POLÍTICA NACIONAL
Criminalizar má conduta científica pode desestimular pesquisa, aponta debate
Cientistas ouvidos no Senado na quarta-feira (25) criticaram o projeto de lei que propõe criminalizar a má conduta científica e prevê pena de prisão de três a cinco anos, mais multa, para práticas como falsificação de dados, plágio ou manipulação de resultados em pesquisas. Para eles, a medida poderá acabar desincentivando a pesquisa científica e aumentando a judicialização.
O objetivo da proposta (PL 330/2022) é garantir mais transparência e responsabilidade na produção científica brasileira, segundo seu autor, o senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR). O relator na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) é o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS).
Liberdade acadêmica
A presidente da Academia Brasileira de Ciências, Helena Bonciani Nader, registrou sua preocupação em relação ao projeto. Ela disse que a ciência é uma atividade que trabalha com incertezas e defendeu que erros metodológicos ou discordâncias entre grupos não devem ser tratados como crimes.
— A motivação do projeto é legítima. Episódios graves como da proxalutamida [medicamento sem eficácia comprovada] no Amazonas mostraram falhas sérias do cumprimento de protocolos de pesquisa e impactaram a vida de centenas de pessoas. Esses casos precisam sim de investigação rigorosa e responsabilização mas, no nosso entender, a solução apresentada pelo PL 330 não é a mais adequada, nem a mais eficaz.
Ela também disse que a ciência testa hipóteses, que resultados científicos podem divergir sobre o mesmo assunto e que análises estatísticas podem ser interpretadas de diferentes formas, por exemplo.
— O risco é criminalizar a própria prática científica, inibindo a inovação e a criatividade.
Helena Nader explicou que o Brasil já tem diversos mecanismos de fiscalização do trabalho científico, como a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) — vinculada ao Conselho Nacional de Saúde (CNS) —, responsável por avaliar os aspectos éticos das pesquisas com seres humanos, e o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal.
Ela explicou que essas instituições exigem que as pesquisas científicas no Brasil respeitem a dignidade e a autonomia dos participantes, reconhecendo sua vulnerabilidade, equilibrando riscos e benefícios e priorizando a minimização de danos e a prevenção de prejuízos previsíveis. Além disso, precisam demonstrar relevância social e garantir que o conhecimento produzido tenha valor humano e coletivo, acrescentou.
— O que precisamos não é de prisão para cientistas, mas sim de fortalecimento institucional. (…) Não se trata de relativizar a gravidade da má conduta científica, mas de encontrar o caminho correto para combatê-la.
A cientista também afirmou que o direito penal deve ser reservado a situações extremas de dolo e dano comprovado e que, para todos os outros casos, os mecanismos existentes são suficientes, porém precisam ser valorizados e fortalecidos.
— A ciência brasileira vive um momento crucial, recuperando investimentos, buscando atrair talento e aumentando sua presença internacional. Aprovar o projeto que criminaliza a pesquisa significará, no nosso entender, seguir na direção oposta, instalando o medo e a desconfiança dentro da própria comunidade científica. Por isso, manifesto nossa posição contrária ao PL 330 e recomendo que esta casa busque alternativas que preservem a integridade sem comprometer a liberdade acadêmica e o avanço da ciência no Brasil.
Método científico
Secretário substituto de Políticas e Programas Estratégicos do Ministério de Ciência e Tecnologia, Osvaldo Luiz Leal de Moraes disse que a contribuição mais importante da ciência para a humanidade foi o chamado método científico.
— Por que o método científico é importante? Porque o método científico permite diferenciarmos quem é charlatão e quem usa um procedimento padrão para poder fazer as afirmações que faz. E isso tem muito a ver com essa audiência de hoje. E muitas vezes não é o cientista que é o responsável pelo mau uso da informação. Ontem, na Assembleia Geral das Nações Unidas, nós vimos uma pessoa defender que as mudanças climáticas são um charlatanismo. Nós tivemos, durante a pandemia, a defesa da cloroquina. Ou seja, muitas vezes o uso de quem faz, inapropriadamente, o uso da informação científica, talvez tenha que ser mais responsabilizado do que o próprio cientista. Mas não tem dúvida nenhuma de que a ética em ciência é importante. Não se discute quanto a isso.
O presidente substituto do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Olival Freire Júnior, afirmou que o projeto de lei poderá causar “uma excessiva judicialização da atividade científica” e, ao invés de resguardar a sociedade e a atividade científica, poderá haver um freio à atividade científica.
— Eu, em nome do CNPq, gostaria por final de dizer que, nos termos em que a proposição está feita, ela não nos parece adequada, mas o espírito que presidiu a proposição, o Senado deveria encontrar, com apoio das entidades, formas de valorizar a educação do valor da ética e da integridade na produção científica.
Na mesma linha, a presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a professora Denise Pires, explicou que o Brasil respeita as regras e normas internacionais relativas à pesquisa científica com seres humanos.
— Me preocupa muito um projeto de lei que criminaliza os cientistas e a ciência num país que é referência mundial em integridade científica (…). A sociedade científica brasileira avançou muito nas últimas décadas e nós somos referência em várias áreas para o mundo, que continuemos assim entre os melhores cientistas do mundo e que o Brasil possa avançar cada vez mais com critérios éticos e de integridade.
O diretor da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) Samuel Goldenberg afirmou que as universidades e demais centros de pesquisa do Brasil vêm fortalecendo suas políticas internas de controle, com a criação de comitês de integridade em pesquisa. Ele disse que a pesquisa clínica brasileira é baseada nos princípios de respeito, consentimento livre e esclarecido, beneficência, segurança e bem-estar dos participantes.
— A nossa discussão nesta sessão é sobre a criminalização da conduta científica. A criminalização da ciência pode gerar consequências nefastas. (…) A condenação de cientistas, além de contribuir para a distorção do debate público, pode reforçar discursos de negação e antagonismo à própria ciência. O negacionismo foi particularmente perverso durante a pandemia de covid19, quando protocolos sem comprovação científica de eficácia foram adotados, como o uso de ivermectina, hidroxicloroquina e a recusa vacinal, resultando na perda de milhares de vidas.
CCT
A audiência pública foi realizada pela Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) e conduzida pela senadora Teresa Leitão (PT-PE). Ela destacou que a questão ética é muito importante na ciência brasileira.
— Quando a gente tem um projeto assim polêmico, complexo e de ampla abrangência, a gente procura instruí-lo, ouvindo a sociedade, compilando esses diversos olhares para que a gente possa ter um parecer mais tranquilo, mais consistente e que contribua pra gente avançar. Nós passamos recentemente um período de muita negação da ciência. Isso trouxe prejuízos ao próprio conceito de ciência no Brasil. Então nós não podemos negar a validade, o trabalho que essas instituições fazem, o que têm produzido positivamente para o Brasil.
Também participaram do debate a decana de Pesquisa e Inovação da Universidade de Brasília (UnB), Renata Aquino; a vice-presidente-adjunta de Pesquisa e Coleções Biológicas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Márcia Teixeira; o gerente do Departamento de Infraestrutura de Pesquisa da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), André Cabral de Souza; e a diretora da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), Natália Trindade. Veja os vídeos. O presidente da CCT é o senador Flávio Arns (PSB-PR).
O requerimento para o debate (REQ 25/2025 – CCT) foi apresentado por Teresa Leitão para ouvir especialistas e representantes de instituições ligadas à ciência e à pesquisa. Segundo ela, o debate é fundamental para esclarecer dúvidas sobre o impacto da proposta, ouvir diferentes opiniões do setor científico e garantir que a legislação seja construída de forma democrática e participativa. Ela também destaca a importância de proteger a integridade das pesquisas e fortalecer a confiança da sociedade nos resultados científicos.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Comissão aprova proposta com novas regras para placas de atendimento prioritário
A Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que obriga estabelecimentos públicos e privados a inserir símbolos e descrições de diversas deficiências em placas de atendimento prioritário.
Pela proposta, as sinalizações deverão incluir representações para deficiências física, auditiva, visual, mental ou intelectual e múltipla, além de síndrome de Down, transtorno do espectro autista e mobilidade reduzida. O texto também mantém a prioridade para gestantes, lactantes, pessoas com crianças de colo e pessoas idosas.
O texto aprovado é o substitutivo do relator, deputado Geraldo Resende (União-MS), para o projeto de lei original (PL 6967/25), do deputado Duda Ramos (Pode-RR).
“A proposta supera a visão de que a deficiência se restringe apenas a limitações motoras aparentes, combatendo o estigma e os questionamentos constrangedores que muitos cidadãos enfrentam ao tentar exercer seu direito à prioridade”, afirmou Geraldo Resende.
Tecnologia
Uma das mudanças trazidas pelo substitutivo é a permissão para o uso de tecnologias digitais. “O novo texto assegura que a norma não se restrinja a placas físicas, permitindo que estabelecimentos utilizem recursos digitais e audiovisuais que podem ser, em muitos casos, mais eficientes para a inclusão de pessoas com diferentes tipos de deficiência”, justificou Resende.
Ele alterou ainda as punições para quem descumprir a lei. O projeto original previa sanções mais rígidas, mas o texto do relator estabelece um rito progressivo. As sanções começam com advertência educativa e prazo para adequação, antes de seguir para autuações e notificações ao Ministério Público ou órgãos de defesa do consumidor.
Padronização
As placas físicas, quando adotadas, deverão seguir determinações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade). O projeto também incentiva o uso de recursos como código QR e audiodescrição para facilitar a comunicação.
Símbolo universal
A Organização das Nações Unidas (ONU) desenvolveu em 2015 um símbolo internacional de acessibilidade, que consiste de figura humana simétrica com os braços abertos inscrita dentro de um círculo. O novo ícone tem o objetivo de representar a inclusão universal.
Recém-sancionada, a Lei 15.459/26 prevê a adoção da denominação “símbolo internacional de acessibilidade”, mas teve vetados os trechos que previam a substituição do símbolo atualmente usado no país pelo modelo da ONU. O governo federal argumentou que a mudança não contou com a participação das organizações representativas das pessoas com deficiência.
Próximos passos
O PL 6967/25 segue agora para análise das comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania, em caráter conclusivo. Para virar lei, precisa ser aprovado pelos deputados e pelos senadores.
Saiba mais sobre a tramitação de projetos de lei
Reportagem – Noéli Nobre
Edição – Ana Chalub
Fonte: Câmara dos Deputados
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