AGRONEGÓCIO

Como evitar a crise da falta de adubos e o aumento dos custos

No final de março este site publicou matéria sobre as perspectivas do abastecimento de fertilizantes e a escalada dos preços. Passados dois meses desde o início da guerra entre Ucrânia e Rússia – que gerou previsões negativas quanto ao fornecimento dos insumos – o transporte de adubo russo para o Brasil continua, apesar de em quantidade menor. As sanções econômicas de países do Ocidente contra a Rússia não coibiram a importação de fertilizantes, apesar de a logística e as formas de pagamento terem ficado bastante comprometidas, o que gerou uma expectativa ruim quanto à disponibilidade do produto. Não se sabe até quando esses carregamentos continuarão seguindo a normalidade, e há que se considerar ainda as demandas para a safra de verão 2022/2023 – essa, sim, poderá ser muito prejudicada caso a guerra continue por muito mais tempo.

Em meio a esse cenário de incertezas, há uma busca por alternativas aos adubos convencionais. Usinas de cana, por exemplo, estão usando vinhaça (resíduos da destilação do etanol) e cinzas que sobram da queima do bagaço. Opções como essas já estavam no radar dos produtores agrícolas antes mesmo da guerra, uma vez que a forte alta dos preços de insumos – especialmente de fertilizantes – já vêm ocorrendo há pelo menos dois anos. A falta de nitrato de amônio pode ser compensada por ureia, mas para o potássio não há possibilidade para substituição, por isso é necessária uma forte racionalização do uso desse insumo nas plantações. Outras opções que passaram a ser testadas incluem esterco de bovinos, aves e suínos, que também ficaram mais caros devido ao aumento da demanda. Ou seja, com uma crise sem previsão de término, os agricultores estão em busca de todas as soluções disponíveis.

Preços cada vez mais altos

O encarecimento e a ameaça do corte de fornecimento provocaram um forte impacto. É o que explica Marcelo Sambiase, instrutor dos cursos de agricultura orgânica do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de São Paulo (SENAR-SP). “O adubo, que custava R$ 1.500,00 a tonelada no início de 2020, ainda antes da pandemia de Covid-19, hoje está custando R$ 6 mil. O grande produtor consegue ainda preços mais em conta porque adquire grandes volumes. Mas o pequeno chega a pagar R$ 7 mil por tonelada porque ele não consegue fazer uma compra antecipada ou em grande volume. Outro problema grave é que quando há a falta de adubo, o agricultor de maior porte já tem um bom volume em estoque, mas o pequeno não tem”, explica. Segundo Sambiase, esse contexto ainda não teve reflexos na queda da produção, mas ele está preocupado com a próxima safra, porque com o custo atual está inviável plantar.

A tendência de alta nos preços já havia provocado uma movimentação dos produtores para o estudo de outras tecnologias já prevendo que essa situação não iria se reverter. Agora essas pesquisas foram aceleradas e passaram a ser implementadas. O instrutor do SENAR-SP avalia que está se formando no Brasil uma força tarefa entre diversos órgãos de pesquisa – Embrapa, universidades e outras instituições públicas e privadas – para se viabilizar alternativas aos fertilizantes. Mas ainda não está claro qual o caminho ideal. “Estamos vivendo um momento de incertezas”, alerta o instrutor.

Um setor que ficou protegido nesse contexto é o de orgânicos, que não depende dos adubos químicos por causa das características inerentes à sua produção. Diferente da agricultura convencional, a orgânica utiliza técnicas naturais de fertilização do solo, sendo possível manter praticamente a mesma produtividade. Muito do conhecimento e dos métodos empregadas nas lavouras orgânicas podem ser aplicados nas convencionais. Porém, isso não acontece a curto prazo. Os adubos químicos, quando diluídos em água, são assimilados quase que instantaneamente nas plantações convencionais. Nas plantações orgânicas são utilizados vegetais que enriquecem a terra com nitrogênio para a fertilização de uma plantação, mas isso leva um período de 90 dias para acontecer, o que requer um planejamento e uma organização antecipada para se obter os resultados.

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Adubos orgânicos e organominerais, inoculantes, biofertilizantes e corretivos agrícolas de origem orgânica têm a importação proibida, o que promoveu o desenvolvimento nacional dessas técnicas, sem a dependência de insumos importados. Assim, os preços não são determinados pelo mercado internacional. Os produtos biológicos usados na adubação são promotores de crescimento, microorganismos que se associam a uma planta e potencializam a nutrição do solo. Já existem hoje microorganismos que fazem a solubilização do fósforo diretamente para a planta, reduzindo em até 80% a dependência do adubo solúvel. No caso da soja, existem as micorrizas – fungos que beneficiam o crescimento das plantas por meio da absorção de nutrientes do solo, aumentando também a resistência a doenças –, que chegam a reduzir em até 100% a necessidade de uso do adubo nitrogenado. O trabalho com essas práticas diferentes das lavouras convencionais – adubação verde, produtos biológicos e outras – é um caminho para o agricultor reduzir a dependência dos químicos.

Outro método é a rochagem, que busca recuperar a fertilidade pela utilização de misturas de rochas moídas (pó de rocha). Mas não é qualquer pó de rocha que pode ser usado; é preciso que ele esteja registrado no Ministério da Agricultura e ofereça garantias mínimas quanto à eficiência. A rocha precisa estar numa determinada granulometria, adequada para a fertilização do solo. Esse pode ser um importante caminho para auxiliar na busca por um substituto dos químicos em grande escala, já que toda pedreira tem um pó de rocha com potencial para ser usado em plantações.

Pó de rocha, adubação verde, fertilização biológica: são caminhos para diminuir a dependência do fertilizante químico. Sambiase acredita que esse conjunto de ações pode levar os produtores a reduzir e até libertar o agricultor da necessidade do uso de adubos convencionais. Mas são processos que demoram para ser implementados. “Sabemos como fazer. Mas para todo mundo vai funcionar no mesmo tempo e da mesma maneira? Além disso, não há quantidade suficiente desses novos insumos, de imediato, para suprir toda a demanda, caso fôssemos substituir totalmente os fertilizantes”, esclarece.

Esterco de curral, de galinha, compostagem, vinhaça

Essas são outras possibilidades que vêm sendo implementadas em algumas plantações, mas elas não funcionam para todas as situações. São elementos que enriquecem a atividade biológica com a finalidade de formar os nutrientes para as plantas, mas não são fornecedores diretos desses nutrientes. O esterco possui muito material orgânico, acelera a atividade biológica, mas contém poucos minerais. O nitrogênio que as plantas absorvem vem do ar e não de uma fonte de esterco. Para se obter os mesmos resultados da agricultura convencional, seria necessário usar dez vezes mais quantidade equivalente em esterco. É um processo pouco viável diante da falta de material em quantidade suficiente.

Biomassa

É uma matéria orgânica vegetal que serve como fonte de minerais e nutrientes para fertilização das plantações, incorporando nitrogênio à terra para plantio. Formar biomassa não é um processo rápido e exige espaço no terreno para seu cultivo. Mas com planejamento e um manejo cuidadoso, torna-se uma alternativa viável e eficiente para melhorar as características do solo e a capacidade produtiva. Para que a adubação com biomassa tenha efeito, é necessário um trabalho continuado. O maior exemplo da eficiência desse sistema é o plantio direto – que visa reduzir o revolvimento da terra, apenas o suficiente para incorporação das sementes.

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Soluções

Para se alterar a relação do plantio baseado na necessidade de fertilizantes químicos é necessário repensar o modelo de cultivo, mudando as técnicas de cultivo atuais (aração, gradagem etc.) que compactam a terra e exaurem os nutrientes. A dependência vem do empobrecimento causado por essa compactação – aí entram os fertilizantes, que repõem os nutrientes que foram perdidos. Reverter esse cenário de modo que o uso de adubo seja menos necessário leva tempo e necessita de um cuidado minucioso a fim de devolver ao solo a capacidade de absorver nutrientes.

Mas é possível, pois a tecnologia já existe. “É preciso que o conhecimento sobre as alternativas de fertilização natural chegue ao produtor. Hoje o SENAR-SP atende 123 turmas de estudos a cada ano, com média de 15 a 20 participantes. Nós orientamos já quase 30 mil pessoas, por meio de cursos que ensinam como recuperar o solo, porque ele só se manterá fofo, poroso e estruturado se ele houver atividade biológica. Se não, ele vai se compactar e endurecer, vai perder a capacidade de absorção de água e de nutrientes. E todo o investimento acaba sendo dinheiro jogado fora. Isso vale tanto para o pequeno quanto para o grande”, continua o instrutor. “Durante essas crises é que surgem coisas novas, tecnologias e soluções diferentes. Tem muita coisa boa por aí. Nós vamos continuar produzindo, mesmo sem adubo químico. Vamos achar soluções diferentes a partir da busca pelo conhecimento”, conclui.

SENAR-SP: Programas para capacitar o agricultor

Os temas tratados nessa matéria são abordados com mais profundidade nos programas “Olericultura Orgânica” e “Nutrição Biológica do Solo”, séries de cursos oferecidos pelo SENAR-SP. Neles, os alunos aprendem sobre preparo e manejo dos terrenos, como empregar alternativas aos convencionais, controle biológico de pragas e outros recursos para ajudar a melhorar a fertilidade e aumentar a produtividade. São estudos fundamentais para que os produtores aprendam novos métodos que dispensem utilização de adubos químicos. Para participar desses programas, procure um parceiro do SENAR-AR/SP (Sindicatos Rurais, prefeituras conveniadas ou associações) de seu município ou próximo a sua região.

Plano Nacional de Fertilizantes

Esse Plano foi lançado pelo governo federal no início de março e prevê estímulos à busca de novas jazidas de fósforo e potássio, bem como a exploração das já conhecidas. Pretende ainda aumentar a fabricação de fertilizantes orgânicos e organominerais por meio de fábricas a serem instaladas em regiões estratégicas que concentram matéria-prima. Contudo, é um projeto com objetivos mais a médio e longo prazo, com metas para diminuir a dependência de importações, em 2050, dos atuais 85% para 45%, mesmo que a demanda por adubos dobre nesse período.

Como pontapé inicial desse projeto, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) programou para iniciar em maio a Caravana Embrapa FertBrasil, que vai percorrer mais de 40 cidades em 10 macrorregiões brasileiras (em São Paulo será nas cidades de Assis e Ribeirão Preto), com o objetivo de promover o aumento da eficiência de uso dos fertilizantes e insumos no campo e estimular a adoção de novas tecnologias e de boas práticas de manejo do solo, água e plantas.

O governo federal tenta ainda outras maneiras de manter normalizada a importação. O atual ministro da Agricultura, Marcos Montes, pretende, a partir de maio, realizar viagens para Marrocos, Egito e Jordânia, a fim de abrir novos mercados para fornecedores externos.

Outras informações acesse o Portal FAESP/SENAR-SP

Fonte: CNA Brasil

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AGRONEGÓCIO

Embrapa investe quase R$ 60 milhões em nova unidade para o Matopiba

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) vai investir R$ 58,9 milhões na reestruturação da sua unidade no Maranhão, em um movimento que reforça a presença da instituição no Matopiba — região que se consolidou como a principal fronteira de expansão agrícola do país.

O aporte inclui R$ 43,9 milhões do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), além de R$ 10 milhões do Governo do Maranhão e R$ 5 milhões da bancada federal do estado.

A nova sede será instalada no campus Maracanã do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), em São Luís, e integra o processo de reorganização da Embrapa no estado, que também prevê a contratação de 50 novos empregados aprovados em concurso público.

O projeto está inserido em uma estratégia mais ampla de fortalecimento da pesquisa aplicada ao Cerrado e à Amazônia Legal, com foco especial no Matopiba — que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

A região representa hoje cerca de 33% do território maranhense e se consolidou como uma das áreas mais dinâmicas da expansão agrícola brasileira, com forte avanço de soja, milho e algodão nas últimas duas décadas.

Embora o Brasil já seja o maior produtor mundial de soja, com produção próxima de 180 milhões de toneladas por safra, o crescimento recente da oferta tem sido puxado justamente por novas áreas do Cerrado, com destaque para o Matopiba.

No Maranhão, esse processo convive com forte dualidade: de um lado, o avanço da agricultura moderna e mecanizada; de outro, indicadores sociais ainda baixos, com o estado entre os menores Índices de Desenvolvimento Humano do país e elevada concentração de pobreza rural.

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A nova estrutura da Embrapa será equipada com laboratórios de alta complexidade, incluindo centrais analíticas, unidades de bioinsumos, agroindústria piloto e um laboratório voltado à redução de emissões de metano na pecuária — o primeiro do tipo na Amazônia e no Nordeste.

O Matopiba — formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — é hoje uma das áreas de maior expansão agrícola do Brasil e já reúne uma produção estimada em cerca de 32 a 35 milhões de toneladas de grãos por safra, segundo levantamentos setoriais recentes, com forte concentração em soja, milho e algodão.

Na soja, principal cultura da região, a participação do Matopiba já gira em torno de 10% a 14% da produção brasileira, dependendo da safra e da metodologia de cálculo, com crescimento acelerado sobre áreas de Cerrado antes consideradas de baixa aptidão agrícola.

O Brasil, maior produtor global de soja, colheu cerca de 180 milhões de toneladas na safra mais recente, segundo dados consolidados da Conab. Nesse contexto, o avanço do Matopiba tem sido um dos principais vetores de aumento de oferta, especialmente nas últimas duas décadas.

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Além da soja, a região tem ganhado relevância na produção de milho segunda safra e algodão, com destaque para áreas do oeste da Bahia e sul do Maranhão, onde a agricultura altamente mecanizada se consolidou com uso intensivo de tecnologia, correção de solo e integração de sistemas produtivos.

Apesar do avanço, o Matopiba ainda concentra gargalos estruturais importantes. Logística de escoamento, dependência de corredores como Norte-Sul e Arco Norte, e limitações de armazenagem seguem como pontos críticos que impactam o custo final da produção e a competitividade em relação a regiões tradicionais como Centro-Oeste e Sul.

É nesse cenário que a ampliação da presença da Embrapa ganha peso estratégico. A instituição é responsável por desenvolver tecnologias adaptadas ao Cerrado, como cultivares mais tolerantes a solos ácidos, sistemas de plantio direto e manejo de baixa emissão de carbono, fundamentais para sustentar a expansão agrícola na região.

A nova estrutura no Maranhão deve reforçar esse eixo de pesquisa aplicada, aproximando o desenvolvimento tecnológico das áreas de expansão produtiva, onde o crescimento da agricultura ocorre em ritmo mais acelerado do país.

Na prática, o Matopiba já se consolidou como uma das últimas grandes fronteiras agrícolas ainda em expansão no território nacional, com papel direto na ampliação da oferta de grãos e na sustentação do crescimento das exportações do agronegócio brasileiro.


Fonte: Pensar Agro

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