TECNOLOGIA
Bioeconomia brasileira depende de ciência inclusiva e marco regulatório, defendem especialistas na COP30
A bioeconomia brasileira vai além de um mero setor produtivo, ela é um modelo de desenvolvimento capaz de impulsionar a neoindustrialização e a transformação ecológica do País. Essa foi a principal conclusão da segunda mesa redonda da terça-feira (18), na Casa da Ciência, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30). O evento reuniu líderes e especialistas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE).
O debate destacou o papel estratégico do Brasil na superação dos desafios globais da dependência do petróleo e das mudanças climáticas. Para os cientistas, a neoindustrialização e a transformação ecológica devem ser sustentadas pela integração do conhecimento científico e tradicional e por um marco regulatório que reconheça as singularidades nacionais.
O diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis do CNPEM, organização social vinculada ao MCTI, Mário Murakami, ressaltou as vantagens comparativas do Brasil, descrevendo o País como o “superdotado da bioeconomia”. O pesquisador sublinhou que, diante de um cenário de aquecimento global acelerado e da finitude das reservas de petróleo, o Brasil tem elementos únicos para liderar a transição energética global.
“O Brasil possui a biomassa que não compete com alimento [mais de meio bilhão de toneladas de biomassa lignocelulósica], energia renovável [90% da matriz] e 100 milhões de hectares de pastos degradados que representam uma oportunidade para a expansão de bioenergia com impacto ambiental negativo”, explicou Murakami. Ele destacou a biomassa cativa — disponível na indústria, pronta para ser biotransformada —, com cerca de 200 milhões de toneladas de resíduos, que oferece um diferencial competitivo por reduzir o custo final dos produtos em duas a três vezes.
Segundo o especialista, o CNPEM, como braço do MCTI, tem concentrado esforços para garantir a soberania tecnológica nacional, por meio do codesenvolvimento de biotecnologia. Murakami citou a descoberta de um novo filo bacteriano — uma das principais e mais abrangentes categorias taxonômicas usadas para classificar as bactérias — em bagaço de cana que, após ser integrado à plataforma do MCTI, otimizou em mais de 20% a aplicação industrial de biocatalisadores — moléculas ou sistemas biológicos (como enzimas ou células inteiras) que têm a capacidade de acelerar (catalisar) reações químicas específicas.
O Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia
O coordenador de Bioeconomia no MMA, William Saab, detalhou a estruturação do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio). A iniciativa, que considera a bioeconomia como um modelo de desenvolvimento inclusivo e participativo, articula quatro componentes estratégicos: sociobioeconomia, biomassa, bioindústria e ecossistemas terrestres e aquáticos.
“A bioeconomia, na concepção do MMA, é um modelo de desenvolvimento e deve ser baseada em soluções com a natureza, articulando ética, inclusão, conhecimento tradicional e ciência”, afirmou Saab.
O plano busca, entre outras metas, a diversificação de fontes para biocombustíveis, citando o potencial da Macaúba, que pode produzir até oito vezes mais óleo por hectare do que a soja, impulsionando a bioindústria nacional. A implementação do plano já está em andamento, com o mapeamento de 30 territórios da sociobioeconomia e o lançamento de chamadas para arranjos produtivos locais (APLs), com fontes de capital asseguradas por organismos como o Fundo Amazônia, via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O coordenador de programas do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Marcelo Poppe, reforçou o papel da organização social vinculada ao MCTI como atuante no fornecimento de dados estratégicos para a Comissão Nacional de Bioeconomia, criada para formar o PNDBio, que conta com a participação dividida (34 membros) entre governo e sociedade civil para direcionar o processo de consolidação da bioeconomia brasileira. Poppe destacou a relevância da produção científica nacional, confirmando que o Brasil é o maior produtor de conhecimento científico sobre a Amazônia.
Integração do conhecimento
A necessidade de integração entre conhecimento tradicional e o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCT&I) foi abordada por Lara Ramos, coordenadora de Políticas Públicas na World Transforming Technologies (WTT). A WTT, em articulação com o MCTI e o MMA, tem trabalhado para construir pontes entre as lideranças da biodiversidade e o ecossistema de CTI.
“Nosso desafio é impulsionar a transição de paradigma para um SNCT&I mais inclusivo, atualizando normas legais para o reconhecimento formal dos conhecimentos tradicionais dentro do marco de ciência e tecnologia. Precisamos incorporar o conceito de mutirão dentro do nosso sistema de inovação,” defendeu Ramos.
Ela citou exemplos práticos de como a ciência pode apoiar as cadeias de base, desde o desenvolvimento de um aplicativo de rastreabilidade para o processo da castanha até a análise de segurança sanitária da água em bioprodutos, como o bioplástico feito do ouriço da castanha.
Desafio regulatório e compras públicas
O painel foi finalizado com uma discussão sobre a urgência de um marco regulatório que reconheça as particularidades do Brasil, após uma intervenção do público sobre a necessidade de legislação federal robusta para compras e licitações sustentáveis.
Mário Murakami sublinhou a necessidade de acordos multilaterais para o reconhecimento das singularidades brasileiras na contabilização de carbono.
“O etanol do milho brasileiro é muito diferente do americano. Aqui temos rotação de cultura e três colheitas por ano, o que reduz o uso da terra e a pegada de carbono. Contudo, os modelos de contabilização não consideram isso, e somos penalizados. Precisamos da devida valoração em termos de emissões de carbono que reconheça as singularidades do Brasil,” disse Murakami, defendendo que a transição energética e ecológica deve ser funcional, otimizando a infraestrutura e as cadeias produtivas já estabelecidas.
Casa da Ciência
A Casa da Ciência do MCTI, no Museu Paraense Emílio Goeldi, é um espaço de divulgação científica, com foco em soluções climáticas e sustentabilidade, além de ser um ponto de encontro de pesquisadores, gestores públicos, estudantes e sociedade. Até o dia 21, ela será a sede simbólica do ministério e terá exposições, rodas de conversa, oficinas, lançamentos e atividades interativas voltadas ao público geral. Veja a programação completa.
TECNOLOGIA
DataClima+ fortalece capacidades nacionais para a transparência climática
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) lançou oficialmente, nesta quinta-feira (25), em Brasília (DF), o projeto DataClima+, que vai estruturar e institucionalizar a governança de dados para fortalecer o sistema de transparência climática do Brasil. A iniciativa contribuirá para o país atender aos requisitos da Estrutura de Transparência Aprimorada prevista pelo artigo 13 do Acordo de Paris e pelas Modalidades, Procedimentos e Diretrizes (MPGs) de implementação.
Com o novo sistema, o Brasil deve aprimorar a mensuração, o rastreamento e o reporte de dados climáticos por meio de um sistema de transparência robusto, consistente e eficiente. Além disso, o DataClima+ vai subsidiar a formulação de políticas nacionais climáticas e está alinhado ao esforço do governo federal em disseminar a governança de dados.
“A implementação desse projeto vai contribuir para que o Brasil cumpra com os compromissos assumidos internacionalmente, mas também atenderá a demandas do contexto nacional. Vamos prover com mais eficiência, agilidade e transparência um conjunto maior de informações para subsidiar a tomada de decisão na agenda climática”, afirma o coordenador-geral de Ciência do Clima do MCTI, Márcio Rojas.
O arranjo institucional para execução do projeto conta com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) como agência implementadora, o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) como apoio de execução e a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) no desenvolvimento e sustentação do sistema DataClima+.
“O PNUMA trabalha para apoiar os países no enfrentamento da tripla crise planetária: da mudança do clima, da perda de biodiversidade e da poluição. Em todas essas agendas, dados de qualidade, conhecimento científico e inovação são fundamentais para orientar decisões e acelerar transformações”, afirmou a líder Regional em Finanças e Transformações Econômicas para a América Latina do PNUMA, Beatriz Carneiro.
“Ao reunir dados, sistema, instituições e processos em uma infraestrutura nacional integrada de transparência climática, o DataClima+ cria as condições para que o Brasil produza e utilize informações climáticas de forma mais eficiente, confiável e acessível”, disse o diretor-geral Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Lisandro Granville.
O comitê gestor do projeto envolve, além do MCTI e do PNUMA, a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), ligada ao Ministério das Relações Exteriores (MRE). O projeto de cooperação técnica internacional captou U$ 3,8 milhões (cerca de R$20 milhões pelo câmbio atual) da Iniciativa para Construção de Capacidades para Transparência (CBIT, na sigla em inglês), uma das linhas de apoio financeiro do Fundo Global do Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês). O aporte à iniciativa brasileira é o maior desembolso global para um projeto apoiado pelo fundo global.
“O Funbio atua como gestor operacional e financeiro desta iniciativa, alinhado à nossa missão de aportar recursos estratégicos que promovam a conservação da biodiversidade e o enfrentamento dos desafios ambientais, transformando recursos financeiros em ações concretas de proteção ambiental”, explica a gerente de portfólio do Funbio Mariana Santos.
O projeto foi aprovado em agosto de 2024 e a sua execução se estende até agosto de 2028. Desde então, foram realizados os trâmites necessários para a formalização dos termos do projeto entre as instituições para a implementação do projeto e realizadas as primeiras entregas previstas no escopo do projeto.
O anúncio marca oficialmente o início do engajamento das instituições que colaborarão com o desenvolvimento do projeto por meio do fornecimento de dados. Os 23 ministérios que integram o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) serão diretamente envolvidos, além de outras instituições com potencial de colaboração, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Embrapa.
Entenda como o projeto vai construir o sistema nacional
O DataClima+ é um sistema modular integrado de dados climáticos orientados ao cumprimento da Estrutura de Transparência Aprimorada. Os objetivos centrais são centralizar e sistematizar informações para aprimorar a qualidade e eficiência dos relatórios nacionais de transparência.
O sistema deve apoiar o cumprimento dos compromissos internacionais do Brasil no acompanhamento do progresso da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) e das ações de adaptação à mudança do clima. As informações disponíveis facilitarão a formulação de políticas públicas baseadas em evidências e integra informações climáticas no planejamento nacional e subnacional.
O projeto possui três camadas: tecnológica, governança e capacitação. Na parte tecnológica, o sistema prevê o desenvolvimento dos módulos de Mitigação, Adaptação, Políticas públicas, Acompanhamento da NDC e Meios de Implementação (suporte necessário e recebido), além da atualização e integração dos sistemas existentes Adapta Brasil, SIRENE, SIRENE Organizacionais e SINAPSE.
Na parte de governança, o projeto vai estabelecer políticas, papéis e procedimentos, seguindo boas práticas para garantir qualidade, consistência, segurança e acessibilidade dos dados, promovendo confiança e interoperabilidade entre sistemas.
A implementação do projeto deve fortalecer ainda as capacidades institucionais e técnicas, por meio da capacitação dos técnicos das instituições envolvidas para gerir dados climáticos e transparência. A meta é capacitar mais de 600 profissionais na gestão e utilização de dados climáticos.
Acesse o site do projeto: https://dataclima.mcti.gov.br/
Assista ao evento de lançamento: https://www.youtube.com/live/vmFxrEKA31I?is=3AJmApL8JGcGQY__
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