AGRONEGÓCIO
Plano Clima tira desmatamento da conta do agro e estabelece metas mais realistas até 2035
O Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM), em reunião realizada nesta segunda-feira (15.12), aprovou o Plano Clima de Adaptação e o Plano Clima de Mitigação, marcando uma virada na relação entre política climática e agronegócio no Brasil. Pela primeira vez, o país define, em ato formal, um teto para as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2030 – 1,2 bilhão de toneladas de carbono equivalente – e detalha metas por setor, incluindo agricultura, pecuária e mudança de uso da terra. Depois de meses de embate, o desenho final reduziu a pressão direta sobre o agro, ao separar as emissões próprias da atividade rural daquelas associadas a desmatamento em áreas públicas e territórios coletivos.
Na versão submetida à consulta pública, o Plano Setorial de Mitigação (PSM) da Agricultura e Pecuária atribuía ao campo cerca de 1,39 bilhão de toneladas de emissões, somando manejo de solo, fermentação entérica e boa parte da supressão de vegetação nativa em imóveis rurais, assentamentos, unidades de conservação e florestas públicas. Com isso, o agro aparecia como “responsável” por mais de 800 milhões de toneladas ligadas a desmatamento, além das emissões da produção em si, e enfrentava a exigência de cortes entre 50% e 54% até 2035 – uma meta considerada desproporcional em comparação a outros segmentos, como energia e indústria. Entidades do setor reagiram, apontando risco de estigmatização e perda de competitividade em mercados que acompanham com lupa a imagem do produtor brasileiro.
O texto aprovado nesta segunda-feira dividiu esse bloco em três PSMs distintos: Agricultura e Pecuária; Mudança do Uso da Terra em Áreas Rurais Privadas; e Mudança do Uso da Terra em Áreas Públicas e Territórios Coletivos. No plano do agro, ficam apenas as emissões diretamente ligadas à atividade (rebanho, solo, insumos, combustível), enquanto as supressões de vegetação em propriedades privadas passam a ser tratadas em um plano específico de uso da terra, e as derrubadas em terras públicas, assentamentos, unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas vão para um terceiro plano. Na prática, isso tira do colo do produtor parte das emissões que estão fora de seu controle direto e responde a uma demanda antiga do setor.
Pelas novas metas, o PSM da Agricultura e Pecuária permite, em 2030, até um leve aumento de 1% nas emissões, chegando a 649 milhões de toneladas de CO2 equivalente, e estabelece para 2035 uma faixa entre redução de 7% (599 milhões de toneladas) e aumento de 2% (653 milhões de toneladas), a depender do cenário. Já o plano de Mudança do Uso da Terra em Áreas Rurais Privadas prevê corte de 70% nas emissões até 2030, de 352 para 106 milhões de toneladas, com foco em conter novas supressões e fortalecer recuperação de áreas degradadas. No plano de áreas públicas e territórios coletivos, a meta é ainda mais ambiciosa: redução de 140% até 2030, o que significa zerar as emissões líquidas e gerar remoções adicionais de carbono por meio de restauração e recomposição de vegetação nativa.
Segundo o Ministério da Agricultura, o PSM da Agricultura e Pecuária foi o mais “disputado” na consulta pública, recebendo 443 contribuições, ajustes técnicos e questionamentos ao longo de 2024 e 2025. A negociação final ocorreu no âmbito do Subcomitê Executivo (Subex) do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima, que fechou o texto levado à reunião ministerial desta segunda. A expectativa é de que a resolução do Plano Clima seja publicada no Diário Oficial da União já nesta terça-feira, com os documentos completos disponíveis no site oficial, abrindo a etapa de implementação e monitoramento.
BOA AVALIAÇÃO – Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Confederação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), avalia que o desenho final do Plano Clima é “bem diferente do que se viu na largada” e que o agro conseguiu transformar um texto que soava punitivo em uma agenda mais equilibrada.
Para ele, o ponto central foi separar o que é responsabilidade direta do produtor – emissões do rebanho, do solo, da adubação, do uso de máquinas – do que está ligado a falhas de comando e controle em terras públicas e áreas onde o próprio Estado é o gestor. “Quando se jogava todo o desmatamento na conta da agropecuária, se distorcia a fotografia do campo e se passava para o mundo a ideia de que o produtor regular era o grande vilão climático, o que não corresponde à realidade brasileira”, afirma.
Rezende destaca que a divisão em três planos setoriais também ajuda a clarear onde estão os problemas e quem tem a chave para resolvê-los. “Ao criar um plano próprio para uso da terra em áreas privadas e outro para áreas públicas e territórios coletivos, o governo reconhece que há responsabilidades diferentes e instrumentos diferentes. No imóvel rural, a agenda passa por Código Florestal, Cadastro Ambiental Rural, recuperação de pastagens degradadas e integração lavoura-pecuária-floresta. Já em terras públicas e unidades de conservação, o eixo é policiamento, fiscalização e presença do Estado. Misturar tudo isso numa conta só era ruim para o diagnóstico e para a imagem do agro”, analisa.
Na visão do dirigente, as novas metas para agricultura e pecuária “continuam desafiadoras, mas saíram do campo da inviabilidade”. Ele lembra que a primeira proposta falava em cortes de até 54% nas emissões do setor em pouco mais de uma década, o que exigiria uma mudança brusca na forma de produzir, sem que houvesse clareza sobre fontes de financiamento, crédito de carbono ou pagamento por serviços ambientais. “Com o ajuste, o agro ganha uma trajetória mais realista: a mensagem é de que o setor pode crescer, pode aumentar a produção e ainda assim reduzir intensidade de emissões com tecnologia, genética, manejo de solo e recuperação de áreas. Isso é muito diferente de desenhar um plano em que o campo cresce e vira automaticamente o ‘problema climático do Brasil’”, pontua.
Rezende ressalta que o Plano Clima, na versão aprovada, abre uma janela estratégica para o agronegócio se reposicionar no debate internacional. “O agro brasileiro já vinha sendo pressionado por narrativas de desmatamento e emissões, muitas vezes sem diferenciação entre quem está na legalidade e quem não está. Ao corrigir a forma como as emissões são alocadas e ao vincular metas a programas como o Plano ABC+ e à regularização ambiental, o país passa a ter argumento técnico para mostrar que a agricultura pode ser parte da solução climática, não só do problema”, diz. Para ele, o próximo passo é transformar metas em instrumentos concretos: ampliação de crédito para práticas de baixa emissão, remuneração de quem conserva e simplificação de acesso a programas de regularização para médios e pequenos produtores.
Por fim, o presidente do IA e da Feagro-MT alerta que o Plano Clima não pode ficar restrito a Brasília ou às negociações em conferências da ONU. “Se o documento virar apenas um anexo de decreto, não muda a vida de ninguém no campo. O que vai fazer diferença é como isso chega na ponta: se o produtor que recupera pastagem, adota ILPF ou planta floresta comercial terá acesso mais barato a crédito, seguro, mercado de carbono, ou se tudo vai se resumir a relatório e papelada”, afirma.
Rezende defende que entidades, cooperativas e federações do agro participem ativamente da implementação, ajudando a traduzir metas em projetos, indicadores e oportunidades de negócio. “Se o Plano Clima for usado para punir, perde o sentido. Se for usado para premiar quem produz com eficiência e respeita a lei, pode virar um ativo de competitividade para o agro brasileiro”, conclui.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Brasil pode multiplicar área irrigada, mas água e energia limitam avanço
O Brasil possui aproximadamente 10 milhões de hectares equipados para irrigação, mas poderia incorporar mais de 55 milhões de hectares à tecnologia, segundo estimativas oficiais. A expansão permitiria aumentar a produção dentro de áreas já ocupadas e reduzir perdas provocadas por estiagens, mas depende de investimentos em reservatórios, energia elétrica, licenciamento e gestão dos recursos hídricos.
Os números variam conforme a metodologia. O Portal da Irrigação, do governo federal, trabalha com cerca de 10 milhões de hectares equipados. Já o Atlas Irrigação, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), contabiliza 8,2 milhões de hectares irrigados e fertirrigados em sua base nacional mais abrangente.
O mesmo levantamento identifica potencial adicional de 55,85 milhões de hectares. Desse total, 26,69 milhões estão sobre áreas agrícolas de sequeiro, que dependem das chuvas, e outros 26,73 milhões sobre pastagens. A estimativa exclui áreas ambientalmente protegidas, mas representa uma possibilidade física, não uma expansão que possa ocorrer imediatamente.
Uma parcela entre 6 milhões e 8 milhões de hectares apresenta condições mais favoráveis para incorporação em prazo menor. Ainda assim, seriam necessários investimentos elevados na aquisição de equipamentos, ampliação das redes elétricas e construção de estruturas de captação, armazenamento e distribuição de água.
O avanço dos pivôs centrais mostra que o produtor já procura reduzir a dependência das chuvas. Levantamento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) identificou 33.846 pivôs em funcionamento em 2024, responsáveis pela irrigação de 2,2 milhões de hectares.
A tecnologia permite fornecer água em momentos decisivos, como germinação, floração e enchimento de grãos. No milho, a falta de umidade nessas fases pode provocar perdas mesmo quando o volume total de chuva da temporada fica próximo da média.
A irrigação também aumenta a previsibilidade para cooperativas, fábricas de ração, usinas de etanol e outras indústrias que dependem do fornecimento regular de grãos. Com menor oscilação na produção, a cadeia consegue organizar melhor compras, estoques e processamento.
Estudos realizados em regiões de agricultura irrigada encontraram indicadores econômicos superiores aos observados em municípios sem a mesma estrutura. As áreas analisadas, embora representassem cerca de 8% do espaço agrícola considerado, concentravam 704 mil hectares irrigados por pivôs e respondiam por aproximadamente 15% das exportações do agronegócio.
Uma simulação com a incorporação de 1.500 hectares irrigados apontou aumento inicial de R$ 8,27 milhões no valor adicionado pela agropecuária. Em uma segunda etapa, após os efeitos sobre fornecedores, serviços e empregos, o acréscimo poderia superar R$ 13 milhões.
Essas comparações, entretanto, não significam que a irrigação seja a única responsável pelo desempenho econômico. Municípios irrigantes também costumam concentrar propriedades tecnificadas, agroindústrias, crédito, armazenagem e melhor infraestrutura.
O principal limite é a disponibilidade de água em cada bacia. A ANA calcula que a irrigação responde por 46% de toda a água retirada de rios, reservatórios e aquíferos no Brasil e por 67% do consumo, parcela que não retorna imediatamente aos mananciais.
Por isso, o potencial nacional não pode ser interpretado como autorização para irrigar qualquer área. Cada projeto depende da disponibilidade local, dos demais usos da água e da obtenção de outorga, documento que estabelece quanto poderá ser captado, por quanto tempo e em quais condições.
A construção de reservatórios pode guardar água durante o período chuvoso para utilização em momentos críticos. Esses projetos, porém, também precisam respeitar regras ambientais, segurança das barragens e limites de captação para não prejudicar o abastecimento das cidades, a indústria e outros produtores.
A energia elétrica é outro obstáculo. Sistemas de irrigação demandam potência elevada e funcionamento regular, mas parte das regiões com maior potencial agrícola ainda não dispõe de redes trifásicas ou capacidade suficiente para atender novos equipamentos. O custo da energia também interfere diretamente na viabilidade do investimento.
A expansão sustentável exige ainda sensores de umidade, acompanhamento meteorológico e equipamentos capazes de aplicar somente o volume necessário. Irrigar sem monitoramento pode desperdiçar água, elevar custos e provocar erosão, encharcamento ou perda de nutrientes.
Diante da maior frequência de veranicos e estiagens em períodos críticos, a irrigação tende a ganhar importância na agricultura brasileira. O avanço, contudo, dependerá menos da simples compra de pivôs e mais de planejamento por bacia, segurança jurídica, energia disponível e infraestrutura para armazenar água sem comprometer os demais usuários.
Fonte: Pensar Agro
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