OPINIÃO

Educação Profissional Ensino Médio: oportunidade histórica ou improviso nacional?

A proposta do Novo Ensino Médio trouxe uma promessa ambiciosa: aproximar a escola da realidade dos jovens e do mercado de trabalho. Dentro desse novo modelo, a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) passou a ocupar papel estratégico, deixando de ser apenas alternativa secundária para se tornar uma das principais apostas do sistema educacional brasileiro.

Na teoria, a ideia é moderna e necessária. O aluno deixa de receber apenas conteúdos tradicionais e passa a ter acesso à formação técnica, desenvolvimento de competências práticas e preparação para o mundo profissional ainda durante o ensino médio. É a tentativa de conectar educação, renda, empregabilidade e desenvolvimento regional.

O problema é que grande parte do país ainda não conseguiu transformar essa proposta em realidade.

Muitos estados e municípios enfrentam dificuldades estruturais, ausência de laboratórios, falta de professores técnicos, baixa conectividade e pouca integração entre escola e setor produtivo. Em diversos casos, o Novo Ensino Médio chegou antes da preparação das próprias redes de ensino.

Por outro lado, alguns estados começaram a mostrar que a educação profissional pode, sim, transformar realidades sociais e econômicas quando existe planejamento, investimento e continuidade administrativa.

O Ceará tornou-se referência nacional ao integrar ensino médio e educação profissional em escolas técnicas estaduais, com forte articulação entre formação acadêmica, tecnologia e mercado de trabalho. O modelo cearense conseguiu ampliar indicadores educacionais, empregabilidade juvenil e desempenho escolar, tornando-se exemplo para o restante do país.

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Outro caso importante é Mato Grosso do Sul, que nos últimos anos passou a investir fortemente na expansão da Educação Profissional e Tecnológica, principalmente por meio da interiorização do ensino técnico, ampliação de parcerias institucionais e fortalecimento dos itinerários formativos voltados à empregabilidade regional. O estado compreendeu que a formação técnica deixou de ser apenas política educacional e passou a ser também estratégia de desenvolvimento econômico.

Em Mato Grosso, o avanço da EPT também vem sendo debatido e estruturado pelo Conselho Estadual de Educação, que, sob a presidência de Gelson Menegatti, passou a discutir e implementar ações, resoluções e diretrizes voltadas à organização, regulamentação e fortalecimento da Educação Profissional e Tecnológica no Estado. A iniciativa busca disciplinar a expansão da modalidade, garantir maior segurança regulatória e estimular o crescimento responsável da educação técnica alinhada às necessidades do mercado e das regiões mato-grossenses.

Enquanto alguns estados avançam, milhares de jovens brasileiros ainda saem da escola sem profissão, sem perspectiva e sem preparo técnico mínimo para competir no mercado atual.

A educação profissional não pode ser tratada como simples complemento curricular. Ela precisa ser vista como política pública de desenvolvimento econômico e social. Países que cresceram de forma estruturada investiram fortemente em ensino técnico, inovação e formação profissional desde cedo.

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No Brasil, ainda existe um preconceito histórico que valoriza apenas a graduação tradicional, enquanto cursos técnicos seguem sendo subestimados, mesmo apresentando alta empregabilidade em diversas áreas.

O Novo Ensino Médio pode representar uma virada histórica para o país, principalmente nos estados do interior, onde muitas vezes a educação técnica é a principal porta de acesso ao emprego e à ascensão social.

Mas para isso, será necessário mais do que discursos e mudanças legislativas. Será preciso investimento real, planejamento, formação continuada de professores, infraestrutura adequada e conexão direta com as demandas econômicas regionais.

A educação brasileira mudou. O mercado mudou. O aluno mudou.
Agora resta saber se o sistema público conseguirá mudar também.

Alex Vieira Passos , Conselheiro de Estado, advogado e empresário da educação.

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ARTIGOS

Alerta no agro: Erros na renegociação do crédito rural colocam patrimônio de produtores em risco

Por  Fabiola Sampaio

Entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, primeiros oito meses do Plano Safra 2025/2026, o crédito rural empresarial registra R$ 354,4 bilhões contratados. O valor representa alta de 7% na comparação com o mesmo período da safra anterior, segundo dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com base em informações do Banco Central. O avanço confirma a relevância do financiamento agrícola para sustentar a produção nacional. Ao mesmo tempo, expõe um problema que ainda recebe pouca atenção: a falta de preparo técnico de produtores rurais diante da necessidade de renegociar operações de crédito após perdas na atividade.

A renegociação do crédito rural não é um benefício automático concedido ao produtor que enfrenta dificuldades financeiras. Trata-se de um procedimento técnico, condicionado ao cumprimento de regras previstas no Manual de Crédito Rural. Em muitos casos, produtores afetados por eventos climáticos, aumento de custos ou queda de produtividade até possuem direito à renegociação, mas acabam tendo pedidos negados por falhas na documentação apresentada.

Esse cenário revela um problema recorrente no agronegócio brasileiro. Parte dos produtores ainda enxerga a renegociação apenas como um requerimento administrativo simples, quando, na prática, ela depende de comprovação detalhada dos prejuízos sofridos. O Manual de Crédito Rural exige laudos técnicos capazes de demonstrar as razões da quebra de safra, os impactos financeiros e a relação direta entre os fatores enfrentados e a incapacidade momentânea de pagamento. Sem isso, a negativa tende a ser imediata.

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O problema ganha proporções maiores porque a rejeição do pedido não afeta apenas a dívida atual. Em muitos casos, o produtor perde acesso ao financiamento da safra seguinte. Como boa parte da atividade agrícola depende diretamente do crédito rural para custear produção, compra de insumos e manutenção da operação, o bloqueio do financiamento público pode desencadear uma sequência de dificuldades financeiras.

Quando o crédito oficial deixa de estar disponível, muitos produtores acabam recorrendo a alternativas mais caras. Entram em cena linhas privadas com juros mais elevados, exigências maiores de garantias e menor margem de negociação. Em situações mais delicadas, o produtor precisa vender patrimônio, comprometer reservas financeiras ou ampliar o endividamento para manter a atividade funcionando.

Esse contexto demonstra que o planejamento jurídico e financeiro deixou de ser apenas uma estratégia recomendável e passou a ser uma necessidade operacional no agronegócio. O acompanhamento técnico desde o início do plantio permite identificar riscos com antecedência e organizar documentos conforme as exigências do Manual de Crédito Rural. A atuação conjunta entre advogados, consultores financeiros e profissionais técnicos pode evitar erros que comprometem a renegociação futura.

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Outro ponto relevante envolve os prazos previstos pelas normas do crédito rural. Muitos produtores deixam para buscar orientação apenas quando a situação financeira já está agravada. O problema é que determinadas falhas não podem mais ser corrigidas após o encerramento dos prazos administrativos. Nesses casos, a negativa da renegociação produz reflexos que podem atingir não apenas a produção seguinte, mas também o patrimônio do produtor rural.

Além das questões financeiras e documentais, novas exigências regulatórias ampliam o nível de atenção necessário para acessar o crédito rural. A Resolução 5303 do Conselho Monetário Nacional, publicada em maio de 2026, reforça a necessidade de regularização ambiental, fundiária e societária das propriedades. O acesso ao financiamento deixa de depender exclusivamente da capacidade produtiva e passa a considerar também critérios ligados aos chamados impedimentos sociais, ambientais e climáticos.

O agronegócio brasileiro convive com riscos que vão muito além das oscilações do mercado. Eventos climáticos extremos, aumento dos custos de produção e mudanças regulatórias tornam a atividade cada vez mais complexa. Nesse cenário, tratar a renegociação do crédito rural como uma simples formalidade pode representar um erro com consequências graves. Informação técnica, planejamento e cumprimento rigoroso das normas passam a ser fatores decisivos para garantir a continuidade da produção no campo.

Fabiola Sampaio é advogada empresarial e mediadora do agro.

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