa peça orçamentária tivemos um contigenciamento. Que, se não for aprovada essa medida provisória, se for derrubado o decreto relativo ao IOF, um contigenciamento e um bloqueio que vai ser ampliado, inclusive sobre as emendas. Nós temos um contigenciamento de bloqueio hoje de R$ 20 bilhões e R$ 10 bilhões. Sem essa medida provisória e sem o decreto do IOF, o contigenciamento e o bloqueio vão para R$ 60 bilhões, R$ 70 bilhões, R$ 80 bilhões e, obviamente, atingirão, também, as emendas parlamentares.
Recomposição da Câmara
Ainda como deliberação da reunião de líderes, os senadores decidiram assinar a urgência para votação do projeto que amplia o número de cadeiras na Câmara dos Deputados (PLP 177/2023).
A urgência vem, segundo os senadores, em atenção a um pedido do presidente da Câmara, Hugo Motta. De acordo com Randolfe, o Senado deve votar a urgência e a proposta na sessão de quarta-feira (18).
— Há um pedido da Câmara dos Deputados para a votação do PL para a nova composição do número de deputados, o presidente Davi disse que vai encaminhar para ser pautada, até para atender essa solicitação que foi feita pela Câmara. O pedido de urgência deve está sendo assinado e deverá ser votado na primeira sessão do Senado da próxima semana, que deve ocorrer na quarta-feira da próxima semana.
O projeto aumenta o número de deputados para garantir a proporcionalidade populacional dos estados. Com a atualização, a composição da Câmara passa de 513 para 531 membros, a partir da eleição de 2026.
Sessão do Congresso
Ainda conforme os líderes, uma sessão do Congresso Nacional está confirmada para a próxima terça-feira (17). Na pauta, a análise de cerca de 60 vetos presidenciais e a à leitura do requerimento que pede a criação da CPMI do INSS.
Os senadores informaram que, até o momento, não houve reunião para buscar acordo em relação aos vetos que podem ser derrubados ou mantidos. No entanto, Raldolfe aposta nesse consenso.
— Eu creio que vamos chegar a um grande acordo em relação a apreciação dos vetos para a sessão de terça.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Comissão aprova proibição de leilão e penhora de espaços culturais tombados
A Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 66/2026, do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), que proíbe a penhora, o leilão e outras formas de expropriação de imóveis indispensáveis à preservação de bens tombados ou de patrimônios culturais imateriais reconhecidos pelo poder público.
A vedação vale sempre que o ato puder:
- comprometer a continuidade, a integridade ou a autenticidade do bem cultural;
- alterar o uso do espaço de forma incompatível com sua função cultural; e
- descaracterizar social, simbólica, econômica ou funcionalmente a prática protegida.
A regra vale para execuções fiscais, trabalhistas, cíveis ou administrativas, contra entes públicos ou privados. O projeto busca proteger o chamado “espaço cultural essencial”, o imóvel público ou privado com função indispensável para a manutenção desses bens tombados.
Se já houver processo judicial ou administrativo de penhora ou leilão sobre um desses bens, o juiz ou a autoridade competente é obrigado a suspender a ação de forma imediata.
A medida pode ser determinada de ofício ou a pedido do Ministério Público, do órgão de proteção ao patrimônio cultural ou de entidade representativa da comunidade envolvida.
A suspensão não impede a apuração da dívida. O projeto determina que sejam priorizadas soluções alternativas, como negociação, parcelamento ou compensação. Qualquer decisão que afaste a suspensão deverá ser expressamente fundamentada, sob pena de nulidade.
Exceções
O projeto admite exceções à proibição, porém somente se forem cumpridos cumulativamente os seguintes requisitos:
- parecer técnico favorável do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ou de órgão cultural competente;
- estudo de impacto cultural, social e econômico, com participação da comunidade;
- autorização expressa do Poder Legislativo correspondente — Congresso Nacional, Assembleia Legislativa, Câmara Legislativa ou Câmara Municipal —, conforme o nível de reconhecimento do bem.
O estudo de impacto cultural deverá avaliar a historicidade da prática, os vínculos sociais e identitários com o espaço, a possibilidade real de continuidade em outro local e os impactos sobre trabalho e renda. A ausência de qualquer requisito torna o ato nulo.
Alternativas à expropriação
O poder público deverá priorizar saídas que preservem o espaço cultural, como a renegociação de dívidas, a transferência da gestão do imóvel para associações ou cooperativas da comunidade e a celebração de convênios ou parcerias voltadas à sustentabilidade do bem protegido.
Lindbergh Farias citou a ameaça de leilão do imóvel da Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro — sede do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, reconhecido por lei federal como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil —, como exemplo do problema que o projeto busca resolver.

Para a relatora, deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP) o projeto assegura, na prática, a continuidade das manifestações culturais. “A eventual alienação ou descaracterização desses espaços não representa apenas uma mudança de titularidade patrimonial, mas pode implicar a ruptura de vínculos históricos, sociais e simbólicos que sustentam determinadas práticas culturais”, disse.
Sâmia Bomfim afirmou que as alternativas propostas pelo projeto, como a renegociação de dívidas, a gestão compartilhada e a celebração de parcerias, oferecem uma perspectiva equilibrada entre a proteção do patrimônio cultural e a viabilidade econômica dos espaços envolvidos, buscando o diálogo e o consenso.
Próximos passos
A proposta ainda será analisada, em caráter conclusivo, pelas comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado.
Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Roberto Seabra
Fonte: Câmara dos Deputados
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