MINISTÉRIO PÚBLICO MT
A tentação de ter razão
Entre sofistas e filósofos, a disputa pela verdade revela menos um problema de método do que uma inclinação humana: vencer — mesmo quando compreender deveria bastar.Em todo debate, há um instante quase imperceptível em que a busca da verdade se converte, sem alarde, em impulso de prevalecer. Não é um gesto deliberado, tampouco uma inflexão plenamente consciente. Manifesta-se, antes, de modo silencioso: quando já não se escuta para compreender, mas para responder; quando o argumento deixa de esclarecer e passa a afirmar; quando a palavra, em vez de abrir caminhos, passa a encerrá-los.Desde suas origens mais remotas, a filosofia ergueu-se, em larga medida, como reação a esse deslizamento. Pretendia disciplinar o pensamento, submeter a palavra à verdade, converter o embate em via de conhecimento. Não por acaso, a figura de Sócrates permanece como paradigma dessa exigência. Seu método não consistia em afirmar, mas em interrogar; não em vencer, mas em expor fragilidades; não em encerrar o debate, mas em conduzi-lo à aporia — esse ponto raro em que a convicção cede lugar à investigação.Há, contudo, um traço menos evidente — e mais incômodo. A mesma tradição que procurou conter tal impulso também desenvolveu técnicas capazes de explorá-lo. A ambivalência, aqui, não é episódica: é constitutiva.Na Atenas do século V a.C., os chamados sofistas elevaram à condição de arte o domínio da palavra. Ensinavam a persuadir, a argumentar, a triunfar nos espaços públicos. Figuras como Protágoras, Górgias, Hípias de Élis, Pródico de Ceos, Trasímaco e Antifonte não reivindicavam, em sentido estrito, a posse da verdade; reconheciam, antes, a centralidade do sujeito em sua apreensão. “De todas as coisas o homem é a medida”, afirmava Protágoras — e, com isso, inscrevia a verdade no campo da experiência humana.Na prática, porém, o horizonte de atuação sofístico deslocava-se do verdadeiro para o eficaz — mais do que alcançar a verdade, importava prevalecer no debate. A retórica deixava de ser meio para tornar-se fim: instrumento de vitória, ainda que dissociado do compromisso com o real.É nesse terreno que se estabelece a tensão decisiva entre sofistas e socráticos. Para os primeiros, o discurso é instrumento de eficácia; para os segundos, meio de depuração. Enquanto o sofista domina a linguagem para prevalecer, o socrático a submete à prova. Não se trata apenas de métodos distintos, mas de compreensões divergentes do próprio sentido do diálogo.A resposta mais sistemática a essa tensão encontra-se em Platão. Em seus diálogos — notadamente no Górgias —, a retórica sofística surge como forma de sedução intelectual: uma técnica capaz de produzir adesão sem compromisso com o verdadeiro. A oposição que ali se delineia é conhecida, mas permanece exigente. De um lado, a retórica que busca o assentimento; de outro, a dialética que transforma o entendimento.Essa distinção, contudo, não se sustenta sem fissuras. A própria forma dialogal platônica revela que a verdade não se impõe sem mediação. A linguagem — mesmo quando disciplinada pela filosofia — continua atravessada por escolhas, estratégias, conduções. O filósofo não se situa fora da retórica: reinscreve-a sob outra finalidade.A tradição clássica, entretanto, projeta-se para além dessa oposição inaugural. Ao longo de seu desenvolvimento, delineou-se uma arquitetura mais ampla do conhecimento, na qual o discurso percorre diferentes estágios — da formação das impressões à elaboração crítica do verdadeiro.Na Filosofia de Aristóteles, essa progressão adquire forma sistemática. O pensamento organiza-se em níveis: a poética inaugura o horizonte das impressões; a retórica expressa opiniões; a dialética confronta posições; e a análise busca a apreensão da verdade. Nesse modelo, a dialética não constitui o real — investiga-o. É método, não fundamento.Tal equilíbrio, porém, não atravessaria incólume a modernidade. Na Filosofia de G.W.F. Hegel, a dialética deixa de ser apenas procedimento para tornar-se princípio constitutivo da realidade, concebida como unidade dinâmica de opostos em permanente transformação.Nesse percurso, a retórica — outrora instrumento — reaparece como protagonista, e a tentação de vencer, ainda que à custa da verdade, assume novas formas, mais sutis e, por isso mesmo, mais eficazes.É nesse horizonte que a contribuição de Arthur Schopenhauer adquire relevo singular. Em A arte de ter razão, o filósofo descreve, com rara franqueza, os expedientes que permitem vencer um debate independentemente da correção da tese defendida. A erística, assim compreendida, não esclarece: triunfa.O repertório é conhecido — e inquietantemente atual. Amplia-se a tese do adversário até torná-la refutável; desloca-se o foco da discussão; exploram-se ambiguidades; generalizam-se exemplos isolados; proclama-se vitória antes da conclusão. Não são exceções: são práticas recorrentes. Indícios de que o debate pode ser conduzido não pela força do melhor argumento, mas pela habilidade de moldar as regras do jogo.Aqui se opera um deslocamento decisivo. O problema deixa de ser atribuído a uma tradição específica e passa a ser reconhecido como inclinação inscrita na própria condição humana.O ser humano, nesse sentido, revela uma obstinação persistente em sustentar o próprio ponto de vista. A distinção entre estar certo e ter razão — aparentemente sutil — torna-se, então, decisiva. A busca da verdade cede lugar à preservação da posição assumida. O amor-próprio infiltra-se no raciocínio; a divergência converte-se em ameaça; o debate, em competição.A reflexão filosófica, nesse ponto, tangencia a psicologia. Quando confrontada com convicções consolidadas, a verdade não ilumina de imediato — resiste. O espírito reorganiza argumentos, seleciona evidências, redefine premissas. Não para compreender melhor, mas para preservar-se.Há, ainda, um traço revelador: a assimetria desse reconhecimento. Percebemo-lo com nitidez nos outros; evitamo-lo em nós mesmos.É precisamente nesse ponto que a intuição de Blaise Pascal se mostra particularmente aguda. Somos mais facilmente persuadidos pelas razões que descobrimos do que por aquelas que nos são apresentadas. A razão, aqui, não apenas conduz ao verdadeiro — legitima o que já se crê.Sob esse prisma, a aposta socrática no diálogo revela toda a sua exigência. Pressupõe a rara disposição de rever convicções, reconhecer equívocos, abandonar posições insustentáveis. Exigência elevada — e, por isso mesmo, pouco frequente.Não surpreende, assim, a advertência de Friedrich Nietzsche: as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as próprias mentiras.Se as convicções endurecem o pensamento, também empobrecem o diálogo. Quando se tornam inabaláveis, deixam de ser ponto de partida para investigação e passam a funcionar como barreiras à compreensão. O debate perde profundidade, reduz-se a afirmações reiteradas, e a palavra, esvaziada de abertura, transforma-se em instrumento de repetição.É nesse contexto que a reflexão de T. S. Eliot adquire particular densidade: “A única sabedoria que uma pessoa pode esperar adquirir é a sabedoria da humildade[1]”. Longe de constituir mera máxima moral, a afirmação revela uma exigência intelectual rigorosa. Diante da possibilidade de revisão, o espírito hesita; confrontado com o que o desestabiliza, recua. A verdade, longe de se impor com evidência imediata, requer uma disposição rara — não apenas para reconhecê-la, mas para acolhê-la quando contraria aquilo que já se pensa.No cenário contemporâneo, esse descompasso se intensifica. O espaço público encontra-se saturado de posições rápidas, reativas, frequentemente impermeáveis à escuta. Argumenta-se para afirmar identidade; responde-se para prevalecer.É nesse ambiente que o risco se acentua.Não o erro — inerente ao pensar —, mas a perda do interesse em corrigi-lo. Quando a vitória se torna critério, a verdade passa a obstáculo. Empobrece-se o discurso; estreita-se o pensamento; deteriora-se a convivência. Reabilitar o valor da verdade — não como posse, mas como busca — constitui uma das tarefas mais exigentes do presente — e, sem dúvida, uma das mais urgentes.Ao final, não é a razão que nos falta.O que escasseia é a disposição de nos submetermos a ela.E talvez também a humildade necessária para reconhecer seus limites — e os nossos, afinal, como sugere João Guimarães Rosa, mestre é não quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.[1] The only wisdom we can hope to acquire is the wisdom of humility.
Fonte: Ministério Público MT – MT
MINISTÉRIO PÚBLICO MT
FloreSer alcança 1.286 alunos e muda percepção de jovens sobre violência
O projeto FloreSer finalizou, na última semana, as rodas de conversa na Escola Estadual Professor Welson Mesquita, localizada no bairro Osmar Cabral, em Cuiabá. Entre março e abril, 284 estudantes participaram das atividades, que abordaram temas relacionados à violência doméstica e familiar, incluindo machismo, misoginia, abuso nas relações e suas consequências, que podem culminar em diferentes formas de violência contra mulheres e meninas, inclusive o feminicídio.No mesmo período, o projeto contemplou 1.286 estudantes de escolas públicas e privadas da capital. Entre os resultados observados, destaca-se o fato de que os alunos passaram a reconhecer sinais de abuso, manipulação, controle e ciúme em seus relacionamentos, antes frequentemente naturalizados.Também foram realizados atendimentos e esclarecimentos individuais, além de relatos de alunas que, após as discussões, compartilharam situações vivenciadas por elas ou por familiares, recebendo orientações sobre as medidas cabíveis. Houve, ainda, intervenção direta junto a professoras em situação de violência doméstica, com os devidos encaminhamentos e suporte. As rodas de conversa foram realizadas simultaneamente em turmas com cerca de 25 estudantes por sala.A temática “Violência nas relações afetivas adolescentes: como reconhecer e enfrentar” é trabalhada por profissionais do Núcleo de Enfrentamento da Violência Doméstica e Familiar – Espaço Caliandra, do Ministério Público, inserida no eixo da prevenção primária. A iniciativa busca conscientizar os jovens sobre os diversos tipos de violência, evitando sua reprodução nas relações afetivas, além de promover mudanças comportamentais e fomentar uma cultura de respeito às mulheres.Estudante da Escola Welson Mesquita, João Paulo Gonçalves Nascimento, de 16 anos, participou pela primeira vez de uma roda de conversa sobre violência contra mulheres e meninas e avaliou positivamente a experiência. “Isso ajuda a evitar conflitos e problemas no futuro. Já tive um relacionamento que não deu certo. Se eu soubesse dessas coisas antes, talvez tivesse sido diferente”, relatou.Para ele, compreender as relações envolve respeitar a parceira, seus espaços, limites e escolhas. “Mesmo que você não goste de uma pessoa, é preciso respeitar”, afirmou.A colega de classe, Valquíria Bernardes, também de 16 anos, estudante do 2º ano C, compartilhou uma experiência pessoal, destacando como o ciúme afetou seu relacionamento. “Eu proibia ele de falar com algumas amigas antigas. Antes, eu pensava que amiga de homem era só mãe e namorada. Com o tempo, percebi que tanto mulheres quanto homens têm o direito de manter amizades”, refletiu.Segundo ela, discutir sinais de abuso nas relações ajuda os adolescentes a reconhecer comportamentos inadequados e contribui para a construção de relações mais saudáveis no futuro.A coordenadora pedagógica da escola, Maria Osvaldita da Silva, afirmou que o projeto possibilitou aos alunos uma compreensão mais ampla da violência contra a mulher, para além da forma física, incluindo também as dimensões psicológica, verbal e emocional. “Alguns estudantes relataram situações vivenciadas ou presenciadas, o que demonstra que o tema faz parte da realidade de muitos. Por isso, precisa ser tratado com responsabilidade e acolhimento no ambiente escolar”, avaliou.Ela também destacou mudanças percebidas após as rodas de conversa. “Muitos alunos relataram que não tinham clareza sobre o que caracteriza a violência e que, agora, conseguem identificar situações que antes consideravam ‘normais’. Outros ressaltaram a importância de ter um espaço seguro para dialogar sobre esses temas”, concluiu.A promotora de Justiça Claire Vogel Dutra, coordenadora do projeto, destacou que o FloreSer foi pensado para as novas gerações. “Precisamos investir na educação, que é um pilar essencial para a mudança. A violência contra a mulher não é uma criminalidade comum, tampouco simples de ser enfrentada. Não depende apenas de leis ou punições, mas de uma integração entre todas as instituições. É fundamental que toda a sociedade atue de forma conjunta, tanto por meio de investimentos em segurança pública quanto em educação”, afirmou.Ainda nessa perspectiva, a promotora ressaltou que o Ministério Público atua em diferentes frentes de prevenção. “Buscamos a responsabilização dos agressores, mas também desenvolvemos projetos preventivos, especialmente nas escolas, com crianças e adolescentes. Além disso, é fundamental envolver os homens nesse debate. Não basta discutir apenas com as mulheres; é preciso que os homens compreendam sua responsabilidade, não apenas como possíveis agressores, mas como parceiros na promoção da prevenção e da conscientização. Eles também devem contribuir para disseminar a cultura da não violência e combater práticas sociais de misoginia que incentivam novas agressões”, completou.
Fonte: Ministério Público MT – MT
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