CUIABÁ
Fica declarada a cidade de Cuiabá a nova capital de Mato Grosso (1835)
       Como apresentamos no artigo anterior, os cuiabanos sentiram-se injustiçados quando Portugal optou por fundar uma nova vila para ser a capital da recém-criada Capitania de Mato Grosso (1748), ao invés de escolher a Vila Real de Cuiabá para tal desígnio. Havia no período o interesse de Portugalem resguardar as suas possessões na América, mas ainda é possível afirmar a intenção em não fortalecer os poderes locais em formação. Sustenta o historiador André Nicácio Lima que com essa opção estariam ainda, a duas vilas, exercendo o papel de vigiar as ações uma da outra, na medida em denunciariam eventuais traições contra a Coroa.
            Foi por preterir Cuiabá para ser a capital, por não conceder privilégios aos seus moradores e autoridades em detrimentos das inúmeras concessões aos vilabelenses, que instalou-se, de acordo com a historiadoraNauk de Jesus, uma grande rivalidade entre as vilas e as suas câmaras. Os camaristas (oficiais da câmara)cuiabanos buscaram por vezes a concessão de isenções fiscais e de benefícios pessoais que trariam poder e ascensão social, mas sem qualquer êxito. Viram sim, gradualmente, o fortalecimento da capital com a ida das instituições administrativas e a decisão dos governadores de estabelecerem em Vila Bela tudo que fosse necessário para o sucesso do projeto expansionista português.
            A partir de Vila Bela a capitania era administrada pelos governadores, que estavam atentos à rivalidade entre as vilas e às tentativas de convencimento para a transferência da capital. D. António Rolim de Moura (1748—1762) advertiu o sucessor, o seu sobrinho João Pedro da Câmara (1763-1768), recomendando que ele permanecesse na capital, indo a Cuiabá somente se necessário a pedido do rei. Diferente do seu tio, João Pedro Câmara chegou à capital pelo rio Madeira, não passando por Cuiabá. Ele e os governadores que o sucederam agiram de forma a fortalecer a fronteira, militarizando-a, estruturando a capital, instalando órgãos administrativos e povoando com a fundação de arraiais e vilas.
Conta-nosNauk de Jesus que, no entanto, havia por parte dos cuiabanos campanhas para evitar a ida de pessoas para Vila Bela, alegando principalmente a insalubridade na região. Diante desse processo, afirma Nauk, Cuiabá foi se tornando o lugar de oposição à consolidação de Vila Bela, sendo a sua câmara um dos espaços em que essa disputa se evidenciava. Diz a historiadoraque os cuiabanos utilizaram de diversas artimanhas para se tornarem cabeça da capitania. Os camaristas “enviaram petições (ao rei) clamando o retorno das instituições administrativas (…) pois, caso isso ocorresse, poderia ser possível negociar com a Coroa a mudança da capital”. Reforçaram a imagem de Vila Bela como o pior lugar para se morar, assim como fizeram alianças com autoridades mais próximas ao rei, procurando se fortalecer e ir contra a autoridade estabelecida na capital.
            Tem-se o registro que o governador Manoel Carlos de Abreu e Menezes (1802-1805) sugeriu em seu governo a transferência da capital para Cuiabá. Além do caráter doentio de Vila Bela,justificou o governador, Cuiabá tinha uma população maior, as minas eram mais abundantes, o que rendia mais impostos, e a vila estaria em um lugar central, mais distante dos riscos de invasão. Anos depois, foi o último governador da capitania, Francisco de Paula Magessi (1819-1821), que se manifestou a respeito da transferência da sede da capital. Muito embora, afirma Rubens de Mendonça, tenha sido desastrosa a sua administração, Cuiabá deve a ele a sua categoria de capital, pois “foi Magessique requisitou do Governo Central a mudança da capital, alegando como razão principal a insalubridade do clima”. Lenine Póvoas afirma que o governador se recusou a ir para Vila Bela, e ressalta que dois governadores faleceram na capital, vítimas de doenças endêmicas da região, o que fortaleceria a proposta.
            Anos antes, em Portugal, o rei D. João VI via-se encurralado pelo imperador francês Napoleão Bonaparte. Na sua luta contra a Inglaterra, Napoleão decretou o bloqueio continental (1806),o qual proibia os países da Europa decomercializarem com a Inglaterra, ameaçando-os com uma ocupação e destituição dos seus poderes. Por outro lado, Portugal tinha importantes acordos comerciais com os ingleses, os quais convenceram D. João VI a fugir de Portugal e transferir a sede do reino para o Brasil. No dia 27 de novembro de 1807 o rei fugiu de Lisboa, ficando a população abandonada, subjulgadapelas tropas francesas que chegaram no mês seguinte.
            A Corte portuguesa chegou no Rio de Janeiro em 7 de março de 1808. Sob a influência política e econômica da Inglaterra, o rei deu fim ao comércio exclusivo entre Brasil e Portugal (exclusivismo comercial). Sem a riqueza vinda da colônia,Portugal passou por uma grave crise econômica. Foi iniciado anos depois, sob a liderança da burguesia portuguesa, um movimento que resultou na Revolução Liberal do Porto (1820). O movimento vitorioso defendia a criação de uma monarquia constitucional, exigia o retorno da família real e o restabelecimento do Brasil como uma colônia. Temendo que a dinastia da sua família perdesse o reinado, em fevereiro de 1821, D. João VI jurou as bases da constituição a ser elaborada. Após certa resistência, o rei deixou o Brasil em 26 de abril de 1821. Desobedecendo as ordens dos revolucionários portugueses, o rei deixou o seu filho D. Pedro como Príncipe Regente do Brasil.
Nesse período era Magessi o governador da capitania de Mato Grosso.Elesofria com a oposição dos defensores da emancipação política do Brasil. No dia 18 de agosto de 1821,o comerciante cuiabano Antônio Navarro de Abreu chegou em Cuiabá, vindo de Goiás, com a notícia de que D. João VI havia jurado as bases da constituição portuguesa e retornado para Portugal, e que governos provisórios contrários às ordens de Portugal foram estabelecidos em outras capitanias. O resultado disso, aponta André Nicácio Lima, é que dois dias depois Magessi foi informado de que não era mais o governante da capitania e que uma Junta governativa havia sido criada com lideranças de Cuiabá. Já Vila Bela, alheia aos acontecimentos, assim que soube, decidiu criar a sua Junta no dia 11 de setembro, ficando estabelecido um novo episódio de rivalidade, mas agora com uma categórica divisão. Chegada a independência do Brasil em 7 de setembro de 1822e empossado o Imperador D. Pedro I, este nomeou João Saturnino da Costa Pereira (1825-1828) como presidente da nova Província de Mato Grosso (a denominação de província foi criada na constituição de 1824), dando fim às duas juntas governativas que estavam instaladas em Mato Grosso, e permanecendo Vila Bela como capital.
Muito embora Vila Bela tenha sido mantida como capital, gradualmente algumas instituições administrativas e fiscais retornaram para Cuiabá. Os presidentes da província optaram por permanecer em Cuiabá, despertando em Vila Bela o desejo de criar até mesmo uma nova província. Sendo assim, percebe-se que ocorria um processo de transferência das vivências. Com a definição das fronteiras internacionais, voltaram-se os olhares para Cuiabá, que conectava-se mais com os centros políticos, onde a economia estava mais desenvolvida e a população era mais numerosa. Lenine Póvoas insiste que teria sido a má fama sanitária de Vila Bela que teria deslocado para Cuiabá, mas é necessário perceber que não tratou-se de uma rejeição a uma região, mas sim a lógica de tornar a cidade de Cuiabá a capital da província porque os fatos políticos relevantes ocorriam nela, a exemplo, a Rusga (1834), movimento de revolta dos brasileiros contra os comerciantes portugueses, na luta a favor de uma nação verdadeiramente independente, e não administrada por imperadores portugueses.
De toda forma, foi por decisão do 3º presidente da província de Mato Grosso, Antônio Pedro de Alencastro (1834-1835), que em 28 de agosto de 1835 Cuiabá passou definitivamente a ser capital de Mato Grosso. Eis o teor da Lei: “Faço saber a todos os habitantes, que a Assembleia Legislativa Provincial decretou, e eu sanciono a Lei seguinte: Art. 1º Fica declarada Capital da Província de Mato Grosso a cidade de Cuiabá”. Concretizava-se Cuiabá, que já era capital de fato, afirma Lenine Póvoas, como a capital legal de Mato Grosso.
 O caráter de um artigo para um site de comunicação não nos permite adentrar e discutir detalhadamente os acontecimentos. Mas vale questionar a principal justificativa dos antigos historiadores para a mudança da capital, a qual seria a insalubridade de Vila Bela. Para o período, a fim dos cuiabanos terem a sua cidade como a capital, era válido pôr temor nas pessoas sobre aquele local que traria morte por conta de doenças e riscos de invasão por parte dos colonos espanhóis. Entendemos que haviam motivos mais plausíveis para a transferência, como a definição dos limites de fronteira, o fortalecimento do eixo comercial por Cuiabá e a população mais numerosa, aspectos inclusive apresentados, contemporaneamente, pelo governador da capitania Manoel Carlos de Abreu e Menezes (1802-1805).
Vale ainda ressaltar que a transferência da capital da província foi uma enorme vitória para os cuiabanos. Não tratou-se de uma correção de uma injustiça, pois tiveram motivos reconhecidamente justificáveis para a criação de uma vila mais a oeste para ser a capital, representada como a sede do poder português na região, onde o mais alto representante real da capitania, o governador, estaria instalado. Portanto, a cidade de Vila Bela e aqueles que lá se estabeleceram, acabaram sendo importantíssimos para os projetos de alargamento das fronteiras portuguesas e inclusive para a constituição do imenso território mato-grossense, que por dois séculos compreendeu o território dos atuais estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia.Finalizamos lembrando que, por reconhecimento do seu importante papel, a cidade deVila Bela da Santíssima Trindade é, todo dia 19 de março, a capital simbólica do estado de Mato Grosso (Lei Estadual nº 10.377/2016), uma justa homenagem.
 
Autor: Danilo Monlevade
Analista Legislativo
Câmara Municipal de Cuiabá    
 
Fontes de pesquisa:
CORRÊA FILHO, Virgílio. História de Mato Grosso. Cuiabá-MT: SEC-MT, Defanti, 2012.
Entrevista com a HistoriadoraDra. Leny CaselliAnzai (UFMT) em setembro de 2024.
JESUS, Nauk Maria de. O governo local na fronteira oeste: a rivalidade entre Cuiabá e Vila Bela no século XVIII. Dourados-MS: Ed. UFGD, 2011.
LIMA, André Nicássio. Caminhos da integração, fronteiras da política: a formação das províncias de Goiás e Mato Grosso. Tese de Doutorado. São Paulo-SP: USP, 2010.
MENDONÇA, Rubens de. História de Mato Grosso. 4ª Edição. Cuiabá-MT: Fundação Cultural de Mato Grosso, 1982.
PÓVOAS, Lenine. Síntese de História de Mato Grosso. 2ª Edição. Cuiabá-MT: IHGMT, 1992.
SIQUEIRA, Elizabeth Madureira. História de Mato Grosso: da ancestralidade aos dias atuais. Cuiabá-MT: Entrelinhas, 2002.
 
Fonte: Câmara de Cuiabá – MT
CUIABÁ
Parque da Família recebe vistoria técnica e avança para entrega com nova estrutura de lazer na região Norte
O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, liderou uma visita técnica ao Parque da Família, na Avenida Vereador Juliano da Costa Marques, na região Norte da capital, para acompanhar o andamento das obras de modernização do espaço, neste sábado (22). O campo de grama sintética, alguns brinquedos e a academia ao ar livre já estão disponíveis para uso da comunidade. A entrega total deve acontecer em até 30 dias, devido ao projeto ter sido incrementado com o campo de areia. A vistoria contou com a presença da primeira-dama Samantha Iris, do governador Otaviano Pivetta, além de secretários municipais e equipes envolvidas na execução do projeto e vereadores da Capital.
Com aproximadamente 32 mil metros quadrados, o Parque da Família está quase em pleno funcionamento, depois de passar por uma ampla transformação para ampliar as opções de esporte, lazer e convivência para os moradores dos bairros Bela Vista, Canjica, Terra Nova e de outras comunidades da região. Aproximadamente R$ 400 mil foram investidos no local, em parceria com o Governo do Estado, com o objetivo de dar o tom de um parque da família e para a família.
Entre as principais melhorias está o novo campo de futebol society com grama sintética e sistema de iluminação. O espaço foi projetado para receber atividades esportivas gratuitas e também poderá ser utilizado por projetos comunitários, como o Bom de Bola, Bom de Escola, com apoio da Secretaria Municipal de Educação, que agrega Cultura, Esporte e Lazer.
Durante a vistoria, o prefeito também acompanhou o resultado da implantação de novos equipamentos de lazer. O parque contará com playground, com seis conjuntos temáticos da fauna para as crianças, mobiliários urbanos, como mesa para futebol de mesa e pingue-pongue, piso emborrachado, conjunto de academia ao ar livre e conjunto de academia voltado ao público da terceira idade.
“A proposta é oferecer ambientes acessíveis e gratuitos para diferentes faixas etárias. É para as famílias, para que tenham esse sentimento de pertencimento, é para as pessoas. Ninguém cuida do que não é seu. Esse sentimento de pertencimento desperta o desejo de ajudar a cuidar do local”, frisou o governador Otaviano Pivetta.
O prefeito Abilio Brunini ressaltou que o local terá apoio de policiamento por meio de câmeras de monitoramento e que a iluminação também será ampliada. A manutenção do espaço terá o apoio da Prefeitura de Cuiabá, por meio da Limpurb.
O casal Maria Luiza da Silva Santos, 69 anos, e Manoel Urcino dos Santos, 96 anos, além de dona Vanil Magalhães de Amorim, 67 anos, já testaram os equipamentos. “Esse Parque foi uma bênção para nós”, destacaram.
Bem-humorado, Manoel disse que gosta muito de caminhar e de comer à vontade, e que o Parque da Família ficou excelente para a prática da caminhada.
“Todos os dias, às 6h da manhã, estamos aqui em um grupo de pessoas fazendo atividades. É magnífico”, relatou Vanil.
José Nunes Duarte, 62 anos, é morador do bairro Canjica e já desfruta do Parque desde que as melhorias foram chegando para fazer caminhadas. Ele destacou que o campo ficou “bom demais”.
Mais integração com a comunidade
Uma das mudanças que chamou a atenção dos moradores foi a retirada das grades no entorno do parque. A medida trouxe uma nova perspectiva ao espaço, ampliando a sensação de liberdade, integração e pertencimento da comunidade.
A intervenção faz parte da proposta de readequação dos cercamentos, com o objetivo de aproximar o parque do entorno urbano. A proteção será mantida nos trechos considerados necessários, especialmente nas áreas próximas às vias de trânsito, garantindo segurança sem comprometer a integração do espaço público.
Com campo society, quadras de areia, playground, academia ao ar livre, iluminação e áreas de convivência, o parque deverá ampliar as oportunidades de prática esportiva, recreação e convivência comunitária na região Norte da capital.
“Durante a visita técnica, eu conversava com um morador da região, que expressou a alegria de ter um campo com essa qualidade aqui no bairro. Um espaço como este incentiva as crianças a praticarem esporte, a brincarem, a ocuparem o tempo de forma saudável e, principalmente, a se manterem afastadas de situações de vulnerabilidade e de atividades ilícitas”, relatou o secretário municipal de Esportes, Mateus Silva Alves.
Para o secretário, a declaração emocionou bastante, porque foi possível ver, na prática, dezenas de crianças utilizando o espaço, inclusive de um projeto social desenvolvido no bairro, treinando futebol. “São crianças que podem, futuramente, encontrar no esporte uma profissão, um caminho de transformação e novas oportunidades. Para nós, da Secretaria de Esportes, é uma alegria imensa poder participar desse processo e entregar à população um campo com essa estrutura, que representa muito mais do que um espaço para jogar futebol. Representa oportunidade, inclusão e transformação social”, destacou Mateus.
O secretário de Educação reforçou que “quando a Prefeitura de Cuiabá entrega um equipamento esportivo com a estrutura implementada no Parque da Família, está contribuindo diretamente com a comunidade, fortalecendo o esporte e criando alternativas para que nossas crianças e jovens tenham um espaço adequado para desenvolver seus talentos e ocupar seu tempo com atividades que promovem saúde, disciplina e cidadania”.
Fonte: Prefeitura de Cuiabá – MT
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