POLÍTICA NACIONAL

CPI: especialistas alertam para os riscos das apostas para a saúde

Em audiência pública promovida pela CPI da Manipulação de Jogos na tarde desta segunda-feira (11), especialistas alertaram para os riscos que as apostas podem trazer para a saúde mental e financeira do apostador. Eles também pediram a atenção das autoridades governamentais no combate à dependência patológica dos jogos de azar, conhecida como ludopatia.

A audiência foi realizada por sugestão do vice-presidente da comissão, senador Eduardo Girão (Novo-CE), que dirigiu os trabalhos. Segundo o senador, o futebol nacional vem se deteriorando depois da entrada das casas de apostas. Ele disse ver um claro conflito de interesses quando um clube é patrocinado por uma bet — como ficaram conhecidas as empresas de apostas — e alertou para os riscos do vício no jogo. De acordo com Girão, famílias mais humildes estão com a renda comprometida por conta das apostas, com vários casos de chefe de família perdendo emprego. Ele defendeu campanhas de conscientização para evitar o vício nos jogos.

— Estamos aqui para cumprir nosso papel. Somos poucos, mas temos conseguido jogar luz nas sombras, sobre um grande patrimônio do brasileiro, que é o futebol — declarou Girão.

De acordo com o senador, é preciso uma atenção especial por parte das autoridades para a relação das apostas com a saúde mental. Girão disse que o estresse e a frustação das perdas em apostas podem culminar em comportamentos abusivos e agressivos, com casos de separação e até de violência doméstica e suicídio. O senador também alertou para os impactos negativos que a exposição às propagandas pode causar nas crianças, que cresceriam já inclinadas ao jogo.  

— A conscientização sobre os riscos e a disponibilização de recursos para o devido tratamento psicológico são passos fundamentais para mitigar os impactos negativos dessa prática — alertou Girão.

Riscos e sugestões

O professor do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), Hermano Tavares, disse que é urgente tratar das questões dos jogos no país. Para o professor, o debate sobre a arrecadação que as apostas podem trazer ao país é estreito. Ele apontou que a questão da saúde mental é a mais importante. Segundo Tavares, o vício em jogo é a terceira dependência mais frequente no país, perdendo apenas para o álcool e o tabaco.

O professor ainda disse que as autoridades têm responsabilidade de alertar a população e defendeu o tratamento para os casos de vício em jogo pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele sugeriu a criação de uma agência ou comissão nacional independente, dedicada à efetivação de uma política de regulamentação do jogo de azar. Na visão de Tavares, as campanhas governamentais contra o cigarro e sobre os riscos da aids mostram que um modelo parecido pode ser eficiente em relação às apostas.

— O transtorno do vício em jogo é um grande desafio. Saúde mental não é mais um ator ou personagem. É o protagonista desse assunto. A boa notícia é que este é um problema tratável — declarou o professor, que também pediu a proibição de todo tipo de propaganda das apostas esportivas.

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Para o médico Salomão Rodrigues Filho, representante do Conselho Federal de Medicina (CFM), as novas tecnologias se tornaram ferramentas que impactaram a saúde mental da população. Ele disse que as apostas esportivas eletrônicas saqueiam recursos das famílias, principalmente das mais vulneráveis. Segundo o médico, regulamentar com rigor os jogos on-line é uma questão de saúde pública e uma forma de proteger as famílias com mais dificuldade social.

— O vício em jogos eletrônicos não é uma frescura, mas uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde. E mais um alerta: as bets vão destruir o futebol brasileiro — declarou Salomão Filho.   

Representante da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e da Associação Médica Brasileira (AMB), o médico Vinícius Oliveira de Andrade argumentou que o jogo não é apenas uma atividade de lazer, mas uma atividade com risco de dependência e, portanto, prejudicial à saúde. Ele alertou para o fato de que além da questão do vício, a atividade pode trazer riscos de dívidas, depressão e suicídio, podendo também afetar outros familiares e amigos do apostador. Segundo Vinícius Andrade, o advento dos jogos eletrônicos facilitou as apostas e maximizou os riscos. Ele ainda alertou que muitas empresas de apostas estão entrando nos games eletrônicos, atingindo parcelas mais jovens da população, levando até adolescentes e crianças ao uso problemático dos jogos.

— Recomendamos as regulamentações, medidas eficazes de proteção ao consumidor, maiores investimentos em pesquisa, preparo do SUS e atenção com jovens e adolescentes — sugeriu Andrade, que também reforçou a importância da criação de uma agência voltada ao setor de jogos.

Na mesma linha, o promotor de Justiça André Estevão Ubaldino, do Ministério Público de Minas Gerais, afirmou que além das questões éticas e morais, os jogos eletrônicos também trazem riscos para a saúde mental. Ele classificou as bets como “uma coisa perniciosa e desagradável” e informou que vários comerciantes já perceberam uma diminuição de suas vendas, pois os clientes estariam dando preferência para as apostas. Ubaldino disse ainda esperar que o Legislativo reconheça o erro da regulamentação das apostas eletrônicas, para o bem do país.

— O jogo é um instrumento de transferência de renda, mas dos pobres para aqueles que não têm escrúpulos, que querem obter vantagens às custas da população mais excluída — protestou Ubaldino.

Vício e recuperação

De acordo com o médico Oscar Rodolpho Bittencourt Cox, membro do Conselho Municipal Antidrogas do Rio de Janeiro e representante da Jogadores Anônimos, o vício em jogos é uma doença progressiva. Ele disse que o vício é grave, mas que é possível tratar o problema e promover uma recuperação da saúde mental. Oscar Cox ainda informou que há várias unidades dos Jogadores Anônimos espalhadas pelo país, que podem ajudar aqueles que têm problemas com esse tipo de vício.

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O empresário André Rolim deu o seu testemunho como ex-apostador. Ele disse que começou a jogar por diversão, mas que depois se tornou uma doença. O empresário classificou os casos de vícios em jogos como uma “nova pandemia” e contou que jogava on-line enquanto colocava a filha para dormir e até enquanto tomava banho. Segundo ele, sua vida virou um jogo, pois até um futebol com os amigos só tinha graça se houvesse uma aposta no resultado. O empresário ainda relatou que foram 20 anos de apostas, mas que o vício encontrou ainda mais facilidade com os jogos eletrônicos. Ele relatou que se recuperou em uma clínica e destacou a importância de conversas sobre o assunto e das campanhas de conscientização.

— Eu perdi bens, mas graças a Deus minha família não me abandonou. Eu fico imaginando o tanto de pessoas que estão por aí precisando de ajuda, assim como eu precisei. Eu sou um sobrevivente — concluiu, emocionado.

Vitórias

O presidente da CPI, senador Jorge Kajuru (PSB-GO), celebrou o que chamou de uma série de vitórias da CPI. Ele citou a prisão do empresário William Rogatto pela Interpol, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, na última sexta-feira (8). Segundo Kajuru, Rogatto vai depor à CPI um dia depois de chegar ao Brasil. Ele já falou à comissão no início do mês passado, quando confessou ter sido o responsável pelo rebaixamento de 42 equipes em diferentes campeonatos.

Kajuru também classificou como uma vitória o fato de o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ter acatado uma sugestão dele para proibir a aposta em cartões amarelos ou pênaltis, sendo permitido apenas apostar no resultado da partida. De acordo com o senador, Lula vai soltar um decreto proibindo esse tipo de apostas a partir de 1º de janeiro do ano que vem. Kajuru acredita que essas medidas poderão reduzir os casos de vício em jogos no país.

O senador também celebrou a operação VAR, que a Polícia Civil lançou no Rio de Janeiro na manhã desta segunda-feira. A operação tem como foco operadores de uma suposta manipulação de resultados de jogos de futebol da série B no estado.

A CPI volta a se reunir nesta terça-feira (12), às 14h30.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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POLÍTICA NACIONAL

Em debate na Câmara, especialistas apontam desafios ambientais e econômicos da transição energética

Em seminário promovido por três comissões da Câmara dos Deputados nesta terça-feira (9), especialistas apresentaram sugestões ambientais e econômicas para a gradual substituição dos combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás natural, diretamente ligados ao aquecimento do planeta. De forma geral, defenderam uma transição energética com metas anuais, prazos vinculantes e fundos para garantir justiça climática.

No aspecto político, a coordenadora de projetos do Instituto ClimaInfo, Carolina Marçal, destacou que o Brasil precisa superar contradições na condução do tema.

“Ao mesmo tempo em que o Brasil tem se colocado como um líder climático global e tem de fato exercido um papel importante nesse sentido, a gente vê uma expansão da indústria fóssil e de frentes de exploração inclusive em lugares emblemáticos, como na Margem Equatorial e em outras regiões”, salientou.

Analista do WWF Brasil, Ricardo Fuji mostrou impactos da exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, com elevado custo social e risco de emissão de 446 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Segundo ele, o quadro seria bem diferente se o investimento fosse direcionado à produção de eletricidade limpa e biocombustíveis.

“Com aquele mesmo investimento de R$ 32 milhões na Foz do Amazonas, daria para instalar um parque e linhas de transmissão para gerar eletricidade renovável”, exemplificou.

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Derivados do petróleo
Os especialistas também discutiram o cenário geopolítico que impacta no preço internacional dos derivados de petróleo. Só nos primeiros 50 dias da atual guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, a indústria petrolífera lucrou 150 bilhões de dólares, segundo a 350.org Brasil, organização global pelo fim dos combustíveis fósseis.

Outro dado revela que 2/3 da população mundial vivem em países que importam petróleo e, obviamente, tiveram aumento no custo de vida durante essa guerra.

O diretor da organização 350.org no Brasil, João Cerqueira, lembrou que o setor é altamente subsidiado no mundo inteiro. Ele pediu aos parlamentares a aprovação do Projeto de Lei 219/25, que proíbe novos subsídios ao carvão, além da rejeição de outra proposta (PL 1371/25) que mantém esses subsídios até 2050 no Brasil.

Um dos organizadores do debate, o deputado Fernando Mineiro (PT-RN) defendeu a atual estratégia do governo federal no enfrentamento da crise. “Quero ressaltar o papel do governo brasileiro diante dessa crise em curso. Foi a ação política, e não a ação de mercado, que posicionou o Brasil em um lugar melhor do que o de outras nações. Ou seja: não é o livre mercado que vai dar o tom de como nós vamos alcançar e fazer essa travessia para uma transição justa sobre a questão energética.”

Vinicius Loures / Câmara dos Deputados
Custo de vida e dependência dos Combustíveis Fósseis: Caminhos para reduzir a vulnerabilidade econômica. Especialista em Transição Energética e Minerais Críticos do Instituto E+, Bruna Targino.
Bruna Targino defendeu estratégia industrial de longo prazo

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Conta de luz
Também houve debates em torno dos impactos da política energética na conta de luz. Representante da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Leandro Moreira citou esforços para redução do peso dos subsídios custeados pela tarifa energética. Um deles é o projeto da Lei de Responsabilidade Tarifária (PLP 100/26), em análise na Câmara.

Bruna Targino, do Instituto E+ Transição Energética, sugeriu foco do país em planejamento, financiamento e estratégia industrial de longo prazo, sobretudo diante das novas opções de exploração mineral e energética.

“Nós não podemos sair da dependência fóssil para uma nova dependência tecnológica e material. Por isso, agendas como a de minerais críticos estratégicos precisam ser tratadas como agendas industriais, com agregação de valor e considerando rastreabilidade, circularidade e salvaguardando padrões socioambientais robustos”, defendeu Bruna Targino.

O seminário na Câmara foi promovido pelas Comissões de Meio Ambiente, da Amazônia e de Defesa do Consumidor.

Reportagem –  José Carlos Oliveira
Edição –  Ana Chalub

Fonte: Câmara dos Deputados

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