TRIBUNAL DE JUSTIÇA MT

Identidade, maternidade e esperança: vidas transformadas pela Expedição Araguaia-Xingu

Publicados

em

Aos 52 anos, Sebastião da Costa realizou um sonho que parecia inalcançável, que era tirar o primeiro RG. Nascido no interior de Goiás, chegou a Mato Grosso ainda jovem, acompanhando os pais em busca de uma vida melhor. Desde então, viveu décadas sem documento, o que o impediu de viajar, procurar empregos formais e até de acessar o sistema de saúde.

“Meu sonho era ver minha família em Goiânia. Faz mais de 20 anos que não consigo ir. Sem documento, a gente não viaja e nem vai ao médico”, contou, com a voz embargada. Morando em uma fazenda a 35 quilômetros de Confresa, Sebastião chegou à Expedição Araguaia-Xingu, no distrito de Veranópolis, com a ajuda do patrão, que o avisou sobre os atendimentos da Expedição. “Foi ele quem me deu essa oportunidade. Hoje, realizei o maior sonho da minha vida: ter minha identidade. Pode parecer pouco, mas pra mim é tudo”.

Ao assinar o nome pela primeira vez no documento, Sebastião mal conseguiu conter a emoção. “Tava tremendo, nervoso. Mas deu tudo certo. Agora eu tenho meu RG, e isso vai ficar pra sempre”.

A partir de agora, ele poderá solicitar outros documentos, viajar, acessar o SUS e reencontrar familiares que não vê há mais de duas décadas. “Tem muita gente da minha família que nunca me viu. Quando eu chegar lá, quero dar um abraço apertado e não soltar mais. Agora eu existo de novo”, disse, com lágrimas nos olhos. Ele também aproveitou a Expedição para tirar o título de eleitor.

Salário-maternidade – Além dos atendimentos de documentação, a segunda etapa da expedição também registrou casos de concessão de salário-maternidade, um direito garantido pela legislação federal. O benefício, que representa segurança financeira e dignidade, chegou a mães como Amanda Gomes Moreira, de 18 anos, mãe do pequeno Arthur, de seis meses. “Pra mim, é muita coisa. Uma esperança mesmo. Eu vim fazer meu RG e o salário-maternidade. Vai ajudar muito a gente”, disse, enquanto embalava o bebê nos braços.

Leia Também:  Corregedoria Participativa fortalece laços em Diamantino

Casos como o de Amanda se repetiram em todo o distrito. Desempregada há 10 meses, Juliana Lima Miranda, 31 anos, mãe da Laura Lima Sales, de 23 dias, e moradora de uma fazenda a cerca de 30 km de Confresa, enalteceu a importância do benefício. “Agora vem a bênção de Deus. Dá pra organizar a renda e cuidar da minha filha”, apontou. “A Expedição é ótima, ajuda quem não tem tempo ou condições. Fiquei sabendo e aproveitei. Já deu certo”, acrescentou.

Já a lavradora Bruna Mikaely dos Santos Silva, de 27 anos, percorreu 15 quilômetros da zona rural para garantir o benefício e ainda conseguiu realizar exames oftalmológicos e de saúde para a filha, Helena, de apenas 15 dias. “O exame do olhinho e da orelhinha custariam mais de R$600 na cidade. Aqui, fiz de graça. Agora minha menina tá com tudo em dia”, comemorou.

O oftalmologista da Expedição, Luiz Eduardo Salamoni, explicou que os exames realizados na Expedição vão além do teste do olhinho feito nas maternidades, abrangendo também o mapeamento completo da retina. “É um exame que garante a visão do bebê e identifica possíveis doenças precocemente. Aqui, a gente vê o quanto isso muda a vida das famílias”, destacou.

Encerrando os atendimentos, o juiz José Antônio Bezerra Filho, coordenador da Expedição Araguaia-Xingu, ressaltou o propósito transformador da ação. “O Judiciário precisa sair dos gabinetes e ir até onde as pessoas estão. Essa é uma missão de servir, de enxergar o cidadão em sua essência”, afirmou.

Leia Também:  Novos juízes e juízas têm aula sobre alterações da Lei de Improbidade Administrativa

O prefeito de Confresa, Ricardo Babinski, também destacou o impacto da presença do Poder Judiciário na região. “O povo estava desconfiado, mas ficou impressionado com o carinho e o atendimento. Veranópolis é grande, abrange mais de 7 mil pessoas, e muita gente não tem como ir até a cidade. A Expedição trouxe dignidade pra nossa comunidade”, afirmou.

Foram dias intensos de estrada, poeira e emoção, com centenas de atendimentos que incluíram emissão de documentos, orientação jurídica, serviços de saúde, consultas médicas, regularização eleitoral e ações ambientais. “Seu Sebastião, com 52 anos, não era cidadão do mundo até hoje. Agora é. E é isso que a Justiça tem que fazer: devolver às pessoas o direito de existir”, concluiu o magistrado.

Programação – A 7ª Expedição Araguaia-Xingu percorreu por quase duas semanas as estradas do Vale do Araguaia, com atendimentos realizados entre os dias 5 e 12 de novembro em três pontos do nordeste mato-grossense: Agrovila Jacaré Valente e Distrito de Veranópolis, em Confresa, e Espigão do Leste, em São Félix do Araguaia, levando o lema da atual gestão do Poder Judiciário de Mato Grosso, que é “Justiça Presente, Cidadania Preservada”, às comunidades mais distantes do estado.

Confira os parceiros desta etapa da Expedição

Autor: Talita Ormond

Fotografo: Alair Ribeiro

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

Propaganda

TRIBUNAL DE JUSTIÇA MT

Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude

Publicados

em

Foto horizontal dos anos 1990 que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete abraçado com a filha Érica, que tinha cerca de 10 anos na foto. Ela era uma menina de pele clara com longos cabelos loiros e cacheados.

Das histórias de tantas crianças e adolescentes que ajudou a reescrever, enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete da Silva, atualmente lotado na Comarca de Várzea Grande, encontrou em uma de suas diligências, em 1990, a primeira página de sua própria jornada enquanto pai.

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.

Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.

Já estava escrito

“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.

Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.

“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.

A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.

Leia Também:  Corregedoria e parceiros lançam Semana Nacional do Registro Civil

Foto vertical antiga que mostra o agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete, com a ex-mulher, duas filhas e o filho ainda crianças, em uma festa. Eles posam sorrindo para a foto.Legado construído com exemplo

Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.

Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.

Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.

Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.

Apoio incondicional

Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.

Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

Leia Também:  Novos juízes e juízas têm aula sobre alterações da Lei de Improbidade Administrativa

Imagem quadrada gerada com auxílio de inteligência artificial que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete e sua filha Érica abraçados, com um fundo verde de um parque. Ele é um homem pardo de cabelo grisalho e ela uma jovem branca e loira.

Há oito anos morando na Europa, Érica afirma ser difícil estar longe da família, especialmente em datas comemorativas, como o Dia dos Pais, mas que a única palavra que vem à sua mente nessas horas é gratidão. “Quero que ele saiba que é o melhor pai do mundo, que eu sou muito grata a ele por cada gesto, por cada abraço. Minha maior certeza na vida é que eu amo muito ele. Mesmo distantes fisicamente, graças a Deus somos muito próximos, pois, de certa forma ele me deu a vida”, assevera Érica.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.

Adoção

Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.

Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.

Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.

Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.

Celly Silva

Coordenadoria de Comunicação do TJMT

[email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

Continue lendo

política mt

mato grosso

policial

PICANTES

MAIS LIDAS DA SEMANA