AGRONEGÓCIO
Café e inovação no campo impulsionam renda e produção no Norte
A combinação entre projetos agrícolas em escala e soluções técnicas desenvolvidas no próprio campo começa a alterar a base econômica de municípios da Amazônia Legal, historicamente dependentes de atividades extrativistas e de repasses públicos.
Em regiões com baixo dinamismo, a entrada de cadeias produtivas organizadas tem gerado efeitos que vão além da porteira, com impacto direto sobre emprego, renda e circulação de serviços. Levantamento do Tesouro Nacional mostra que mais de 70% dos municípios brasileiros dependem de transferências federais, proporção ainda maior na região Norte, o que amplia o efeito de qualquer atividade produtiva estruturada.
Um dos vetores dessa mudança é a expansão da cafeicultura. Projetos em andamento na Amazônia indicam salto relevante de renda por hectare: enquanto atividades tradicionais geram entre R$ 20 mil e R$ 60 mil anuais, o café pode superar R$ 90 mil por hectare, alterando o padrão de subsistência para geração efetiva de caixa. Além disso, trata-se de uma cultura intensiva em mão de obra, com maior demanda por trabalhadores em etapas como colheita e pós-colheita, o que amplia a geração de empregos locais.
No Brasil, a cadeia do café já responde por mais de 8 milhões de postos de trabalho, reforçando seu papel como vetor de renda no campo. Em paralelo, o efeito multiplicador amplia esse impacto: dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) indicam que cada R$ 1 gerado no campo pode movimentar até R$ 3,20 ao longo da cadeia, entre transporte, comércio e serviços.
Na outra ponta, soluções de baixo custo desenvolvidas dentro da própria rotina produtiva também têm contribuído para elevar eficiência. Na apicultura do Amapá, um manejo simples baseado em limpeza, controle manual de pragas e ajuste do ambiente produtivo tem reduzido perdas causadas pelo parasitóide Plega hagenella, que compromete colmeias de abelhas sem ferrão.
A prática, disseminada por técnicos do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), dentro da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), permitiu interromper perdas de enxames e aumentar a produtividade em poucas semanas, sem necessidade de investimento adicional relevante. O caso ilustra um ponto central para o avanço do agro na região: não é apenas escala que transforma a renda, mas a combinação entre tecnologia acessível, assistência técnica e organização produtiva.
No conjunto, esses movimentos indicam uma mudança estrutural em curso. A Amazônia, tradicionalmente vista como fronteira extrativa, passa a incorporar modelos produtivos baseados em geração de valor, com maior intensidade de trabalho, renda e integração de cadeias. O desafio agora é escalar esse processo sem perder eficiência econômica e equilíbrio ambiental — uma equação que, na prática, vai determinar a sustentabilidade real desses projetos no médio prazo.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Sustentabilidade avança e passa a influenciar crédito, mercado e custos do setor
A agenda de sustentabilidade deixou de ser apenas institucional e passou a afetar diretamente decisões de investimento, acesso a mercado e custo de produção — com impacto crescente também sobre o agronegócio. Levantamento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), em parceria com a empresa Humanizadas, mostra que 59% das companhias brasileiras já incorporam critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) à estratégia central dos negócios, enquanto 57% integram exigências regulatórias diretamente em decisões comerciais e financeiras.
Na prática, isso começa a chegar ao campo. A exigência por rastreabilidade, menor emissão de carbono e cumprimento de protocolos ambientais já influencia desde a concessão de crédito até o acesso a mercados internacionais, especialmente na cadeia de grãos, carnes e café. Para o produtor, o tema deixa de ser reputacional e passa a ter efeito direto sobre receita, financiamento e risco operacional.
O estudo, que ouviu 587 executivos — em sua maioria de médias e grandes empresas — indica que 87% das organizações já atuam com sustentabilidade, mas apenas 26% se consideram preparadas para atender às novas exigências. Esse descompasso revela um ponto central: a agenda avançou mais rápido na intenção do que na execução, o que tende a aumentar a pressão sobre cadeias produtivas, incluindo fornecedores do agro.
O principal entrave é econômico. Embora 74% das empresas reconheçam valor na sustentabilidade, só 34% conseguem medir retorno financeiro de forma estruturada. Para 44% dos executivos, transformar práticas ambientais em resultado concreto ainda é o maior desafio. No agro, essa conta aparece no custo de adaptação — seja na adequação ambiental, seja na adoção de tecnologias para redução de emissão ou melhoria de eficiência.
Outro dado relevante é que 71% das empresas ainda não reduzem nem compensam emissões de carbono, enquanto temas como clima e biodiversidade seguem em segundo plano. Em contrapartida, inovação e tecnologia lideram as prioridades, com 59% de atenção, justamente por apresentarem retorno mais direto em produtividade e redução de custos — lógica que também se repete dentro da porteira.
A fragilidade na gestão de dados reforça esse cenário. Segundo o levantamento, 68% das empresas não publicam relatórios de sustentabilidade e 73% não atualizam suas matrizes de materialidade, o que dificulta transformar exigências ambientais em indicadores financeiros claros. Para o agro, isso significa maior risco de assimetria: o produtor passa a ser cobrado, mas nem sempre tem clareza sobre como essa exigência se converte em preço ou vantagem comercial.
A pesquisa também mostra que apenas 31% das empresas monitoram riscos ligados à sustentabilidade e 28% acompanham oportunidades. Na prática, isso indica que boa parte do mercado ainda reage à pressão regulatória, em vez de antecipar movimentos — um comportamento que tende a se refletir nas cadeias produtivas.
Apesar dos desafios, os efeitos econômicos já são percebidos. Entre as empresas, 74% apontam fortalecimento de reputação, 65% maior eficiência no uso de recursos e 60% redução de custos como principais ganhos da agenda. No agro, esses fatores aparecem, por exemplo, na melhoria da gestão de insumos, uso mais eficiente de água e energia e acesso a programas de financiamento com critérios ambientais.
No cenário externo, a tendência é de aumento dessa pressão. A realização da Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30, em Belém, em 2025, foi utilizada por 37% das empresas para ampliar parcerias e posicionamento institucional, indicando que a agenda ambiental deve ganhar ainda mais peso na definição de mercados e fluxos de investimento.
Para o produtor rural, o movimento é claro: sustentabilidade deixa de ser diferencial e passa a ser requisito. A capacidade de atender a essas exigências — com controle de custo e ganho de eficiência — tende a definir não apenas competitividade, mas também acesso a crédito e mercado nos próximos anos
Fonte: Pensar Agro
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