TRIBUNAL DE JUSTIÇA MT

Geraldo Fidélis debate ‘Proteção Social na Monitoração Eletrônica’ durante Conferência Internacional

Danos sociais reforçados pelo uso da tornozeleira, como o racismo estrutural, o encarceramento em massa e prejuízos à reintegração social, foram tratados pelo juiz do Poder Judiciário de Mato Grosso, Geraldo Fidélis durante a primeira Conferência Internacional sobre Monitoração Eletrônica – Tecnologia, Ética e Garantia de Direitos, realizada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), entre os dias 21 e 23 de junho, em Brasília.
 
Geraldo Fidélis é titular da Segunda Vara Criminal de Cuiabá e coordenador do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo do Estado de Mato Grosso (GMF), e foi responsável pelo painel “O lugar da proteção social na monitoração eletrônica”.
 
Apesar do objetivo principal da monitoração eletrônica ser a garantia da segurança pública e do cumprimento de medidas judiciais, o CNJ reuniu especialistas e críticos do mundo inteiro no debate sobre a eficácia social do mecanismo. A marginalização social imposta aos usuários do equipamento tem causado efeitos contrários àqueles esperados pela sociedade. Quanto maiores os estigmas e preconceitos vividos pela pessoa monitorada, maiores os níveis de violência e revolta como resposta ao preconceito vivido.
 
Os efeitos emocionais podem ser devastadores, afirmam os participantes da conferência.
 
“Há a necessidade urgente em desmistificar o senso comum de que toda pessoa portadora de tornozeleira eletrônica é malandra, isso tem causado danos físicos, sociais e psicológicos irreversíveis, limitando a reinserção social. Esse tipo de discurso apenas fortalece as estratégias de repressão e controle social, reforçando desigualdades jurídicas como o movimento de expansão das penas, o reconhecimento do poder punitivo, a seletividade penal, o racismo estrutural e o encarceramento em massa, aplicados em resposta ao clamor público, mas que apenas multiplicam a violência no individuo fora da prisão”, defendeu o juiz Geraldo Fidélis.
 
“O monitoramento eletrônico é alternativa à prisão ou à liberdade? O que acontece com uma pessoa monitorada se ela estiver perto de uma loja e o estabelecimento for assaltado? Sabemos bem o estigma sobre quem usa uma tornozeleira eletrônica. Precisamos buscar meios para assegurar os direitos dessas pessoas. Mas, para isso, precisamos superar repertórios punitivistas que olham a monitoração eletrônica como benefício”, enfatizou o juiz.
 
O magistrado também chamou a atenção sobre as disfunções na aplicação da tornozeleira, que deve ser encarada como medida excepcional ou alternativa a prisão provisória, não devendo ser aplicada como elemento adicional e de controle para aqueles que já respondem ao processo em liberdade. O caráter subsidiário da tornozeleira indicada como medida para casos menos graves também deve ser respeitado. “O uso do equipamento hoje, nada mais é do que uma tecnologia capaz de manter o indivíduo sob controle em tempo real, cuja disciplina é feita sob a ameaça constante de retorno a prisão, a chamada ‘opressão da vigilância’”.
 
No mesmo raciocínio, a defensora pública do Estado do Rio de Janeiro e assessora do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas do CNJ, e mediadora do painel, Caroline Tassara, destacou que o sistema de justiça criminal brasileiro não deve se limitar à restrição de liberdade, mas buscar promover a reintegração social da pessoa monitorada.
 
“Favorecer as condições de reinserção na sociedade de forma saudável e sustentável, esse deve ser o papel do sistema de justiça brasileiro. E falando sob esse aspecto, a proteção social está relacionada à proteção da violação de direitos e a garantia do direito à dignidade humana, devendo ser tratadas de forma justa e igualitária com seus direitos preservados o longo desse processo, o que se mostrou ao longo da conferência como um enorme desafio”.
 
Já a coordenadora nacional de Monitoração Eletrônica da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Brasil), Manuela da Silva Amorim, defendeu que apesar de disponível, a eficácia sobre o uso do equipamento não pode deixar de ser debatido, muito menos seus efeitos. “Não podemos tornozelar uma pessoa e deixar ela voltar para o mesmo contexto que a levou ao cárcere. E para isso precisamos primeiro garantir o trabalho efetivo das centrais e de seus operadores, com apoio de equipe multidisciplinar no acompanhamento da medida”.
 
O professor de criminologia e pesquisador da Universidade de Nova Zelândia, Liam Martin, afirmou que o país possui o maior nível de monitoramento eletrônico per capita do mundo. “As maiores empresas do mundo hoje vivem a partir do rastreio e comportamento das pessoas. Com o celular, hoje em dia, estamos rastreáveis em quase qualquer lugar do mundo. Com isso, começamos a pensar em outras formas de monitoramento eletrônico no campo da Justiça Criminal, precisamos utilizar dessas tecnologias e criar redes seguras de acompanhamento”.
 
Em depoimento sobre sua trajetória como pessoa monitorada, o egresso do sistema penitenciário, presidente da Associação ‘Mais Liberdade’ e coordenador da Rede de Atenção à Pessoa Egressa do Sistema Prisional (Raesp) de Mato Grosso, Sandro Augusto Lohmann, fez referência à visão progressista e ao tratamento humanizado realizado pelo juiz Geraldo Fidélis junto aos egressos do sistema penitenciário de Mato Grosso, que tem oportunizado condições reais de reinserção social, e relembrou as dificuldades vividas pela população LGBTQIA+.
 
“Quando me perguntam o que é e como se faz justiça social eu tenho certeza que não é com tornozeleira. Enquanto egresso LGBTQIA+ do sistema penitenciário, a Resolução 348 do CNJ é o que tem nos salvado, garantindo condições mínimas de existência no país que mais mata essa população. Precisamos falar aqui sobre a dupla invisibilidade e também a vulnerabilidade enfrentada pelas pessoas LGBTQIA+. A nossa população [LGBTQIA+] egressa do sistema, é uma população jovem com idade média entre 18 e 26 anos, formada por pessoas pardas e pretas, e de baixa escolaridade. Entre os egressos do sistema penitenciário que desistiram de estudar, 63,2% deles são pessoas trans e travesti, ou seja, a maioria abandona os estudos motivados pela discriminação, o que só aumenta nossa vulnerabilidade”.
 
A Conferência reuniu ao longo de três dias, palestrantes, ministros do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), representantes do CNJ, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, além de magistrados, pesquisadores e integrantes da sociedade civil.
 
O evento integra as atividades do programa Fazendo Justiça, executado pelo CNJ em PNUD e apoio da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), para incidir em desafios no campo da privação de liberdade.
 
#Paratodosverem. Esta matéria possui recursos de texto alternativo para promover a inclusão das pessoas com deficiência visual. Primeira imagem: Juiz Geraldo Fidélis faz uso da fala no púlpito. Ele veste terno cinza médio, com camisa branca e gravata azul claro. Na altura do peito esquerdo, ele usa um boton com as letras ‘CNJ’, Conselho Nacional da Justiça. A sua frente, um microfone preto em um pedestal. Segunda imagem: Presidente da Associação ‘Mais Liberdade’ Sandro Augusto Lohmann faz uso da fala. Ele veste um blazer preto com uma camiseta branca escrito abre aspas Dupla Invisibilidade e Ciclos Infinitos fecha aspas. Na altura do peito esquerdo usa um boton com as marcas do Conselho Nacional de Justiça.
 
Naiara Martins
Coordenadoria de Comunicação da Presidência do TJMT
 

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

Leia Também:  Centros de atenção às vítimas: Mato Grosso compartilha experiência com Tribunal do Amazonas
Propaganda

TRIBUNAL DE JUSTIÇA MT

Audiência pública reúne centenas de pessoas para discutir lei de combate ao crime organizado

Foto horizontal em plano aberto que mostra a plateia lotada no auditório do Tribunal de Justiça. A audiência pública “A Lei do Combate ao Crime Organizado no Brasil e os impactos no sistema de justiça criminal: desafios e oportunidades” atraiu mais de 200 pessoas, na tarde desta sexta-feira (12), no auditório do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), para debater a Lei nº 15.358/2026 e seus reflexos no sistema de justiça criminal. A nova lei, que desde 24 de março instituiu o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado no Brasil, tipifica os crimes de domínio social estruturado e de favorecimento ao domínio social estruturado, altera o Código Penal e o Código de Processo Penal brasileiros, bem como legislações correlatas.

O evento foi promovido pelo Poder Judiciário de Mato Grosso, por meio da Corregedoria-Geral da Justiça (CGJ), em parceria com o Ministério Público do Estado (MPE), a Polícia Judiciária Civil (PJC) e a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT). Houve transmissão ao vivo por meio do canal TJMT Eventos no YouTube.

Foto horizontal que mostra o presidente do TJMT, desembargador José Zuquim, falando ao microfone. Ele é um senhor de pele branca, cabelos e barba brancos, usando terno cor creme e gravata marrom. Ao fundo, um telão com as informações da audiência pública.A abertura da audiência contou com pronunciamento do presidente do TJMT, desembargador José Zuquim Nogueira, que apontou a sensibilidade e atualidade do tema. “O crime organizado mudou sua forma de agir. Alcança diferentes áreas da vida social e econômica e exige do Estado respostas firmes, preparadas e responsáveis”, destacou.

Ele ressaltou ainda a importância de refletir sobre investigações, responsabilização, garantias processuais e atuação integrada de todos os órgãos públicos, de forma equilibrada, séria e cuidadosa, por exemplo, com a qualidade da prova, com o uso correto dos instrumentos legais e, acima de tudo, com a preservação da confiança da sociedade na justiça. “O Poder Judiciário recebe esse debate com espírito de escuta e cooperação. A contribuição do Ministério Público, da polícia, da advocacia, da academia, da Defensoria e dos demais participantes é essencial para que possamos aprimorar práticas e construir respostas mais seguras”, declarou.

Foto horizontal que mostra o desembargador José Luiz Leite Lindote do busto pra cima, falando ao microfone. Ele é um homem branco, de cabelos grisalhos, usando camisa branca, gravata rosa e terno azul marinho.O corregedor-geral da Justiça, desembargador José Luiz Leite Lindote, responsável pela audiência pública, ressaltou que a CGJ-MT decidiu promover o evento por compreender que o enfrentamento ao crime organizado exige diálogo permanente entre as instituições que integram o sistema de justiça criminal. “A recente Lei nº 15.358, conhecida como Marco Legal de Combate ao Crime Organizado, trouxe novos instrumentos, novos conceitos e novos desafios para a investigação, o processamento e o julgamento de crimes. Diante dessas mudanças, é fundamental debater seus impactos e refletir sobre sua aplicação prática”.

Leia Também:  Centros de atenção às vítimas: Mato Grosso compartilha experiência com Tribunal do Amazonas

Segundo Lindote, a audiência pública é exemplo de uma atuação conjunta entre o Poder Judiciário, Ministério Público, Polícia Judiciária Civil e a OAB-MT. “Essa integração institucional tem produzido resultados em Mato Grosso, a exemplo da articulação que possibilitou a realização do primeiro leilão de sucatas vinculadas à jurisdição criminal, que resultou na arrecadação de cerca de R$ 675 mil para os cofres públicos”, enfatizou, informando que o resultado foi fruto de evento anterior, o Recupera MT, no qual foi assinada a Resolução Conjunta nº 01/2025 com o Estado.

Foto horizontal que mostra o delegado de polícia Valter de Melo Fonseca Júnior do busto pra cima, falando ao microfone. Ele é um homem branco, alto, de cabelo e barba pretos, usando camisa branca, gravata azul estampada e terno azul. Ao fundo, um telão com as informações da audiência pública.Representando a Secretaria de Estado de Segurança Pública, o delegado de polícia Valter de Melo Fonseca Júnior afirmou que a audiência pública é o momento oportuno para pensar no atual cenário nacional. “A sociedade tem exigido respostas do Estado e nós acreditamos, enquanto Segurança Pública, que a resposta se faz através da integração. Os desafios são grandes, a legislação nova. Tem vários conceitos que precisam ser interpretados, como o conceito de domínio social. São novas tipificações, novos processos e são temas que temos que enfrentar em conjunto”, disse, enaltecendo a iniciativa do Poder Judiciário.

Foto horizontal que mostra o promotor de justiça Renee do Ó do busto pra cima, falando ao microfone. Ele é um homem branco, de cabelo preto, usando camisa branca, gravata e terno azul marinho e óculos de grau. Atrás dele é possível ver parte de um telão.O promotor de justiça Renee do Ó Souza pontuou que, em todo o país, o crime organizado está estabelecido e notabilizado pelo incremento do lucro e regido pela prática extremamente violenta, características que são o foco da nova lei, também conhecida como Pacote Anti-facção. “Este evento marca o pontapé do Poder Judiciário, do Ministério Público, da Defensoria e da Advocacia, da Polícia Civil e de toda a população brasileira que se destina e que quer enfrentar adequadamente o crime organizado”, disse.

Foto horizontal que mostra o advogado Giovane Santin do busto pra cima, falando ao microfone. Ele é um homem branco, de barba e cabelos castanhos claros, usando camisa branca, gravata púrpura e terno azul marinho e óculos de grau.Vice-presidente da OAB-MT, Giovane Santin classificou o debate como de grande importância não só para o Estado de Mato Grosso, mas para todo o país. “Um momento em que precisamos entender e enfrentar de fato todas as consequências geradas por esse fenômeno que conhecemos e chamamos vulgarmente de facções criminosas”, disse. O advogado agradeceu ao Poder Judiciário pela oportunidade de cada instituição envolvida expor seus entendimentos sobre o tema.

Leia Também:  Tribunal de Justiça homologa acordo e prorroga prazo para pagamento do IPTU

Foto horizontal que mostra o defensor público Fernando Antunes Soubhia falando ao microfone. ele é um homem branco, calvo, usando camisa branca, gravata laranja, terno azul marinho e óculos de grau.O defensor público e diretor da Escola Superior da Defensoria Pública de Mato Grosso (DPE-MT), Fernando Antunes Soubhia fez uma crítica ao Pacote Anti-facção, afirmando que ele “repete a receita” que o Brasil testa pelo menos desde 1988 e que “fracassa” desde então. “Aumenta a pena, endurece regime, suprime o benefício. A gente fez isso em 90, como a lei dos crimes hediondos. Isso só fez aumentar a população carcerária, aumentar o contingente das facções, que agora se nacionalizaram e tornaram os seus métodos cada vez mais elaborados”, disse.

Ao apontar que “o cárcere historicamente é o maior centro de recrutamento das organizações criminosas”, Soubhia defendeu que este não seria o melhor método para lidar com o problema. Apontou ainda que “o sistema penal é seletivo e vai continuar sendo seletivo”, prendendo majoritariamente pessoas pretas, pobres e periféricas. “Infelizmente, mais uma vez, a resposta que o Estado dá à sua própria ausência nas comunidades vulnerabilizadas é o direito penal”, criticou. Por fim, o defensor público insistiu que segurança pública se constrói com o Estado presente no território, escola, saúde, trabalho e urbanização. “O que essa lei oferece, mais uma vez, é o Estado chegando com o fuzil e algema. Precisamos fazer melhor que isso”, asseverou.

Registro de presenças

Participaram da audiência pública o ouvidor-geral do Poder Judiciário, desembargador Rodrigo Curvo; o supervisor do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF-MT), desembargador Orlando Perri; os desembargadores Jorge Luiz Tadeu Rodrigues e Wesley Sanchez Lacerda; o juiz auxiliar da Presidência e secretário-geral do TJMT, Agamenon Alcântara Moreno Júnior; os juízes auxiliares da CGJ-MT João Filho de Almeida Portela, Jorge Alexandre Martins Ferreira e Myrian Pavan Schenkel; o delegado Cláudio Álvarez Santana, representando a Polícia Judiciária Civil; o coordenador da CGJ-MT, João Gualberto Neto, além de juízes e juízas, advogados e advogadas, assessores, estudantes de Direito, servidores e servidoras do Poder Judiciário, entre outros interessados no tema da audiência pública.

Autor: Celly Silva

Fotografo: Rodrigo Moura

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

Continue lendo

política mt

mato grosso

policial

PICANTES

MAIS LIDAS DA SEMANA