DISCURSO CONTRADITÓRIO
Esposa de Medeiros ocupa cargo na Presidência do Senado desde 2019, enquanto senador endurece discurso contra a Casa
Ruth Shizue Yamamoto Medeiros é servidora efetiva da Prefeitura de Rondonópolis e está cedida ao Senado; parlamentar sustenta que cessão é regular e nega qualquer irregularidade
Com informações do jornalista Pablo Rodrigo na coluna a parte a gazeta
O senador e candidato à reeleição José Medeiros (PL-MT) tem adotado um discurso mais crítico em relação à atuação do Senado Federal diante do Supremo Tribunal Federal (STF), mas evita direcionar as mesmas críticas ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP). A situação ganha um componente político: a esposa de Medeiros, Ruth Shizue Yamamoto Medeiros, ocupa desde 2019 um cargo comissionado na estrutura da Presidência do Senado.
As informações foram publicadas pelo jornalista Pablo Rodrigo. Conforme a reportagem, Ruth é servidora efetiva da Prefeitura de Rondonópolis e ingressou no serviço público municipal em abril de 2002, no cargo de especialista em saúde.
Segundo os dados citados na publicação, Ruth permanece com vínculo ativo com o município e está cedida ao Senado Federal desde 2019, mesmo ano em que Medeiros assumiu seu primeiro mandato como deputado federal.
A reportagem aponta ainda que Davi Alcolumbre, durante sua primeira passagem pela Presidência do Senado, foi quem nomeou Ruth. Sete anos depois, consulta ao Senado citada na publicação mostra que ela permanece como servidora comissionada ativa, na função de Ajudante Parlamentar Júnior (AP-01).
Na Prefeitura de Rondonópolis, conforme os dados apresentados na reportagem, Ruth possui salário bruto de R$ 16.989,58, com jornada registrada de 30 horas semanais.
O cenário evidencia o contraste entre o discurso político adotado por Medeiros e a situação funcional de sua esposa. Enquanto o parlamentar cobra publicamente uma postura mais dura do Senado diante do STF, Ruth permanece há anos vinculada à estrutura da Presidência da Casa comandada por Alcolumbre.
OUTRO LADO
Procurado pela reportagem original, José Medeiros afirmou não possuir qualquer vínculo funcional ou administrativo com o Senado e declarou que a cessão de Ruth é um procedimento regular da administração pública.
Segundo a defesa apresentada, o vínculo é antigo, público e formal, sem qualquer fato novo ou irregularidade. A campanha também acusa adversários de tentarem atingir Medeiros por meio da exposição de sua esposa durante o período eleitoral.
A reportagem não aponta que a cessão, por si só, seja irregular. O questionamento apresentado está no campo político: o contraste entre o endurecimento do discurso de Medeiros contra a atuação do Senado e a manutenção de sua esposa, desde 2019, em função vinculada à estrutura da Presidência da Casa.
POLÍTICA MT
TCE alerta para risco de fechamento do CAMPI em Várzea Grande
Dificuldades financeiras interromperam atendimentos e colocam em risco a continuidade da assistência especializada a crianças com autismo e outros transtornos do neurodesenvolvimento
O Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT) alertou para o risco de fechamento do Centro de Atividades Multidisciplinar de Apoio Pedagógico Inclusivo (CAMPI), em Várzea Grande, diante das dificuldades financeiras enfrentadas pela unidade. O espaço é responsável pelo atendimento especializado de centenas de crianças da rede municipal.
O alerta foi feito pelo presidente do TCE-MT, conselheiro Sérgio Ricardo, que esteve no CAMPI nesta segunda-feira (14), acompanhado dos auditores Denisvaldo Mendes Ramos e Sérgio Sales. A visita ocorreu após a unidade suspender os atendimentos na sexta-feira (11), devido a atrasos nos repasses da Prefeitura de Várzea Grande. Os serviços foram retomados na segunda-feira.
Atualmente, o CAMPI atende 348 alunos da rede municipal e conta com uma equipe multiprofissional formada por neurologista, psicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta e terapeuta ocupacional. O contrato mantido com a Prefeitura prevê atendimento a estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), deficiências múltiplas, TDAH e outros transtornos do neurodesenvolvimento.
A situação da unidade faz parte de uma auditoria mais ampla realizada pelo TCE sobre o atendimento oferecido a crianças autistas e neurodivergentes em Mato Grosso. O levantamento, conduzido pela Comissão de Políticas Públicas do Tribunal, ouviu quase 200 famílias de Cuiabá, Várzea Grande, Sinop, Sorriso, Rondonópolis e Cáceres.
Entre os dados levantados, 90,3% das famílias entrevistadas afirmaram já ter enfrentado interrupções no tratamento. Em aproximadamente metade desses casos, os responsáveis precisaram recorrer à Justiça para tentar garantir a continuidade da assistência.
O transporte também aparece como um dos principais obstáculos. Segundo o levantamento, 80% das famílias disseram já ter deixado de levar os filhos ao tratamento por falta de dinheiro para o deslocamento. Outros 71% afirmaram que a distância até os locais de atendimento prejudica o acompanhamento.
A pesquisa também revelou preocupação das famílias com o futuro das crianças. Ao todo, 97,2% dos entrevistados disseram não saber onde os filhos serão atendidos depois dos 14 anos, evidenciando uma lacuna na continuidade da assistência especializada.
Em Várzea Grande, o TCE identificou ainda uma diferença significativa nos números relacionados às crianças com autismo. Dados do Ministério da Educação apontavam 1.211 crianças no município, enquanto levantamento mais recente da Prefeitura indicava aproximadamente 2,3 mil.
A falta de atendimento adequado também contribui para o aumento da judicialização. Conforme dados apresentados pelo presidente do TCE, somente em Rondonópolis, ações judiciais relacionadas a tratamentos para pessoas com autismo representam um custo anual estimado entre R$ 16 milhões e R$ 18 milhões.
Em todo Mato Grosso, demandas judiciais relacionadas à reabilitação infantil movimentaram aproximadamente R$ 32 milhões entre 2024 e 2025.
A auditoria do TCE ainda está em andamento e pretende mapear a estrutura disponível nos municípios, identificar falhas na prestação dos serviços e cobrar medidas para garantir a continuidade do atendimento às crianças e às famílias.
Diante desse cenário, a situação do CAMPI em Várzea Grande passa a ser tratada como parte de um problema mais amplo na rede de atendimento especializado do Estado, com impacto direto na rotina das famílias que dependem desses serviços.
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