TECNOLOGIA
Soberania tecnológica se constrói com pessoas: como a formação de talentos impulsiona a autonomia científica do País
Em um mundo em que conhecimento é poder e tecnologia molda competitividade, garantir que o Brasil construa capacidades próprias é mais do que uma ambição: é uma necessidade estratégica. A soberania tecnológica — isto é, a capacidade de desenvolver soluções científicas, produtos e plataformas tecnológicas internamente — abre caminhos para a autonomia econômica e social.
As histórias de quem faz ciência no Brasil costumam começar cedo, muitas vezes ainda na graduação, quando o primeiro contato com a pesquisa abre caminhos que se estendem por toda a vida profissional. É nesse momento que o investimento público se revela decisivo, ao oferecer condições para que talentos sejam formados, permaneçam no sistema científico e avancem em trajetórias de longo prazo, dentro e fora do País.
Ao longo desse percurso, bolsas de estudo, programas de mobilidade e políticas de fomento funcionam como pontes entre a formação inicial e a pesquisa de alto nível. A experiência internacional, longe de representar uma ruptura, passa a integrar um ciclo mais amplo de qualificação, no qual o retorno ao Brasil se torna parte estratégica do fortalecimento da ciência nacional.
No caso do físico Deyvid do Carmo Silva, esse percurso foi sendo construído passo a passo, sempre amparado pelas bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Da iniciação científica ao pós-doutorado no exterior, o apoio público garantiu continuidade, permitiu o amadurecimento acadêmico e o inseriu em redes internacionais de pesquisa.
O retorno ao Brasil, viabilizado pelo programa Conhecimento Brasil, marcou um novo capítulo: a possibilidade concreta de transformar a experiência acumulada fora em infraestrutura, produção científica e formação de novos talentos dentro do País.
“Hoje fica muito claro para mim que esse investimento contínuo em formação realmente funciona: ele forma pesquisadores preparados para atuar em qualquer lugar do mundo e, ao mesmo tempo, cria as condições para que possamos voltar e contribuir para a ciência brasileira”, afirma.
O programa Conhecimento Brasil, executado pelo CNPq com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), é um dos principais exemplos dessa estratégia de qualificação do capital humano. Com foco em atrair pesquisadores brasileiros que atuam no exterior ou que tenham concluído doutorado ou pós-doutorado fora do País, a iniciativa abriu chamadas públicas que resultaram em centenas de projetos aprovados para execução em universidades, instituições de pesquisa e empresas nacionais.
Na chamada mais recente, foram aprovados 599 projetos, com investimento previsto de cerca de R$ 604 milhões. A maior parte das iniciativas é desenvolvida em universidades e institutos de pesquisa brasileiros, além de ações em empresas, com distribuição territorial que contempla regiões historicamente subfinanciadas, como Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Mais do que números, os resultados do programa se traduzem em histórias concretas de continuidade científica, nas quais o retorno ao Brasil não interrompe carreiras, mas amplia impactos e consolida grupos de pesquisa em áreas estratégicas.
Na neurociência, a trajetória de Lívia Hecke Morais segue um fio semelhante. Bolsista desde a graduação, ela acompanhou de perto o papel do CNPq em cada etapa de sua formação, até a experiência internacional que ampliou seu repertório científico. O retorno ao Brasil não significou recomeçar do zero, mas dar continuidade a uma história já em curso, agora com a chance de aplicar o conhecimento adquirido fora em diálogo direto com instituições nacionais, estudantes e grupos de pesquisa locais.
A repatriação representou um ponto de inflexão: a ciência feita no exterior passou a ganhar sentido concreto ao ser incorporada às demandas e desafios do País. “Sem apoio desde cedo, perdemos muitas pessoas com potencial. O Conhecimento Brasil chegou no momento certo, permitindo que minha ciência continuasse a fazer sentido e pudesse ser colocada a serviço do País”, destaca.
De acordo com os dados da demanda bruta submetida às duas chamadas do programa Conhecimento Brasil, mais de 2,5 mil pesquisadores e pesquisadoras brasileiros radicados em 56 países demonstraram interesse em regressar ao Brasil ou atuar em cooperação científica com instituições e empresas nacionais — um indicativo claro da mobilidade da comunidade científica e do potencial de retorno de talentos altamente qualificados ao sistema nacional de ciência e tecnologia.
Já Ana Paula Nascimento de Lima construiu sua carreira em trânsito, circulando por centros de pesquisa internacionais e formando uma rede de colaborações que ultrapassa fronteiras. Essa vivência ampliou sua formação técnica e reforçou uma convicção central: ciência se constrói de forma coletiva e com continuidade. Com o apoio do Conhecimento Brasil, o retorno ao País abre espaço para consolidar linhas de pesquisa, fortalecer parcerias com instituições estrangeiras e atuar na formação de novos pesquisadores, conectando o sistema científico brasileiro a fluxos globais de conhecimento.
“Ciência não se faz sozinha. O papel do CNPq é garantir continuidade, autonomia e colaboração para que possamos construir um legado científico e tecnológico de longo prazo no Brasil”, disse Ana Paula Nascimento de Lima.
Da formação de talentos à autonomia tecnológica
Esse conjunto de iniciativas se insere em uma atuação mais ampla do Governo do Brasil para fortalecer a base científica nacional. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) tem trabalhado de forma articulada para transformar essa visão em política pública, combinando investimentos, programas estruturantes e ações voltadas à formação e à valorização de pesquisadores em todas as regiões do País.
A consolidação da soberania tecnológica passa pela capacidade de estruturar um ecossistema científico sólido, com instituições fortalecidas, financiamento previsível e oportunidades para que profissionais altamente qualificados desenvolvam suas atividades no Brasil. Ao integrar essas frentes, o Poder Público busca reduzir dependências externas, ampliar a produção de conhecimento aplicado e alinhar a ciência às estratégias de desenvolvimento econômico e social.
“A soberania tecnológica não é um conceito distante: constrói-se com investimento contínuo, políticas consistentes e com profissionais qualificados que atuem aqui. Nossa missão é transformar recursos em capacidade produtiva, para que o Brasil decida, produza e inove com autonomia”, afirmou a ministra Luciana Santos ao destacar a importância da formação e da ciência para o futuro do País.
Essa diretriz também se reflete no fortalecimento institucional dos órgãos de fomento. Ampliando o alcance do Conhecimento Brasil e de outras ações estratégicas do CNPq, o Governo do Brasil publicou a Portaria GM/MPO nº 12/2026, que recompôs o orçamento da entidade com um crédito suplementar de R$ 186,3 milhões dedicado à formação, capacitação e à fixação de recursos humanos no sistema nacional de ciência e tecnologia.
Para o presidente do CNPq, Olival Freire Júnior, a recomposição representa um passo relevante na retomada das políticas de fomento. “Com a recomposição de R$ 186 milhões no orçamento de bolsas do CNPq, voltamos ao patamar previsto na PLOA, recuperando cortes anteriores. Trata-se de medida positiva que expressa a sensibilidade do presidente Lula com os desafios da ciência e tecnologia. Contudo, esses valores ainda não bastam para estabilizar o fluxo de bolsas contempladas pelo CNPq”, explicou.

- Programas de capacitação do MCTI
TECNOLOGIA
Por que é tão importante registrar e mapear a biodiversidade brasileira? A ciência explica
A biodiversidade brasileira é riquíssima. O Brasil é líder em número de espécies de anfíbios e peixes de água doce, por exemplo, e está no top 5 quando se trata de outros vertebrados, como aves, mamíferos e répteis. Com tamanha variedade e importância mundial, mapear os exemplares é fundamental para o monitoramento científico.
A pesquisadora do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) Thais Condez explica que o monitoramento facilita a identificação de padrões de migração, de reprodução e de ocupação dos habitats; e gera informações para pesquisadores, como dados sobre polinização, essenciais para a produção de frutos. Além disso, esse tipo de conhecimento tem impacto na saúde humana, visto que a perda de habitats naturais e a redução da diversidade biológica podem aumentar o contato das pessoas com animais silvestres, favorecendo a transmissão de vírus e bactérias.
Os registros de espécies são uma parte fundamental da pesquisa e podem ser feitos pelo próprio pesquisador. Fotografias, gravação de sons, registros de pegadas, identificação de fezes e coleta de material, tanto de animais quanto de plantas, são artifícios que podem ajudar. Em alguns casos, porém, as espécies são catalogadas e mapeadas de formas diferentes. Os equipamentos utilizados para registrar peixes, por exemplo, são distintos daqueles utilizados para anfíbios.
O pesquisador do Instituto de Pesquisa do Pantanal (INPP), unidade vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Leonardo Moreira explica que algumas espécies, por serem migratórias, são de difícil detecção. “Em muitos casos, os pesquisadores enfrentam dificuldades em dizer se determinada espécie passou ou permanece na região”, diz. Essas informações são fundamentais para a criação de estratégias de conservação que considerem não apenas um território específico, mas toda a rota utilizada pelos animais.
A participação da comunidade também está presente nesse tipo de pesquisa. A chamada ciência cidadã, ou ciência comunitária, ocorre quando a população pode auxiliar de algumas formas na identificação de espécies migratórias. Segundo pesquisa do Instituto Brasilieiro de Geografia e Estatística (IBGE), a participação da população passou a ter um papel central na fornecendo registro, respondendo por 49,83% das ocorrências disponíveis. Pequenos registros, como fotos, ajudam a identificar a passagem de animais. “A imagem é uma informação super importante, que mostra que determinada espécie ocorre naquela área, ou que, pelo menos, passa por ali em determinada época do ano”, explica.
O levantamento tem como base os dados do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr), que ajuda na junção dessas informações, como um nó, conectando dados nacionais e internacionais. Isso permite que pesquisadores de diferentes países utilizem esses dados em estudos de escala regional e global.
De acordo com o estudo do IBGE, em 2025, os maiores volumes absolutos de espécies catalogadas no Brasil concentram-se nos grupos de aves (19.011.519 registros), plantas (11.157.476) e artrópodes (3.694.793). Já os maiores incrementos em relação a 2022 foram observados em fungos, com aumento de 176,6%, seguidos por mamíferos (155%) e peixes (139,9%).
Entre outros meios de mapeamento estão os satélites, como o Amazônia-1B que ajuda órgãos de monitoramento ambiental a orientar ações de fiscalização, planejamento e resposta a eventos extremos. Estudar a movimentação na área juntamente com pesquisadores que fazem esses registros de espécies torna possível entender em quais áreas determinadas espécies estão ameaçadas.
-
POLÍTICA MT7 dias atrásDepois da polêmica envolvendo o SAMU, Pivetta envia outra mensagem polêmica à Assembleia com proposta de extinguir Ouvidoria; deputado Dr. João é contra medida
-
TCE MT6 dias atrásSérgio Ricardo esquece que é presidente do TCE, dá uma de deputado, é criticado nas redes e esculhamba internautas, inclusive mulher, chamando seguidora de “idiota” Veja prints
-
POLÍTICA MT3 dias atrásArticulação de bastidores pode unir Max Russi, Janaína Riva e Jayme Campos em recuo estratégico de Wellington Fagundes em chapa ao Governo de Mato Grosso
-
POLÍTICA MT5 dias atrásBem humorado:Jaime minimiza pesquisa MT Dados, questiona números e sugere interferência de grupo governista; veja vídeo
-
POLÍTICA MT5 dias atrásCattani critica entraves e defende avanço da Ferrogrão, após decisão do STF
-
POLÍTICA MT5 dias atrásDeputado Gilberto Cattani é homenageado por atuação em ações comunitárias e apoio à segurança pública
-
POLÍTICA MT5 dias atrásLúdio questiona governo sobre contratação de mil vigilantes temporários para presídios
-
POLÍTICA MT2 dias atrásConheça Manciolli, o homem de confiança de Otaviano Pivetta


