POLÍTICA NACIONAL
CE: Luta da população em situação de rua exige políticas públicas
A audiência pública sobre o projeto que institui o Dia da Luta da População em Situação de Rua, a ser celebrado no dia 19 de agosto (PL 4.752/2019), foi marcada pela defesa de políticas públicas estruturantes que possam assegurar a dignidade daqueles que estão nessa condição. Para os debatedores que estiveram na Comissão de Educação (CE) nesta segunda-feira (26), além da criação de uma data, é preciso garantir que as pessoas em situação de rua tenham acesso a moradia digna, renda, empregabilidade e formação cidadã.
A sugestão de se discutir o assunto (REQ 107/2024 – CE) partiu do senador Paulo Paim (PT-RS), que presidiu a audiência e também é relator do projeto que institui a data.
— São pessoas com direitos constitucionais, direito ao respeito, direito à vida e à dignidade. Mesmo assim, a população em situação de rua se reúne em movimentos sociais e organizações em luta por seus direitos — afirmou o senador.
Segundo dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), mais de 335 mil pessoas viviam em situação de rua no Brasil em março deste ano. O número representa um aumento de 0,37%, no primeiro trimestre de 2025, em relação ao ano anterior.
Conforme o procurador-adjunto regional dos Direitos do Cidadão Adjunto em São Paulo (PRDC-SP), José Rubens Plates, na ultima década houve um aumento de 200% de pessoas que passaram a morar nas ruas. Os dados são de uma pesquisa de 2022 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
— Trata-se de um fenômeno que cresce de forma alarmante, alimentado por fatores como a pobreza extrema, o racismo estrutural, a perda de vínculos familiares, o desemprego, o despejo forçado e a ausência de políticas públicas de moradia efetiva.
O PL 4.752/2029 foi apresentado pelo deputado federal Nilto Tatto (PT-SP). A escolha por 19 de agosto lembra o chamado “Massacre da Sé”, como ficou conhecida a série de atentados violentos contra pessoas em situação de rua da Praça da Sé, na cidade de São Paulo, entre os dias 19 e 22 de agosto de 2004. Treze pessoas foram atacadas a golpes de cassetete durante as madrugadas, sete das quais morreram.
Criminalização
O padre Júlio Lancellotti, conhecido pela sua atuação junto às pessoas em situação de rua, disse que o massacre na Praça da Sé ainda não terminou, somente entrou “numa nova face”, e que há uma “campanha de criminalização contínua” contra a população em situação de rua.
Para ele, é preciso assegurar que os municípios cumpram a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) julgada em 2023 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que exige dos governos locais medidas para solucionar o problema da falta de moradia e das violações de direitos humanos da população em situação de rua. Uma das medidas da ADPF é a proibição da remoção forçada.
— A população em situação de rua vai ter dificuldade de festejar o dia nacional e ter suas roupas, seus documentos, seu medicamentos retirados. Em algumas prefeituras de cidades do Sul do Brasil estão construindo verdadeiros campos de concentração. O que está acontecendo em algumas cidades do Sul, e que se repete no Sudeste, é uma campanha de criminalização continua, permanente, sistemática e neonazista de criminalização da população de rua. A população de rua é sempre tratada como suspeita, como criminosa — denunciou.
Para Lancelotti, não se trata apenas de não permitir a remoção forçada, mas o Estado precisa oferecer dignidade e caminhos para que eles tenham condições de sair da situação de vulnerabilidade. Entre as ações imediatas ele propôs a realização de mutirões para emissão de documentos, acesso assistido a atendimentos sociais virtuais e oferta de bebedouros.
— Eles têm direito a benefícios, direito a se inscreverem em programas sociais, mas a população de rua toda tem smartphone? Tem acesso à internet? Se os cidadãos, em geral, estão tendo dificuldade de acessar o [sistema] gov.br, o que dirá a população em situação de rua? — questionou.
Protagonismo
Anderson Lopes Miranda já esteve na situação de rua e só saiu dessa condição, segundo ele, graças a um pilar que envolveu assistência social, acesso à moradia e trabalho. Atualmente ele é coordenador-geral do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para População em Situação de Rua no Ministério dos Direitos Humanos (MDHC)
Na visão dele, a criação da data não deve ser vista como um marco festivo, e sim de reivindicação para coibir novas chacinas e assegurar direitos.
— Nós não queremos uma lei de festa, nós queremos relembrar o massacre e que o massacre seja extinguido neste país.
O diretor de Litigância e Incidência da organização não-governamental Conectas Direitos Humanos, Gabriel Sampaio, ressaltou que o 19 de maio será um “marco” para alertar sobre “abusos” do Estado contra as pessoas em situação de rua. Ele também citou a ADPF do Supremo Tribunal Federal (STF), afimando que a decisão reconhece uma “desorganização estrutural” que impede o brasileiro em situação de rua de ter acesso a direitos básicos.
Na opinião dele, a proposta de uma data nacional tenta colocar essas pessoas como protagonistas na construção de uma política pública efetiva.
— Esse projeto de lei recupera algo que o movimento e os defensores dos direitos humanos querem resgatar, que é o protagonismo dessa população. Nós, população que vive em sociedade, precisamos reconhecer essa luta.
O defensor Público do Distrito Federal Tiago Kalkmann, membro da Comissão de População em Situação de Rua da Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos (Anadep), enfatizou que o tratamento das pessoas em situação de rua sempre foi por meio da “repressão e controle”, e não por meio de uma política pública efetiva. Ao apontar que a Política Nacional para a População em Situação de Rua só surgiu após o massacre da Praça da Sé, ele questionou “o que mais precisaria ocorrer” para que essa política avance.
Assistência
Representando o Ministério do Desenvolvimento Social, Alyne Alvarez Silva evidenciou a necessidade de que criação de uma data venha acompanhada de respostas efetivas e urgentes, o que se faz, segundo ela. com a priorização da assistência social no orçamento público. Alyne é coordenadora de Projeto da Coordenação-Geral de Proteção Social Especial de Média Complexidade do Departamento de Proteção Social Especial da pasta.
Ela citou como exemplo de ação positiva a oferta do Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua, os chamados Centros POPs, que são espaços que oferecem guarda de pertences, higiene pessoal, alimentação e provisão de documentação civil. Os centros também funcionam como endereço institucional para utilização como referência. A intenção, segundo o ministério, é promover essa cidadania através da rede de sociabilidade.
No total, são 258 centros POPs espalhados pelo Brasil, o que não alcança 5% dos municípios brasileiros. Ela lembrou que o orçamento direcionado para os serviços de assistência atualmente é o mesmo aplicado desde 2013. O custo de um centro POP, segundo a coordenadora, é de R$ 23 mil para atender 200 pessoas por dia.
— Sem fortalecer o Suas [Sistema Único de Assistência Social], sem fortalecer os serviços da proteção básica e proteção social especial, dificilmente conseguimos construir uma saída qualificada dessas pessoas que estão em situação de rua.
Conscientização
O plano “Ruas Visíveis – Pelo direito ao futuro da população em situação de rua” foi lançado pelo governo federal em 2024, reunindo medidas como pontos de apoio às pessoas em situação de rua, cozinhas solidárias, capacitação de guardas municipais, mutirões para documentação civil e projetos de moradia.
A iniciativa depende da adesão dos municípios, o que não tem sido fácil, segundo o coordenador de Políticas para os Direitos da População em Situação de Rua do Ministério dos Direitos Humanos, Cleyton Luiz da Silva Rosa.
— Temos tido dificuldade em fazer o movimento atitudinal, que é o de [introduzir] na cabeça do gestor a necessidade de pensar na população em situação de rua. Algo que nos parece óbvio, mas não tem sido. Temos feito articulações para que haja a adesão ao termo de compromisso do “Ruas Visíveis”. Muitos municípios sequer respondem, ou não cumprem o que está pactuado — lamentou.
Cleyton reforçou a importância do diálogo entre os Poderes, em todas as instâncias, para que haja mais conscientização sobre o tema. Para ele, mais do que novas leis, é preciso garantir o que já está previsto nas legislações vigentes que, segundo ele, já asseguram dignidade, respeito e direitos fundamentais a essas pessoas.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Instalada Frente Parlamentar Mista das Startups e do Empreendedorismo Inovador
Com o objetivo de fomentar o surgimento e o avanço de empresas inovadoras no país, senadores e deputados instalaram, nesta quarta-feira (10), a Frente Parlamentar Mista das Startups e do Empreendedorismo Inovador (Fpstartups). O senador Chico Rodrigues (PSB-RR) foi eleito presidente do grupo e a deputada Laura Carneiro (PSD-RJ), a vice-presidente. Também vão compor a comissão-executiva os deputados Keniston Braga (MDB-PA), Paulo Litro (União-PR) e Deputado Marangoni (Podemos-SP) como segundo, terceiro e quarto vice-presidentes. O senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP) será o primeiro secretário.
Os parlamentares também aprovaram o estatuto e regulamento interno da Frente, que até o momento da instalação é composta por quatro senadores e cinco deputados federais. Outros parlamentares podem aderir ao grupo a qualquer momento.
A Frente foi criada a partir do projeto de resolução (PRS 18/2025) do senador Chico Rodrigues (PSB-RR), aprovado na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) no último dia 6 de maio e promulgado pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, no dia 18 do mesmo mês (Resolução nº 6/2026).
A norma estabelece seis eixos principais de atuação: fomentar um ecossistema nacional de empresas emergentes inovadoras, mediante a propositura de iniciativas legislativas capazes de promover um ambiente favorável ao surgimento e ao desenvolvimento de startups no Brasil; revisar e aperfeiçoar a legislação vigente em prol de segurança jurídica e menores custos de transação para investidores institucionais e empreendedores; incentivar o investimento nacional e estrangeiro no ecossistema de startups brasileiro, por meio da criação ou do aperfeiçoamento de arranjos societários e tributários adequados às necessidades das startups; articular um diálogo permanente entre o Poder Legislativo, as universidades e institutos de ciência e tecnologia, as startups e os investidores, com vistas a estimular iniciativas de inovação tecnológica e empresarial; propor e monitorar periodicamente um conjunto de indicadores que revelem a evolução dos resultados e do desempenho do ecossistema nacional de startups.
Desafios dos empreendedores
Após ser eleito presidente, o senador Chico Rodrigues destacou em seu discurso que os desafios enfrentados pelos empreendedores brasileiros dialogam cada vez mais com desafios e oportunidades de toda a América Latina, região que possui enorme potencial para se consolidar como um dos grandes polos globais de tecnologia e empreendedorismo.
Segundo o parlamentar, a criação da frente parlamentar parte de uma constatação de que as startups deixaram de ser uma promessa do futuro para se tornarem uma realidade do presente.
— Em poucos anos, vimos empresas inovadoras transformarem mercados inteiros, criarem soluções inéditas, ampliarem o acesso a serviços essenciais e contribuírem para a modernização do mundo e da economia brasileira. Hoje estão revolucionando a saúde, a educação, o agronegócio, o setor financeiro, a mobilidade urbana. A sustentabilidade ambiental a logística e tantos outros segmentos. Mais do que a empresa de tecnologia, elas representam uma nova forma de pensar e resolver problemas — ressaltou.
O senador disse ainda que são empreendedores que identificam desafios antigos e encontram soluções novas, e são jovens que transformam conhecimento em oportunidade, ressaltando a importância dos profissionais que assumem riscos para gerar inovação, emprego, e desenvolvimento.
— E são investidores que apostam na capacidade criativa dos brasileiros. Por trás de cada startup, existe uma história de coragem de perseverança e de confiança no futuro do país. O empreendedorismo inovador é uma das maiores ferramentas de transformação econômica e social à disposição do Brasil. Elas servem empregos qualificados, atraem investimentos, aumentam a produtividade, fortalecem a competitividade nacional e ampliam nossa capacidade de competir em um mercado global cada vez mais intenso e dinâmico. Mas seu impacto vai além de indicadores econômicos, quando a startup desenvolve uma solução para ampliar o acesso à educação, melhorar o atendimento médico, facilitar o crédito para pequenos empreendedores, reduzir desperdícios ou tornar serviços públicos mais eficientes, está ajudando a enfrentar problemas históricos do nosso país.
Descentralizar a inovação no Brasil
Eleito terceiro vice-presidente, o deputado Keniston Braga parabenizou a iniciativa de criação da frente parlamentar e disse que um dos propósitos do trabalho será a descentralização da inovação tecnológica fora dos grandes centros e o fortalecimento das startups na região da Amazônia legal, por exemplo.
— Já existem tecnologias que vão ao encontro de uma necessidade extrema, de uma população que a gente chama de população ribeirinha, na nossa Amazônia, para a educação, e para a saúde. Temos certeza que as startups são capazes de desenvolver ferramentas que vão aproximar, diminuindo as dificuldades de acesso à educação e à saúde que tem um povo ribeirinho […] sabemos da importância dessa democratização da participação num ambiente sócio-econômico das startups e da de toda essa inovação tecnológica no ambiente da Amazônia legal.
Marco Legal das Startups e I.A
Alan da Silveira, diretor de Relações Governamentais da Aliança Latino-americana de Startups (ALAS), afirmou que o Brasil lidera o ecossistema de startups na América Latina, e que a construção das políticas públicas no Brasil são um exemplo para os outros países da região.
Segundo ele, o país tem avançado bastante nos últimos anos, principalmente com o Marco Legal das Startups e as compras públicas de solução inovadora, mas ainda há muita coisa que se discutir no regime das startups.
— Agora iniciaremos um processo muito importante de discussão do marco da inteligência artificial e eu acho que a frente parlamentar se coloca na liderança dessa discussão, se coloca na posição de avançar sobre isso — afirmou Silveira, que foi convidado para integrar a comissão-executiva da frente parlamentar como secretário-executivo.
Financiamento
Na questão de financiamento das startups, Tulio Marques Junior, vice-presidente de negócios internacionais da Associação Nacional de Startups do Brasil (Anstartup) afirmou que o Brasil pode se inspirar nos modelos de países como Coreia do Sul, Portugal e Holanda, que fazem uma atuação conjunta entre setor privado e Estado.
— O capital estatal, na maioria das vezes, nem é o principal capital. Isso pela experiência que eu conheço deles, dá uma coisa que nós precisamos muito, em que o desenvolvimento de um setor na economia não dependa exclusivamente do governo e das prioridades do governo que acabou de ser eleito ou que foi eleito. Isso dá uma perenidade ao modelo, então uma das sugestões que eu acho que a gente pode desenvolver é um modelo nesse sentido.
Ele disse ainda que é preciso desenvolver formas de como organizar internamente e melhorar a governança das startups, de modo que a sobrevida delas aumente.
O que é uma frente parlamentar
Uma frente parlamentar é um grupo suprapartidário de senadores e/ou deputados que se organiza para defender e impulsionar uma pauta específica (saúde, segurança, agro, direitos das mulheres etc.). Não é um órgão de decisão como uma comissão, mas atua como articuladora política e técnica. Entre as ações de sua atuação, está a articulação e o fortalecimento político para construir maioria e alinhamento para aprovar projetos e o diálogo com líderes e comissões para influenciar a pauta do Congresso.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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