POLÍTICA NACIONAL
Articulação é fundamental para garantir alfabetização, opinam debatedores
Dirigentes do setor educacional defenderam as políticas públicas de alfabetização durante audiência pública promovida nesta quarta-feira (9) pela Comissão de Educação (CE) do Senado. Os debatedores convidados apontaram a importância da articulação entre União, estados e municípios para garantir que mais crianças sejam alfabetizadas, mas também cobraram mais recursos financeiros e esforços na formação de professores.
A audiência aconteceu a pedido da senadora Augusta Brito (PT-CE), que conduziu o debate. Essas discussões fazem parte da avaliação da política Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, que foi lançada em 2023 com o objetivo de para garantir que todos os alunos sejam alfabetizados até o segundo ano do ensino fundamental. A avaliação dessa política é um dos objetivos da Comissão de Educação nesta sessão legislativa.
Desafios
Representante da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação, João Paulo Mendes de Lima avaliou que a política Compromisso Nacional Criança Alfabetizada ainda enfrenta desafios. Ele elogiou essa política como forma de buscar uma “trajetória exitosa e regular de escolarização” mediante colaboração da União com os entes federados e o estabelecimento de um parâmetro único para aferição de alfabetização.
— Quando a gente tem um marcador claro, técnico, a gente consegue identificar quais as crianças que não estão tendo acesso a esse direito e quais medidas cada um dos entes federados pode implementar.
Marcia Baldini, vice-presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação do Paraná (Undime-PR), concordou com a necessidade de coordenação entre União, estados e municípios para que em 2032 seja atingida a meta de 80% de crianças alfabetizadas. Ela cobrou foco na alfabetização como política de Estado dentro do Plano Nacional de Educação.
— [É preciso] pensar na continuidade desse programa, pois o Brasil vem tendo várias interrupções nas políticas de alfabetização. (…) Cada vez que se troca o governo, troca-se a política.
Nesse contexto, a senadora Augusta Brito ressaltou que políticas inovadoras de educação não servem se não houver alfabetização na idade apropriada para isso.
— Tem de ser feito o básico para a gente poder colher os frutos da educação sustentável. Que todos consigam aprender na sua base, que é alfabetizar — defendeu ela.
Disparidades
A implementação da política Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, no que se refere a seus aspectos pedagógicos e administrativos, é um desafio diário, declarou Sandra Casimiro, vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e secretária de Educação do Amapá. Entre outros pontos, ela apontou a necessidade de formação de profissionais de alfabetização e lembrou as grandes disparidades no acesso à educação, principalmente na região amazônica.
— Pensar uma política de alfabetização exige pensar uma logística diferenciada para cada região, exige pensar a instituição de fóruns de acompanhamento, (…) pensar a alfabetização naquele território.
Representante da Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena (CNEEI), Andrea Cristina Almeida salientou a necessidade de assegurar o direito das crianças indígenas à alfabetização em suas línguas maternas. Segundo ela, nunca houve a implementação de uma política nesse sentido.
— Os resultados das escolas indígenas, em termos de alfabetização, sempre estão abaixo dos resultados de outras escolas. (…) Na governança desse programa, é preciso pensar nessa perspectiva.
Para Andrea, o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada constitui um avanço por vincular a política nacional ao programa Saberes Indígenas na Escola, destinado a promover a valorização dos conhecimentos tradicionais no currículo escolar. Ela, porém, considera que o esforço é prejudicado por falta de material didático em línguas indígenas e limitações na capacitação de professores.
Articuladores
Pollyana Cardoso Neves Lopes, representante da Rede Nacional de Articulação de Gestão, Formação e Mobilização do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (Renalfa), destacou os mecanismos de atuação dos articuladores — que, segundo ela, estão presentes em todos os municípios, recebem bolsas e passam por formação contínua.
— Essa rede (…) contribui muito para termos esse resultado de 27 políticas territoriais [de alfabetização].
Renan Ferreirinha, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação das Capitais (Consec), disse que a prioridade à alfabetização, partilhada entre os entes federados, é uma conquista institucional com “saldo extremamente positivo”. Ele pontuou que, sem alfabetização adequada, o aluno acumulará fragilidades que terão custo elevado no transcurso do processo educativo.
— Temos desafios que, infelizmente, não são reversíveis quando não se tem a real ação de uma boa alfabetização na idade certa — alertou.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Comissão aprova proibição de leilão e penhora de espaços culturais tombados
A Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 66/2026, do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), que proíbe a penhora, o leilão e outras formas de expropriação de imóveis indispensáveis à preservação de bens tombados ou de patrimônios culturais imateriais reconhecidos pelo poder público.
A vedação vale sempre que o ato puder:
- comprometer a continuidade, a integridade ou a autenticidade do bem cultural;
- alterar o uso do espaço de forma incompatível com sua função cultural; e
- descaracterizar social, simbólica, econômica ou funcionalmente a prática protegida.
A regra vale para execuções fiscais, trabalhistas, cíveis ou administrativas, contra entes públicos ou privados. O projeto busca proteger o chamado “espaço cultural essencial”, o imóvel público ou privado com função indispensável para a manutenção desses bens tombados.
Se já houver processo judicial ou administrativo de penhora ou leilão sobre um desses bens, o juiz ou a autoridade competente é obrigado a suspender a ação de forma imediata.
A medida pode ser determinada de ofício ou a pedido do Ministério Público, do órgão de proteção ao patrimônio cultural ou de entidade representativa da comunidade envolvida.
A suspensão não impede a apuração da dívida. O projeto determina que sejam priorizadas soluções alternativas, como negociação, parcelamento ou compensação. Qualquer decisão que afaste a suspensão deverá ser expressamente fundamentada, sob pena de nulidade.
Exceções
O projeto admite exceções à proibição, porém somente se forem cumpridos cumulativamente os seguintes requisitos:
- parecer técnico favorável do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ou de órgão cultural competente;
- estudo de impacto cultural, social e econômico, com participação da comunidade;
- autorização expressa do Poder Legislativo correspondente — Congresso Nacional, Assembleia Legislativa, Câmara Legislativa ou Câmara Municipal —, conforme o nível de reconhecimento do bem.
O estudo de impacto cultural deverá avaliar a historicidade da prática, os vínculos sociais e identitários com o espaço, a possibilidade real de continuidade em outro local e os impactos sobre trabalho e renda. A ausência de qualquer requisito torna o ato nulo.
Alternativas à expropriação
O poder público deverá priorizar saídas que preservem o espaço cultural, como a renegociação de dívidas, a transferência da gestão do imóvel para associações ou cooperativas da comunidade e a celebração de convênios ou parcerias voltadas à sustentabilidade do bem protegido.
Lindbergh Farias citou a ameaça de leilão do imóvel da Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro — sede do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, reconhecido por lei federal como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil —, como exemplo do problema que o projeto busca resolver.

Para a relatora, deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP) o projeto assegura, na prática, a continuidade das manifestações culturais. “A eventual alienação ou descaracterização desses espaços não representa apenas uma mudança de titularidade patrimonial, mas pode implicar a ruptura de vínculos históricos, sociais e simbólicos que sustentam determinadas práticas culturais”, disse.
Sâmia Bomfim afirmou que as alternativas propostas pelo projeto, como a renegociação de dívidas, a gestão compartilhada e a celebração de parcerias, oferecem uma perspectiva equilibrada entre a proteção do patrimônio cultural e a viabilidade econômica dos espaços envolvidos, buscando o diálogo e o consenso.
Próximos passos
A proposta ainda será analisada, em caráter conclusivo, pelas comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado.
Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Roberto Seabra
Fonte: Câmara dos Deputados
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