TECNOLOGIA
Mudanças climáticas colocam biomas brasileiros no centro do debate na Casa da Ciência
A Casa da Ciência, instalada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação no Museu Paraense Emílio Goeldi durante a COP30, recebeu nesta segunda-feira (17) a mesa redonda Biodiversidade e Restauração Ecológica, que colocou lado a lado conhecimentos técnicos, saberes tradicionais e tecnologias de ponta. O encontro mapeou desafios práticos — do preparo do solo ao retorno da fauna — e destacou que restaurar é, ao mesmo tempo, ciência, política e economia local.
A especialista do Instituto Socioambiental (ISA) Danielle Celentano iniciou o debate lembrando que restauração é ação intencional e que a conservação continua sendo prioridade. Segundo ela, a restauração deve ser parte de estratégias maiores, além de respeitar saberes tradicionais. “Restauração ecológica é o processo intencional de apoiar o restabelecimento de um ecossistema degradado, danificado ou destruído; não é paliativo. Conservar é sempre a prioridade, e os modos de vida dos povos indígenas e das comunidades tradicionais são referência para manter e recuperar a floresta”, afirmou.
Os participantes da mesa destacaram as metas globais e brasileiras para a restauração, com ênfase nos compromissos internacionais que colocam o tema no centro das agendas de clima e biodiversidade. Entre eles, está o compromisso assumido pelo Brasil de restaurar 12 milhões de hectares até 2030, alinhada a acordos multilaterais que tratam a restauração como uma solução baseada na natureza — sempre condicionada à existência de territórios seguros, processos de demarcação e apoio efetivo às gestões locais.
Do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, Emiliano Ramalho trouxe o olhar da ciência feita dentro da Amazônia e o papel do monitoramento da fauna para avaliar resultados de restauração. “Nós desenvolvemos metodologias de monitoramento, como a contagem do pirarucu feita por comunidades, e agora estamos integrando imagens e sons com inteligência artificial para saber rapidamente como a fauna volta às áreas restauradas”, explicou.
A pesquisadora do Instituto Tecnológico Vale, Sâmia Nunes, detalhou o potencial da vegetação secundária como estratégia para dar escala à restauração e alertou para a dinâmica rápida de ganho e perda dessas áreas. “A vegetação que surge após o desmatamento, a secundária, tem uma dinâmica muito grande. Mapear sua idade e quantas vezes foi desmatada é essencial para avaliar saúde da paisagem e planejar intervenções com maior chance de sucesso”, complementou.
O Instituto de Psicologia Aplicada (Inpa) foi representado por Rogério Gribel, que aportou a experiência de intervenções de campo e a lição de que solos muito degradados exigem trabalho técnico prévio para permitir a regeneração. “Existem manchas que não se regeneram por anos. Quando o horizonte superficial é removido e o solo compactado, é preciso descompactar, só então a sucessão natural consegue recomeçar”, concluiu.
A discussão reforçou que intervenções feitas sem diagnóstico prévio tendem ao fracasso e que o conhecimento produzido diretamente no campo gera soluções replicáveis para diferentes contextos da Amazônia. Ficou evidente que a recuperação de áreas severamente degradadas exige, antes de tudo, a reconstrução da estrutura do solo e que técnicas testadas em áreas experimentais têm mostrado caminhos concretos para restaurar locais onde a regeneração natural não avança sozinha.
A mesa reuniu abordagens que vão desde o uso de sementes nativas e estratégias comunitárias até tecnologias de monitoramento e metodologias de mapeamento temporal, evidenciando que restaurar florestas significa também fortalecer economias locais e promover justiça socioambiental.
Casa da Ciência
A Casa da Ciência do MCTI, no Museu Paraense Emílio Goeldi, é um espaço de divulgação científica, com foco em soluções climáticas e sustentabilidade, além de ser um ponto de encontro de pesquisadores, gestores públicos, estudantes e sociedade. Até o dia 21, ela será a sede simbólica do ministério e terá exposições, rodas de conversa, oficinas, lançamentos e atividades interativas voltadas ao público geral. Veja a programação completa.
TECNOLOGIA
MCTI lança FormP&D 2026 e Lei do Bem registra recorde de R$ 51,6 bilhões
Investimentos em pesquisa e desenvolvimento resultam em novos produtos, fortalecem a competitividade das empresas, estimulam a criação de empregos qualificados e ampliam a capacidade tecnológica do País. Para acompanhar esse movimento e aperfeiçoar uma das principais políticas de incentivo à inovação empresarial no Brasil, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) lançou, nesta terça-feira (2), em Brasília (DF), o FormP&D 2026. O documento on-line é utilizado pelas empresas beneficiárias da Lei do Bem para declarar suas atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação.
A nova versão do sistema traz atualizações que modernizam os processos de avaliação, ampliam a integração de dados, aperfeiçoam a governança e conferem mais clareza ao preenchimento das informações referentes ao ano-base 2025. As mudanças buscam facilitar a prestação de informações pelas empresas e ampliar a capacidade do governo de acompanhar a evolução dos investimentos privados em inovação.
Ao destacar a importância da Lei do Bem para ampliar a competitividade da indústria brasileira, a ministra do MCTI, Luciana Santos, ressaltou a necessidade de transformar o conhecimento produzido no País em inovação e desenvolvimento econômico.
“O Brasil está entre os maiores produtores de pesquisa e desenvolvimento do mundo, mas ainda precisa avançar na transformação desse conhecimento em inovação, competitividade e crescimento econômico. A Lei do Bem é um instrumento fundamental para fortalecer essa conexão e estimular as empresas a investirem mais”, afirmou Luciana Santos.
A ministra também destacou o papel das políticas públicas de incentivo à inovação e os investimentos do Governo do Brasil. “O compromisso do presidente Lula com a ciência, tecnologia e inovação se traduz em investimentos concretos. Estamos reconstruindo capacidades do Estado brasileiro, fortalecendo instituições e criando condições para que o País avance em uma agenda de desenvolvimento baseada em sustentabilidade, inclusão social e soberania tecnológica”, completou.
Novo FormP&D amplia suporte e simplifica preenchimento
O novo FormP&D 2026 traz uma série de atualizações que simplificam o preenchimento das informações pelas empresas e aprimoram o acompanhamento das atividades apoiadas pela Lei do Bem. Entre as novidades estão uma nova área de suporte técnico ao usuário, a criação de um identificador único para cada projeto, a integração com bases de dados governamentais e a possibilidade de importar informações automaticamente por meio de planilhas em etapas específicas do formulário.
As mudanças também ampliam os instrumentos de orientação disponíveis para as empresas. O Guia do Usuário do novo FormP&D já está disponível no Portal da Lei do Bem. Uma nova edição do Guia Prático da Lei do Bem, prevista para julho, vai reunir orientações atualizadas em linguagem mais acessível, com exemplos, fluxos, checklists e explicações sobre os critérios utilizados na caracterização de projetos de inovação.
Ao apresentar as novidades, o secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCTI, Daniel Almeida, destacou que as atualizações foram construídas a partir das contribuições recebidas do setor produtivo. “Recebemos vários inputs das empresas e das consultorias que utilizam a Lei do Bem. Algumas melhorias já conseguimos implementar agora e outras continuam em desenvolvimento. A ideia é fazer essa grande parceria para avançar continuamente na melhoria do instrumento.”
Entre as iniciativas previstas para os próximos meses estão o lançamento do Programa Embaixadores da Lei do Bem, que vai orientar empresas em todo o País, a ampliação dos mecanismos de avaliação simplificada para projetos desenvolvidos em parceria com instituições de ciência e tecnologia e a implementação de novas soluções de inteligência artificial para apoiar usuários do sistema e equipes responsáveis pelas análises.
Recordes da Lei do Bem
Os resultados de 2023 e 2024 consolidaram o melhor desempenho da história da Lei do Bem. Em apenas um ano, os investimentos privados em pesquisa e desenvolvimento cresceram de R$ 41,93 bilhões para R$ 51,59 bilhões, alta de 23% e aumento de R$ 9,66 bilhões. O período também registrou recordes de participação empresarial, com 4.252 empresas beneficiárias, e de projetos de inovação, que chegaram a 14.877 iniciativas em 2024. A expansão foi acompanhada pelo crescimento da utilização dos incentivos fiscais, cuja renúncia estimada alcançou R$ 11,98 bilhões, reforçando a Lei do Bem como o principal instrumento de estímulo à inovação empresarial no País.
Para o diretor do Departamento de Apoio aos Ecossistemas de Inovação (Depai) do MCTI, Hideraldo de Almeida, os resultados refletem a consolidação da política como o principal instrumento de estímulo à inovação no Brasil, incentivando empresas a investir em tecnologia, competitividade e desenvolvimento científico. “Para que essa política pública continue evoluindo com transparência, eficiência e segurança, é fundamental também modernizar os nossos mecanismos de gestão e acompanhamento”, disse.
Lei do Bem fortalece capital humano
Os resultados da Lei do Bem também refletem a ampliação da força de trabalho dedicada à inovação dentro das empresas brasileiras. Em 2024, 52.222 profissionais atuaram exclusivamente em atividades de pesquisa e desenvolvimento, número significativamente superior aos 34.291 profissionais registrados em 2023.
A maior parte desse contingente era formada por 35.242 graduados e 7.953 pós-graduados, além de 2.835 mestres e 1.454 doutores dedicados a atividades de pesquisa. A força de trabalho também contou com técnicos e tecnólogos responsáveis por ações ligadas a laboratórios, prototipagem e desenvolvimento tecnológico, evidenciando o papel da Lei do Bem na geração de empregos qualificados e no fortalecimento da capacidade científica das empresas brasileiras.
Os resultados de 2023 e 2024 consolidaram um novo patamar para a Lei do Bem. No período, a média anual de investimentos em pesquisa e desenvolvimento chegou a R$ 46,8 bilhões, quase o dobro da registrada entre 2019 e 2022. Com a modernização do FormP&D, o MCTI busca tornar o acompanhamento desses investimentos mais eficiente e aprimorar a produção de informações estratégicas para o desenvolvimento nacional.
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