MEMÓRIA E TRANSFORMAÇÃO
25 anos após o 11 de Setembro, Nova York revela uma cidade marcada pelo passado e pela mudança
Eleição de um prefeito muçulmano, divulgação de documentos sobre a poeira tóxica e antigas histórias de islamofobia expõem as contradições que atravessaram a cidade desde os atentados
Vinte e cinco anos depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, Nova York continua convivendo com as marcas deixadas pela tragédia. Mortes, doenças, disputas políticas e episódios de preconceito fazem parte de uma história que também revela profundas transformações sociais na cidade.
Entre os acontecimentos que ajudam a compreender esse percurso estão relatos de pessoas que foram injustamente tratadas como suspeitas após os ataques. Um deles envolve Uday Menon, consultor de tecnologia nascido na Índia e morador dos Estados Unidos.
Pouco depois do 11 de Setembro, Menon telefonou para comprar ingressos para um espetáculo da Broadway. Durante a conversa, perguntou sobre a localização dos assentos. O sotaque, o nome estrangeiro e suas perguntas foram interpretados pela atendente como possíveis sinais de uma ameaça de bomba.
A polícia foi chamada. Na noite seguinte, quando Menon chegou ao teatro acompanhado da mulher, grávida de sete meses, foi cercado por policiais e agentes do FBI, colocado no chão e algemado.
Outro episódio citado é o de Muhammad Rafiq Butt, paquistanês de 55 anos que vivia no Queens. Ele foi denunciado por um pastor que morava próximo e acabou detido. Segundo o relato, o FBI concluiu em 24 horas que não havia indícios de envolvimento dele com os atentados. Mesmo assim, Butt permaneceu preso por questões migratórias e morreu posteriormente em um centro de detenção de Nova Jersey.

O preconceito depois da tragédia
Os casos passaram a representar o clima de islamofobia que se espalhou pelos Estados Unidos após os atentados. A suspeita contra muçulmanos e imigrantes tornou-se uma das consequências sociais mais controversas daquele período.
Ao mesmo tempo, a trajetória política de Nova York também mudou.
Rudolph Giuliani, prefeito durante os ataques, tornou-se símbolo da reação da cidade à tragédia e ganhou enorme popularidade. Anos depois, porém, sua imagem sofreu forte desgaste devido à atuação política ao lado de Donald Trump e às controvérsias envolvendo a tentativa de contestar o resultado da eleição presidencial de 2020.
Hoje, a prefeitura é ocupada por Zohran Mamdani, eleito em novembro de 2025 como o primeiro muçulmano a chegar ao cargo pelo voto.
Mamdani nasceu em Uganda, é filho de indianos e foi criado nos Estados Unidos. Tinha nove anos quando ocorreu o 11 de Setembro e vivia em Manhattan, onde acompanhou de perto a transformação provocada pelos ataques.
Documentos sobre a poeira tóxica
Em uma das iniciativas mais recentes de seu governo, a prefeitura tornou públicas cerca de 170 mil páginas relacionadas à qualidade do ar após a queda das torres do World Trade Center.
O material faz parte de um acordo que encerrou disputas judiciais envolvendo o acesso aos documentos. Segundo autoridades e representantes das vítimas, os registros reforçam evidências de que havia alertas sobre os riscos da poeira tóxica enquanto moradores, trabalhadores e empresas eram estimulados a retornar ao sul de Manhattan.
Milhares de bombeiros, policiais, socorristas, trabalhadores e civis foram expostos à poeira e aos contaminantes. Muitos desenvolveram doenças relacionadas à exposição e alguns morreram anos depois.
A divulgação dos documentos também lança novas dúvidas sobre a transparência da administração Giuliani diante dos riscos existentes no Marco Zero.
Uma cidade que mudou
A transformação de Nova York pode ser percebida até mesmo na paisagem e nos costumes da cidade.
No dia seguinte aos ataques, relatos descreviam o ar do entorno dos escombros tomado por pó branco, fumaça preta e um forte cheiro de queimado.
Duas décadas depois, o cenário era completamente diferente. A cidade havia passado por profundas mudanças culturais e sociais, apresentando novos hábitos e uma realidade urbana distante daquela manhã de setembro de 2001.
Agora, 25 anos depois dos atentados, Nova York continua carregando seus mortos e seus doentes, além das contradições daquele período. Mas também conseguiu produzir uma transformação política significativa: eleger democraticamente um muçulmano para comandar a cidade apenas uma geração depois de um atentado cometido por terroristas que afirmavam agir em nome do islã.
A história de Nova York, portanto, não é apenas a história de uma cidade destruída e reconstruída. É também a trajetória de uma sociedade que enfrentou medo, preconceito, disputas políticas e consequências ambientais e que, ao longo de um quarto de século, mudou profundamente.
O cheiro de Nova York, agora, é o da mudança.
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